O relógio de parede marcava onze e sete quando Carolina pressionou o botão de desligar da televisão, suas mãos trêmulas fazendo com que o controle quase escorregasse de seus dedos. A luz azulada da tela moribunda refletia em seu rosto pálido, iluminando os traços de alguém que acabara de assinar sua própria sentença. As palavras do noticiário ainda ecoavam em sua mente, cada sílaba um martelo batendo em sua consciência: "Diana Moretti. Morte cercada de mistérios volta à tona após anos de silêncio."
Ela apertou o controle remoto com tanta força que o plástico rachou sob sua pressão.
— Eu nunca quis isso... — a confissão escapou de seus lábios em um sussurro quebrado. — Eu jurei levar esse segredo para o túmulo.
A sala de estar, outrora um santuário de elegância calculada, agora parecia uma cela. As cortinas de velpeso pesado, o cheiro enjoativo do vinho tinto derramado sobre a mesa de centro, os quadros perfeitamente alinhados, nada mais importava. Tudo que restava era o peso esmagador de uma verdade que ela carregara por mais de seis anos.
Carolina tinha sido a última pessoa a ver Diana Moretti viva. A única guardiã de uma verdade que poderia destruir uma das famílias mais poderosas do país. E mesmo depois de tudo que Ian lhe fizera, as humilhações silenciosas, as ordens disfarçadas de pedidos, a expectativa de que engolisse verdades que queimavam como ácido em sua garganta, ela jamais teria traído esse segredo.
Não até ele aparecer.
Um calafrio percorreu sua espinha quando a campainha tocou. Três vezes; cortantes, insistente, como unhas arranhando um caixão.
— Não... — ela sussurrou para o quarto vazio, recuando instintivamente. — Por favor, não agora.
Mas era inútil. A figura na soleira da porta era alta, impecavelmente vestida de preto, seu sorriso um arranjo calculado de dentes perfeitos que não chegava perto de seus olhos gelados.
— Você superou minhas expectativas, Carolina — Alexander declarou, apoiando-se no batente da porta com uma familiaridade que fez seu estômago embrulhar. — A imprensa abocanhou a história como piranhas famintas.
Ela o encarou, seus olhos vermelhos e inchados testemunhando noites sem dormir.
— Eu não falei com ninguém! — sua voz saiu mais alta do que pretendia, trêmula e defensiva. — Foram eles... Eles descobriram sozinhos! Eu não...
Alexander entrou sem ser convidado, fechando a porta atrás de si com um clique suave que soou mais ameaçador que um golpe. Seu olhar percorreu o ambiente com a frieza de um avaliador.
— Você sempre foi leal demais aos Moretti — observou, pegando a garrafa de vinho aberta e servindo-se generosamente. — Mesmo quando essa lealdade significava trair a si mesma.
Carolina recuou mais um passo, suas costas encontrando a parede fria.
— O que você quer de mim? Por que está fazendo isso comigo?
— Porque chegou a hora deles provarem o sabor de sua própria podridão — ele respondeu, girando o vinho na taça antes de prová-lo. — Porque tudo que essa família toca apodrece, e o mundo precisa ver a verdadeira face por trás das mansões e dos ternos caros.
Ela estudou seu rosto, procurando por algum sinal de humanidade por trás da máscara impenetrável.
— Quem é você realmente, Alexander? O que os Moretti fizeram para merecer tanto ódio?
Ele parou, a taça suspensa no ar, e por um breve instante o sorriso desapareceu, revelando algo mais sombrio por trás.
— Alguém que cresceu nas sombras que eles projetam — sua voz baixou para um tom quase confessional. — Alguém que aprendeu que o sangue Moretti compra tudo, inclusive o silêncio daqueles que deveriam falar.
Carolina sentiu sua garganta apertar.
— Isso é vingança? É sobre dinheiro? Herança?
— Não — a resposta foi imediata, cortante. — Isso é justiça. Algo que essa família nunca entendeu, porque sempre pôde comprar sua própria versão dela.
Ela balançou a cabeça, lágrimas de frustração e medo escorrendo por seu rosto.
— Justiça? Você me ameaçou! Disse que destruiria tudo que construí se eu não obedecesse!
Carolina observou enquanto ele se ajustava, endireitando a gravata e as mangas do paletó com movimentos precisos.
— Para onde você vai? — a pergunta saiu antes que ela pudesse detê-la, o medo dando lugar a uma curiosidade mórbida.
— Para fechar um ciclo que deveria ter sido encerrado há muito tempo — ele respondeu, sua mão já na maçaneta.
Mas parou, virando-se pela última vez para encará-la.
— E você, Carolina... — sua voz suavizou, tornando-se quase um sussurro conspiratório. — Reze para estar longe quando a poeira baixar. Alguns incêndios consomem até mesmo aqueles que os acenderam.
Ele saiu, deixando-a sozinha com o silêncio e o cheiro do vinho derramado. Ela permaneceu imóvel por longos minutos, ouvindo o ronco do motor de seu carro desaparecer na noite. Então, lentamente, o medo deu lugar a um horror diferente quando, horas depois, as primeiras imagens começaram a circular nas redes sociais.
Alexander atravessando os portões principais da mansão Moretti: não como um intruso, mas como um convidado.
E ao seu lado, caminhando com a familiaridade de quem pertencia ao lugar, estava Clara.
De braços dados com ele.
O copo de cristal escorregou dos dedos de Carolina, estilhaçando-se no chão com um ruído que ecoou como um tiro no apartamento silencioso.
— Meu Deus... — ela sussurrou para o vazio, suas mãos voando instintivamente para a boca. — O que ela está fazendo com ele? O que eles planejam?
E lá fora, nas colinas acima da cidade, a mansão Moretti se erguia iluminada, à espera da próxima tragédia.

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