O silêncio que se instalou depois da pergunta de Ian era pesado o suficiente para ser ouvido. Ele preencheu o quarto, sufocando o calor que, momentos antes, os envolvia.
Ian piscou, lento, tentando processar as palavras que ela soltara no ar como um segredo involuntário. O som distante da chuva contra as janelas voltou a ecoar, um lembrete melancólico de um mundo que continuava lá fora, mesmo que o deles tivesse parado abruptamente.
— Como assim “nunca usar”? — Sua voz já não carregava o tom rouco do desejo, mas um fio de alerta, uma pontada de desconfiança. Seu olhar estava fixo nela, perfurante. — Olívia... o que você quis dizer com isso?
Ela engoliu em seco, desviando os olhos. A pergunta havia escapado sem pensar, um reflexo do medo que habitava seu peito, mas agora pairava entre eles como uma confissão perigosa. Seu coração batia acelerado, um tambor anunciando o segredo que carregava há anos.
— Nada — tentou disfarçar, forçando um sorriso tenso. — Foi só... uma brincadeira.
Ian sentou-se na cama, o lençol deslizando pelo seu torso nu. Ele não acreditava em brincadeiras, não vindo dela, e não naquele tom carregado.
—Não, não foi — contraiu o maxilar, a voz um murmúrio grave. — Eu te conheço. Você pesa cada palavra quando tem medo do que realmente quer dizer.
Olívia virou-se para ele, o olhar suplicante.
—Ian, por favor... não começa. Foi só um comentário.
Mas ele não recuou. O instinto de predador, a mesma ferramenta que o tornava implacável nos negócios e nas guerras familiares, despertava, farejando uma meia-verdade.
—Quantas vezes, Olívia? — insistiu, o tom baixo, quase frio. — Quantas vezes você acha que já dormiu comigo?
Ela hesitou, a respiração presa.
—Não sei. — a voz saiu trêmula. — Isso importa?
— Importa — ele respondeu de imediato, sem hesitar. — Porque, se o que você está insinuando for o que eu penso, então alguém está mentindo há muito tempo.
O olhar dele a perfurava. Ela sentiu a garganta secar. Por um segundo, a verdade ameaçou subir, um rio transbordando: Léo, o medo, o silêncio imposto. Mas a lembrança da marca no braço, das ameaças sussurradas, da família em ruínas... congelou-a por dentro.
— Eu não estou insinuando nada — disse por fim, a voz reduzida a um fio. — Só quero que isso... — gesticulou vagamente entre eles — ...não se torne mais uma razão para você me odiar.
Ian recostou-se, passando as mãos pelo rosto em um gesto de frustração contida. A confusão borbulhava em seu peito, misturando-se com uma pontada de mágoa.
—Eu nunca conseguiria te odiar — murmurou, e a sinceridade daquelas palavras doía mais que qualquer acusação. — Mas, às vezes, acho que você ainda não confia em mim o suficiente para me deixar ver tudo.
Ela fechou os olhos, sentindo a verdade daquela afirmação como uma lâmina.
—E se o que você visse te fizesse me odiar de verdade? — sussurrou, sem coragem de encará-lo.
Ian se inclinou até ela, seus dedos roçando de leve seu queixo, obrigando-a a encontrar seus olhos.
—Então eu escolheria não ver. — Sua voz era baixa, mas firme, carregada de uma decisão absoluta. — Porque perder você seria pior do que qualquer verdade.
Ian a encarou, sério, como se avaliasse o quanto da verdade ela poderia suportar.
—Não. Sempre fui muito responsável. Você deve imaginar quantas aí já tentaram engravidar para ter um herdeiro Moretti. — Ele fez uma pausa, seus olhos escuros fixos nela. — Mas acontece que com você... algo me tira do eixo. Me faz esquecer de tudo.
Ela acreditou naquelas palavras. Elas ecoavam em seu próprio caos interior. Mas a memória da primeira noite, aquela de verdade, seguiu preenchendo sua cabeça, um fantasma que se recusava a ser exorcizado.
— Além do mais — ele continuou, o olhar perdido no vazio — a última coisa que preciso agora, com esse caos, é um filho.
As palavras foram um golpe físico. Olívia sentiu o ar faltar.
—Não imagina ter filhos? — perguntou, a voz quase um sopro.
Ian ficou pensativo por um longo momento, um suspiro saindo de seu peito.
—Já estou passando dos 30, Olívia. Minha família está desabando. Acho que a idade perfeita para ter um filho seria... uns cinco, seis anos atrás. — Ele pareceu ponderar cada palavra. — Agora, tenho a sensação de que, se tivesse um, perderia muito... tanto dele, quanto de mim.
Ele a puxou para si novamente, tentando retomar o aconchego que se perdera. Ela se aninhou contra seu peito, fingindo uma paz que estava longe de sentir.
Mas, enquanto ouvia a respiração dele se regular perto de seu ouvido, Olívia sabia: a pergunta que escapara naquela noite não seria esquecida. Ela havia plantado uma semente de desconfiança em um solo já fértil de segredos. E quando ele descobrisse a resposta, quando a verdade com rosto de criança surgisse das sombras, nada, nem o amor deles, nem o fogo, nem o sangue Moretti, seria suficiente para impedir a ruína.

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