O corredor da ala de terapia intensiva tinha cheiro de desinfetante e desespero.
A cada passo que dava, Olívia sentia o peso do silêncio, o eco distante de máquinas lutando contra o tempo.
Ela segurava o casaco sobre os ombros, o cabelo ainda úmido, os olhos cansados, mas havia algo em seu rosto agora, uma determinação que não existia antes.
Helena a guiou até a última porta do corredor.
— Ele pediu para ver só você — disse, com voz baixa. — Está... muito fraco, Olívia.
Olívia assentiu, respirando fundo antes de empurrar a porta.
O quarto estava mergulhado em penumbra.
A única luz vinha do monitor cardíaco e do abajur ao lado da cama.
Nicolau Moretti parecia uma sombra de si mesmo; o titã que um dia dominara metade da costa italiana agora era um velho franzino, o corpo consumido, os olhos fundos e marejados.
Mas ainda havia fogo ali.
O mesmo fogo ancestral que movia os Moretti desde o início.
Quando ela entrou, ele abriu os olhos, demorando alguns segundos até reconhecê-la.
— Olívia... — o nome saiu como um sopro. — Você veio.
Ela se aproximou, hesitante.
— Eu soube do seu estado... — a voz dela vacilou. — Como o senhor está?
Ele esboçou um sorriso torto.
— Morrendo devagar. — tossiu leve, os dedos tremendo enquanto ajeitava o lençol. — Mas ainda lúcido o bastante para tentar consertar o que destruí.
Olívia sentou-se ao lado da cama.
— Ian está se recuperando — disse, tentando encontrar algo de conforto. — Ele sobreviveu.
Os olhos de Nicolau se fecharam, como se aquela notícia o aliviasse e o atormentasse ao mesmo tempo.
— Eu sabia... — murmurou. — Morettis não morrem fácil.
Por um momento, o silêncio reinou, pesado.
Até que ele virou o rosto lentamente em direção a ela.
— O pergaminho. — disse com esforço. — Conseguiram recuperá-lo?
Olívia franziu o cenho.
— Ainda não. Alexander levou. Mas por quê? O que há naquele documento?
O velho olhou fixamente para o teto, como se buscasse forças no passado.
— Aquilo muda tudo, minha querida. — sua voz era rouca, trêmula. — Aquilo é o que define quem realmente é dono deste império.
Olívia sentiu o estômago se contrair.
— Como assim? — perguntou, a voz já tomada pelo medo. — Do que está falando?
Nicolau respirou fundo, o som áspero enchendo o quarto.
— Ian... — ele começou. — Ian foi preparado para herdar o trono, mas o verdadeiro herdeiro... o sangue puro... não é ele.
Olívia o encarou, os olhos arregalados.
— Isso é impossível. — sussurrou. — O que está dizendo?
Nicolau se virou lentamente, encarando-a com um olhar que misturava pena e reverência.
— Você sabe do que estou falando, Olívia. — disse com calma mortal. — A chave de tudo está no menino. No seu filho.
O chão pareceu sumir sob os pés dela.
— Léo? — o nome escapou como uma prece. — O senhor... está dizendo que Léo...
— É o herdeiro legítimo dos Moretti. — Nicolau completou, sem hesitação. — O primeiro bisneto nascido do sangue de Ian. O testamento sempre foi claro. O poder, as empresas, as terras; tudo passa para o primeiro descendente da quarta geração. E essa geração... é ele.
Era a última peça de um jogo que começara antes mesmo de ela nascer.
Enquanto isso, do lado de fora, no corredor, uma sombra se movia atrás da porta entreaberta.
Clara.
Os olhos dela estavam arregalados, o rosto pálido.
Ela encostou as costas na parede, respirando com dificuldade.
A mente rodava, tentando processar o que ouvira.
— Léo... o herdeiro... — murmurou, o veneno do ciúme e do desespero se misturando.
As mãos tremiam quando ela puxou o celular do bolso.
Ligou.
— Alexander... — a voz dela saiu em um sussurro urgente. — Precisamos nos encontrar. Agora.
Silêncio do outro lado. Depois, a voz dele, baixa, metálica:
— Por que, Clara?
Ela olhou em volta, certificando-se de que ninguém a ouvia.
— Porque ainda tenho algo que te interessa. — disse, firme. — Além do mais, o filho que carrego também é um Moretti.
Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos.
Então Alexander respondeu, a voz agora impregnada de um sorriso que Clara não podia ver, mas sentiu até os ossos.
— Então acho que está na hora de fazermos nossa própria sucessão.
A ligação caiu.
E Clara, com o coração disparado e um frio subindo pela espinha, percebeu que acabara de atravessar uma linha da qual jamais voltaria.

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