Quando Olívia retornou, o corredor do hospital estava silencioso demais.
O tipo de silêncio que não nasce da paz, mas do esgotamento. O tipo que segue as tempestades.
Olívia caminhava devagar, o som dos próprios passos ecoando no piso encerado. O encontro com Nicolau ainda fervia em sua mente, as palavras dele, o peso do que fora dito, e o nome que agora pulsava como uma sentença inevitável.
“O herdeiro de tudo será o primeiro filho do primeiro neto.”
Léo.
Seu filho.
Ela parou diante da janela, o vidro frio contra a testa. Lá fora, o céu começava a clarear em tons de cinza e ouro, e ela pensou em como o amanhecer parecia uma ironia cruel; a luz surgindo quando tudo dentro dela escurecia.
Helena estava no saguão pediátrico com Léo no colo. O menino dormia, a cabeça apoiada no ombro da enfermeira. Havia tranquilidade em seu pequeno rosto, e isso a destruiu por dentro.
“Ele não sabe de nada”, pensou, com um nó na garganta. “Não sabe que é o centro de uma guerra que começou antes mesmo de nascer.”
A herança, o poder, os Moretti; nada daquilo significava nada para ela. Só queria seu filho a salvo. Queria que ele crescesse longe daquilo.
Mas então veio a pergunta inevitável: e Ian?
Deveria contar a verdade?
Deveria revelar que Léo... era seu filho?
Que todo aquele tempo ela o deixara acreditar que a criança era fruto de outro amor, de uma vida antes dele?
O medo não era de perder o controle; era de perder Ian.
Ele sempre a olhara como uma mulher que enfrentava o mundo de pé, e agora... ele veria a mentira que sustentara cada passo.
O coração apertou.
Ela virou-se e seguiu o corredor até o quarto de Ian.
As luzes ali eram mais brandas, filtradas pelas persianas. O cheiro era o mesmo de sempre; álcool, remédios e o leve toque de fumaça que ainda parecia grudado na pele dele.
Ian estava acordado.
Duas enfermeiras ajustavam os tubos e monitores ao redor da cama, falando baixo. E entre elas, uma figura familiar; Carolina.
O coração de Olívia afundou.
Carolina Bittencourt, a ex incoveniente que agora parecia se denominar a médica da família. Estava ali de jaleco, o cabelo loiro impecável, a postura profissional. Mas o olhar... havia ternura demais naquele olhar. E quando ela tocou o braço de Ian para checar a pulsação, os dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário.
Olívia parou na porta.
Por um instante, a mulher fria e racional que ela sempre fora desapareceu, substituída por algo mais primitivo. Ciúme. Puro, incômodo, incontestável.
Carolina notou sua presença e sorriu, falsa como um bisturi brilhando sob luz cirúrgica.
— Ah, Olívia. — disse, com voz melosa. — Ele acordou há pouco. Tive que garantir que estivesse... confortável.
A frase pairou no ar, carregada de subtexto.
Ian desviou o olhar dela e encontrou o de Olívia.
— Já estou bem o suficiente, Carolina. — disse, firme. — Pode ir.
Ela arqueou uma sobrancelha, claramente contrariada.
— Ian, ainda precisamos monitorar o nível de oxigênio e...
— Eu disse que pode ir. — repetiu, desta vez mais baixo, com aquela autoridade glacial que nem o sangue o bastante enfraquecido era capaz de apagar.
O silêncio ficou pesado. Carolina mordeu o lábio, ajeitou o jaleco e saiu, passando por Olívia com um leve roçar de ombros.
— Ele ainda precisa de descanso — disse em tom frio. — Não de mais drama.
Olívia manteve-se firme, mas o olhar que lançou de volta era cortante.
— Obrigada, doutora. — respondeu, com uma polidez que soou como veneno.
Quando a porta se fechou atrás dela, o quarto mergulhou num silêncio incômodo.
O único som era o bip compassado do monitor cardíaco e a respiração de Ian; lenta, mas tensa.
Olívia se aproximou da cama.
— Está se sentindo melhor? — perguntou, a voz baixa, quase hesitante.
Ele manteve os olhos nela, e por um instante ela desejou poder ler seus pensamentos.
As lágrimas vieram antes que ela pudesse contê-las.
Ela deu um passo à frente, depois outro, até estar ao lado da cama, perto o bastante para sentir o calor do corpo dele.
— Não era pra acontecer assim, Ian. — ela sussurrou. — Nada disso era pra acontecer. Eu não devia ter te conhecido. Eu não devia ter me importado tanto.
Ele ergueu a mão, devagar, e tocou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo nos olhos.
— Mas aconteceu.
Ela fechou os olhos, sentindo o toque dele, quente, ainda trêmulo.
— E é exatamente por isso que eu tenho medo. — confessou, a voz trêmula. — Porque se eu disser sim, se eu disser o que sinto... você vai querer saber tudo. Vai querer saber sobre mim, sobre o passado, sobre...
Ela parou, o coração na garganta.
Sobre Léo.
Ian franziu o cenho, notando a súbita hesitação.
— Sobre o quê, Olívia?
Mas ela apenas recuou um passo, as lágrimas agora caindo livremente.
— Eu preciso de tempo. — disse, e a sinceridade na voz era dolorosa. — Só... tempo.
Ian a observou por longos segundos, o maxilar tenso, os olhos sombrios.
Então, sem dizer mais nada, ele soltou a respiração e encostou a cabeça no travesseiro, exausto.
— Tempo. — repetiu, em um tom quase resignado. — O único luxo que essa família nunca soube usar.
Olívia o olhou mais uma vez; o homem ferido, quebrado, mas ainda de pé, e soube que o que viesse a seguir, qualquer decisão, já não seria reversível.
Ela o amava.
Mas amá-lo significava destruí-lo com a verdade.
E no silêncio daquele quarto, sob o som constante do monitor cardíaco, o amor deles pairava; suspenso, vivo, prestes a explodir.

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