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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 166

O quarto estava mergulhado na penumbra dourada do entardecer, cada objeto projetando sombras longas e distorcidas que pareciam sussurrar segredos antigos. A luz suave que filtrada pelas cortinas pesadas banhava o rosto de Ian em tons âmbar, destacando as linhas de dor e exaustão que mesmo o sono não conseguia apagar. Seu peito subia e descia com um ritmo irregular, como se cada respiração exigisse um esforço consciente, um lembrete silencioso de que até o ato mais básico de existir havia se tornado uma batalha.

Olívia observava-o da poltrona no canto do quarto, suas mãos entrelaçadas no colo, os dedos ainda tremendo levemente da confissão que finalmente fizera. Há horas que permanecia ali, presa não por obrigação, mas por uma necessidade quase visceral de testemunhar sua vulnerabilidade. Havia uma estranha beleza em vê-lo assim; despojado das armaduras de poder e controle que sempre o definiram perante o mundo. Era como observar o núcleo cru de um homem que sempre se apresentara como impenetrável.

Os fantasmas de seu passado compartilhado dançavam na penumbra entre eles: o ódio inicial que ardera como fogo, o contrato que os unira em uma prisão dourada, os jogos de poder que se transformaram em uma dança intricada de atração e repulsa, os toques hesitantes que prometiam mais do que qualquer palavra poderia expressar, o resgate desesperado no penhasco, as chamas que quase os consumiram. Cada cicatriz, visível e invisível, contava uma história de dois seres humanos quebrados tentando se encontrar no meio do caos.

Ela levantou-se silenciosamente, seus pés descalços fazendo pouco ruído no piso frio. Ao se aproximar da cama, estendeu a mão e pousou-a sobre a dele com uma delicadeza que contrastava com a ferocidade de seus sentimentos. O calor de sua pele pareceu criar um circuito entre eles, e lentamente, como se respondendo a um chamado silencioso, os olhos de Ian se abriram.

Ele piscou, confuso por um momento, até que seu olhar encontrou o dela na penumbra.

— Você ainda está aqui — sussurrou, sua voz áspera pelo sono e pela dor. Um sorriso tênue curvou seus lábios. — Achei que, desta vez, você finalmente teria ido embora.

Olívia balançou a cabeça lentamente, seus olhos brilhando com uma determinação recém-descoberta.

— Eu tentei — confessou, sua voz um fio de som no quarto silencioso. — Mas parece que cada vez que dou um passo para longe de você, o universo inteiro desaba ao meu redor, me empurrando de volta para onde sempre pertenci.

Ele emitiu uma risada baixa e cansada que se transformou em um suspiro.

— Então a culpa é minha — murmurou, seus dedos se entrelaçando com os dela. — Por segurar o mundo da maneira errada.

Ela sentou-se na beira da cama, o colchão cedendo sob seu peso. Por um momento precioso, o silêncio entre eles não era pesado ou carregado, mas confortável, o tipo de calma que só duas pessoas esgotadas pela guerra podem compartilhar, uma trégua rara em meio ao campo de batalha.

— Ian — ela começou, as palavras saindo baixas, mas incrivelmente claras. — Eu menti para você sobre tantas coisas. Sobre meu passado, sobre meus medos, sobre o que realmente sentia. E mesmo assim... você veio. Mesmo quando tudo e todos gritavam para você me deixar para trás.

Seus olhos suavizaram, a dor dando lugar a uma ternura que raramente permitia que o mundo visse.

— Eu não sei fazer isso — admitiu, sua voz rouca pela emoção. — Não quando se trata de você. Nunca soube.

Ela respirou fundo, sentindo as palavras se formarem em sua alma antes de chegarem aos seus lábios.

— Eu te amo, Ian.

A declaração foi simples, crua, desprovida dos floreios e ressalvas que sempre acompanharam seus sentimentos no passado.

Do lado de fora, na televisão que até então emitia apenas um murmúrio baixo, uma voz repentinamente se elevou, cortando o noticiário local com a urgência de um golpe de faca. O tom da repórter era agudo, carregado da excitação sombria que só as grandes tragédias podem provocar:

— Notícia de última hora! A polícia de Milão reabriu oficialmente o caso Moretti, após a descoberta de novos documentos e evidências forenses previamente não catalogadas. Segundo fontes próximas à investigação, há fortes indícios de que Diana Moretti, desaparecida há mais de seis anos em circunstâncias nunca esclarecidas, não apenas foi assassinada, mas o crime foi encomendado por membros de sua própria família.

O nome pairou no ar como um fantasma materializando-se diante deles.

Olívia ergueu o rosto abruptamente, sua confusão instantânea dando lugar a um frio que se espalhou por seu corpo.

— O que...? — ela murmurou, seus olhos se movendo entre a televisão e o rosto de Ian. — Ian... quem é Diana Moretti?

O efeito das palavras sobre ele foi imediato e devastador. Seu rosto perdeu toda a cor, a vulnerabilidade de momentos antes sendo engolida por uma escuridão tão profunda que parecia alterar a própria atmosfera do quarto. Seus olhos, antes cheios de amor e esperança, tornaram-se vazios, abismos de memórias dolorosas e segredos enterrados.

Sua respiração mudou, tornando-se pesada e trêmula, como se cada inspiração fosse uma batalha. Quando finalmente falou, sua voz era irreconhecível, quebrada, infantil quase, carregando o peso de uma dor que claramente ainda sangrava após todos esses anos.

— É minha mãe.

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