A fumaça queimava os pulmões.
O vento trazia cinzas e gritos.
Mas nada; nada faria Olívia parar.
— Senhora, não pode passar! — gritou um bombeiro, segurando-a pelos ombros.
Ela se desvencilhou com uma força que não sabia possuir. O hospital ainda estava em sua pele: o avental branco, os pés descalços, o curativo no braço queimado. Mas seus olhos, os olhos de uma mulher que já conheceu o inferno, ardiam mais do que qualquer labareda.
— Ele está lá dentro! — ela gritou, empurrando o bombeiro. — Meu marido está lá!
Carla vinha logo atrás, tossindo pela fumaça, os cabelos desgrenhados.
— Olívia, pelo amor de Deus! — ela tentou alcançá-la. — Você vai morrer aí dentro!
Mas Olívia não ouviu.
O ruído do fogo, o som distante de metal cedendo; tudo se misturava a uma única voz em sua mente: Ian.
O caos ao redor era quase irreal.
Mangueiras jorravam jatos de água que viravam vapor antes de tocar o chão.
O cheiro de gasolina e ferro derretido se misturava ao sal do mar.
Bombeiros gritavam ordens sobre explosivos, e a manhã pulsava vermelha.
Matheus surgiu, sujo de fuligem, o rosto tenso.
— Carla, volta pro carro agora! — ele agarrou o braço dela com firmeza. — Não entra, ouviu?
— Mas ela vai se matar! — Carla protestou, os olhos marejados.
— Então me deixa trazê-la de volta! — Matheus respondeu, correndo em direção às docas.
Olívia avançava entre vigas queimadas e fumaça densa.
A cada passo, sentia o chão tremer, mas não parava.
Até que o viu.
Ian estava de pé, ensanguentado, em meio ao fogo, um vulto de sombra e luz, o terno rasgado, o rosto marcado.
E logo à frente dele, o irmão, mais pálido agora, o olhar vazio e um sorriso arruinado no rosto.
— Você devia me agradecer — o homem disse, a voz distorcida pelo calor. — O fogo purifica. E agora ele vai mostrar quem você realmente é, Ian.
Ian cambaleou, as chamas refletindo em seus olhos.
— Acabou — ele disse, baixo. — Tudo acaba agora.
O irmão deu um passo para trás, o fogo o engolindo parcialmente.
— Acabou? — riu. — Nada acaba enquanto a verdade estiver enterrada com ele.
Ele apontou para o chão sob os pés de Ian, onde contêineres com o brasão dos Moretti ardiam. — O que eu sei sobre Nicolau... sobre você... pode fazer o mundo ruir. E só um de nós tem coragem de reconstruí-lo.
Ian tentou avançar, mas uma viga acima estalou e despencou.
O impacto o lançou ao chão com um estrondo.
O som foi tão forte que o ar pareceu ser sugado do ambiente.
— Ian! — Olívia gritou, disparando em sua direção.
O irmão olhou para ela, por um instante, algo quase humano atravessou seus olhos.
Depois, ele deu um passo para trás e desapareceu entre a fumaça, engolido pelo incêndio.
Olívia caiu de joelhos ao lado de Ian, empurrando pedaços de metal e madeira com as mãos nuas.
O calor era insuportável, mas ela não sentia dor, só o pavor gelado de perdê-lo.
— Não... não agora! — ela soluçava, puxando-o para o colo. — Você não pode me deixar!
Olívia se recusava a soltar Ian.
— Cuidado com ele! Ele tá ferido!
Ian tentou falar algo, mas o sangue nos lábios o impediu.
Ele apenas olhou para ela, e, por um breve instante, sorriu.
Um sorriso fraco, mas real.
Quando o puxaram para fora, o fogo consumia o teto atrás deles.
As labaredas se erguiam como muralhas, e o som metálico da estrutura cedendo ecoava pelo ar.
Carla, do lado de fora, chorava, coberta de cinzas, ao ver Olívia sair arrastando o corpo dele ao lado dos bombeiros.
O mar rugia, e o fogo refletia nas ondas.
Matheus olhou para o horizonte e soube, com a frieza instintiva de quem conhece o destino:
aquilo ainda não tinha terminado.
Olívia mantinha a mão de Ian entre as suas, mesmo quando o colocaram na maca.
Mesmo quando os médicos tentaram afastá-la.
Mesmo quando ele desmaiou.
Ela encostou o rosto no peito dele, o som do coração dele abafado entre sirenes e chamas.
— Você me escuta, Ian? — murmurou, a voz partida. — Se você morrer, eu juro que vou te odiar pra sempre.
E então, por um segundo, ela sentiu, o movimento fraco da mão dele apertando a dela.
Uma promessa silenciosa.
Um lembrete de que, mesmo cercados pelo fogo, o amor deles ainda respirava.

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