Aquelas palavras foram lançadas como uma lâmina. Ian deu um passo à frente, a mão cerrada, mas Olívia apertou a dele, uma força pequena mas inegável. Alexander já sumira no corredor, a chuva engolindo-o como se fosse parte da tempestade que tinha semeado.
No silêncio que ficou, Benjamin recuou, olhos vazios, alterado. Seus dedos estavam sujos de tudo; de traição, de raiva, de vergonha. Clara estava encolhida, chorando, mas havia uma centelha de algo novo; de medo, talvez de arrependimento. Olívia permaneceu firme, sentindo o corpo cansado, a marca na pele arder como lembrança viva da noite que quase tirara tudo dela.
— Você não precisava ter salvado ela — murmurou Benjamin por fim, a voz seca. — Você não devia.
Olívia encarou-o, a fadiga translúcida em cada linha de seu rosto.
— Eu poderia ter deixado — ela concordou com franqueza. — E talvez você também merecesse ser deixado com a sua dor. Mas isso não faria sentido. Porque se você se torna aquele homem que mata para apagar a vergonha, então todos perdemos. E a criança dentro dela, Benjamin... ela não tem culpa de nada.
Benjamin fechou os olhos. Por cima de tudo, havia um princípio antigo, bizarro: a chance de salvar um resquício de humanidade num mundo que se afundava em violência.
Quando a sala começou a se esvaziar, quando os servos que assistiam nas sombras voltaram a se mover, Anna, uma criada que conhecera Olívia, aproximou-se com delicadeza e disse, baixo:
— Senhora Olívia, se quiser, posso levá-la para o quarto. A senhora precisa de repouso.
Olívia assentiu, sem desviar os olhos de Benjamin por mais um segundo.
— Eu vou com ela — disse Ian, a voz dura. — Não a deixarei sozinha.
Qando passou por Olívia passou por Clara, ela murmurou um obrigada que tinha mais de pedido de perdão do que de gratidão. Olívia não se deu o trabalho de responder.
No corredor, Ian olhou para Olívia. Seus olhos estavam cheios de uma coisa que, por um momento, não era raiva nem estratégia. Era medo: medo de perdê-la por escolha ou por desenho de família. Ele tocou a face dela, a ponta dos dedos frios contra a pele ainda úmida.
— Hoje... — ele começou, mas não completou.
— Hoje foi demais — Olívia disse por ele, e não havia rancor. Só cansaço e uma vontade abrupta de colocar as peças no lugar. — Amanhã a gente decide as outras guerras.
Ele a observou, notando como as linhas do rosto dela estavam firmes, como a súbita autoridade que ela exibia vinha de um lugar profundo de sobrevivência.
— Eu prometo — Ian murmurou, finalmente. — Eu prometo que acerto as contas com ele. Mas da minha maneira.
Ela olhou para ele, incerta por um segundo, e então assentiu. Não porque acreditasse em todas as promessas, mas porque, naquele momento, os dois partilhavam uma verdade: o mundo deles havia mudado para sempre, e sobreviveriam, juntos, a qualquer coisa que viesse.
O corredor estava silencioso, apenas o som distante da chuva contra as janelas. O ar parecia mais leve, embora houvesse algo denso entre eles, uma tensão que não vinha do medo, mas do que ainda não tinha sido dito.
Quando Olívia parou em frente à porta, pronta para seguir até o quarto de Léo, Ian a segurou pelo pulso. O toque foi firme, mas não brusco, carregava aquela mistura perigosa de força e necessidade que só ele parecia dominar.
— Não. — A voz dele era baixa, rouca, quase um sussurro. — Você não vai se despedir de mim assim.
Ela o encarou, surpresa.
— Ian...
Ele deu um passo à frente, a distância entre eles se dissolvendo.
— Nós não somos mais um contrato, Olivia. — Ele respirou fundo, o olhar mergulhando no dela. — E você sabe disso. Isso aqui... — ele levou a mão até o peito dela, bem sobre o coração — ...é real. E você quer estar comigo tanto quanto eu quero estar com você.
Ela abriu a boca, pronta para retrucar, mas as palavras se perderam. Porque, no fundo, ele estava certo. Depois de tudo o que haviam enfrentado, depois do fogo, do mar, das perdas, ela sabia: precisava dele.
Não por dependência. Por escolha.
— Eu só vou me despedir do Léo — disse por fim, a voz suave. — Ele precisa me ver antes de dormir.
Ian assentiu devagar, mas seus olhos continuaram presos aos dela, como se a deixasse ir fosse, de alguma forma, um risco.
Olívia atravessou o corredor e entrou no quarto do filho. Helena estava sentada na beira da cama, lendo algo baixinho enquanto o menino lutava contra o sono.
— Achei que ele já estivesse dormindo — sussurrou Olívia, sorrindo.
Helena levantou o olhar e retribuiu o sorriso cansado.
— Quase. Ele estava me perguntando se amanhã vocês vão levá-lo ao hospital.
— Agora o quê?
— Agora — ele repetiu, sentando-se lentamente na cama, estendendo a mão para ela — você viajaria comigo? Iria pra onde eu fosse?
Olívia sentiu o coração tropeçar dentro do peito.
— Ian...
Ele levou as mãos dela até os lábios e beijou devagar, um gesto simples, mas que pareceu arrancar todo o ar do quarto.
Ela tentou se soltar, nervosa.
— Você precisa descansar... se acalmar...
— Eu sei exatamente do que preciso. — A voz dele era um murmúrio grave, carregado de ternura e desejo.
E antes que ela pudesse responder, ele a puxou.
Olívia perdeu o equilíbrio, caindo sobre ele, as mãos em seu peito.
O toque foi um choque elétrico. Os olhos dele estavam tão próximos que ela podia ver o reflexo do próprio tremor nas pupilas escuras.
— Ian... — ela começou, mas ele já havia entrelaçado os dedos dela nos seus.
— Shhh... — ele sussurrou contra sua pele. — Pela primeira vez... sem medo.
Os lábios se encontraram.
E todo o resto, o mundo, as ameaças, o passado, simplesmente deixou de existir.

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