O corredor do hospital estava mais silencioso que o normal, um silêncio estranho, quase respeitoso demais. Mas o silêncio era tudo que Olivia desejava depois do caos que havia sido aquela tarde.
O cheiro de éter se misturava com um leve perfume de lavanda, mas nada conseguia disfarçar o peso no ar ou lhe entregar qualquer resquício de paz.
Olívia entrou carregando sua bolsa como quem carrega uma pedra, seu corpo estava pesado. Sentia o dia na pele, no cansaço dos ombros. Cada passo que dava, recordava-se das últimas horas: O almoço, Nicolau, Benjamin, Clara, Ian.
Uma avalanche de nomes que ela queria esquecer.
— Dona Olívia? — a recepcionista chamou com a voz delicada, segurando algo nos braços.
Olivia já estava fechando a porta do quarto onde Leo estava quando ela parou.
— Sim. Algum problema? — perguntou ansiosa, sentindo seu coração acelerar.
— Isso chegou para a senhora. — ela diz casualmente e Olivia olha para suas mãos.
Era um arranjo de flores. Lírios brancos e rosas. O tipo que grita “eu pensei nisso”. Delicado, calculado… caro.
No cartão, apenas duas palavras escritas à mão:
“Desculpe. – I”
Olívia ficou parada, olhando para aquilo como se as flores fossem um enigma, que de repente iria ganhar vida própria e se agarrar ao seu pescoço.
O que diabos aquilo significava? O que ele queria dizer? Olivia não tardou em pegar seu celular e enviar uma mensagem para ele.
Nesse momento, Leo, sentado na cama com um caderno aberto no colo e um desenho pela metade, arregalou os olhos quando viu o presente.
— É pra você? — perguntou, animado. — Quem mandou?
Olivia hesitou. Droga, aquela era a última coisa que ela queria.
— Um… conhecido — respondeu rápido, tentando parecer distraída.
Ela voltou a entrar no quarto e guardou aquelas flores na mesinha ao lado. Sentia como se o arranjo queimasse em sua mão.
— Conhecido nada. — Ele sorriu torto, o mesmo sorriso que ela sempre achou perigoso porque vinha com perguntas. — É seu namorado?
Olivia soltou uma risada curta e fraca, que não enganou ninguém. Mesmo que se divertisse com a insinuação tão adulta daquele garoto.
— Não, Leo. Não é isso. — ela responde simplesmente e toca sua testa. — Você está realmente se sentindo melhor hoje, não é?
— Mas ele gosta de você? — ele insistiu, ignorando sua última pergunta, inocente e curioso, como só crianças sabem ser. — Ele vai vir te ver? — questiona, enquanto rabiscava o dragão no papel.
Olívia desviou, pegando o lápis da mão dele e sentando ao seu lado. Queria ardentemente mudar de assunto. Não queria mesmo trazer o seu filho para aquela bagunça. E muito menos, queria pensar no gesto impensável e imprudente de Ian.
— Tudo de que preciso está bem aqui do meu lado. Você sabe que eu te amo daqui até a Lua. — Diz Olivia, beijando a testa do seu filho. — Agora vamos terminar esse dragão aqui. Ele precisa de mais vermelho.
Foi nesse mesmo momento que a porta se abriu. E ele se revelou. O coração de Olivia quase sai pela boca e ela se levanta, institivamente.
Ian.
O terno impecável, olhar direto, a expressão imparcial como sempre… Mas havia algo de contido demais nele, como quem está calculando cada ato. Os olhos fixos nela como se pudesse ler até o que ela não queria escrever.
Até que os seus olhos bateram nas flores na mesinha, o cartão virado para baixo. Depois o seu olhar passou para Leo e suas sobrancelhas franziram levemente ao observar o menino. Seus olhos negros ficaram bem abertos, como se fosse hora de testemunhar.
Olivia notou aquilo e o sangue que circulava em suas veias pareceu gelar.
— O que está fazendo aqui? Não finja que está arrependido, sei que você não está.
Antes que Olivia pudesse expulsá-lo daquele quarto, Leo quebrou o silêncio.
Ele apontou sem cerimônia para flores e esperto como era, perguntou:
— Foi você que mandou, né?
Ian curvou a boca num meio sorriso. Ali estava ele. Irritante. Convencido. Deu dois passos à frente e atento.
— Não estou usando. Estou protegendo. — a resposta veio rápida demais para ser improvisada. — Eu investi nisso... e talvez, em algo mais.
Olivia não respondeu. Ficou sem palavras, não tinha nada a dizer. Apenas o olhou, como quem tenta ler linhas invisíveis no rosto dele.
Foi Leo quem quebrou o silêncio.
— Ian? — chamou, com a vozinha sonolenta. — Você vai ser meu pai?
A atmosfera no quarto mudou, o ar ficou mais pesado. Ian olhou para Olivia. Ela, por um instante, não conseguiu respirar, permaneceu imóvel, como se se mexer fosse entregar algo que não queria.
E por Deus, aquilo era a última coisa que ela queria.
— Eu vou cuidar de vocês dois. — disse ele, finalmente, sem tirar os olhos dela. — Do jeito que vocês precisarem. E é só isso que importa agora.
Leo sorriu, satisfeito, e fechou os olhos, o cansaço querendo agarrá-lo pouco a pouco. Soltou um suspiro satisfeito, como se tivesse recebido a resposta que queria.
Olivia, por outro lado, sentiu ainda mais receios e perguntas nascerem dentro dela. Sentia o coração batendo alto demais, o ar querendo faltar.
— Eu não quero a sua pena. E não o prometa nada que você não vai cumprir. — murmurou, para que só Ian ouvisse.
Ian não respondeu. Apenas se inclinou, ajeitou o cobertor sobre Leo e se virou para ir embora.
— Não sou o único que pode decidir o que acontece com vocês, Olivia. — A voz dele estava carregada de algo que ela não conseguia decifrar. — Pense nisso.
Olívia ficou imóvel, com a sensação de que aquela conversa era mais do que uma simples provocação. Se perguntou, com um frio na espinha, o que exatamente ele quis dizer com alguém decidindo algo por eles.
Mas aquilo ainda não era tudo.
Ian já estava na porta quando olhou para ela, por cima do ombro, e falou com a calma de quem já tomou a decisão:
— Arrume as suas coisas. A partir de amanhã, você e Leo dormem sob o mesmo teto que eu.
E saiu, deixando o cheiro seu do perfume e um milhão de respostas presas na garganta dela.

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