A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas do quarto, tingindo tudo de um dourado suave e frágil. O mundo lá fora parecia suspenso, como se o caos da véspera tivesse decidido conceder-lhes algumas horas de trégua.
Olívia abriu os olhos lentamente. Por um momento, esqueceu de respirar.
Ian estava ao seu lado, adormecido.
O lençol cobria metade do seu corpo, deixando à mostra o peito nu, o cabelo ainda ligeiramente úmido da noite anterior e o traço sereno, quase vulnerável, que raramente permitia que o mundo visse.
Ela o observou em silêncio, o peito subindo e descendo em um ritmo tranquilo, os lábios entreabertos, o braço estendido sobre o travesseiro, como se ainda a procurasse mesmo dormindo.
Um sorriso involuntário curvou os lábios de Olívia.
Ela se virou de lado, apoiando o queixo sobre o travesseiro, e sussurrou, apenas para si:
— Eu não devia ter me apaixonado por você...
Ian murmurou algo ininteligível, os cílios tremendo, e então abriu os olhos. O olhar dele a encontrou, e um pequeno sorriso cansado, mas real, apareceu em seus lábios.
— Está me observando dormir? — perguntou, a voz rouca de sono.
— Só certificando que você ainda respira. — Ela sorriu de leve.
— Com você do meu lado, não tem perigo. — Ele se aproximou, encostando a testa na dela. — Achei que talvez você tivesse ido embora.
— Eu pensei... — ela hesitou, olhando-o com sinceridade — ...mas não consegui.
Ele riu baixo, um som quase satisfeito.
— Ainda bem. Eu teria te buscado.
Ela o empurrou de leve no peito.
— Você precisa parar de achar que pode resolver tudo me perseguindo.
— Só quando você parar de achar que pode me deixar sem aviso.
Por um instante, ficaram em silêncio, o tipo de silêncio confortável que nasce quando as palavras já não são necessárias. Ian foi o primeiro a quebrá-lo.
— Eu tenho que ir à empresa. — Ele suspirou, erguendo-se da cama e pegando a camisa jogada no chão. — Depois do caos de ontem, preciso conter o incêndio literal e figurativo.
— Achei que você fosse tirar o dia pra descansar — ela disse, puxando o lençol para si.
— Descansar é um luxo que os Moretti não podem se dar.
Ela revirou os olhos, sorrindo.
— Então acho que vou aproveitar esse luxo no seu lugar.
Ele se inclinou e a beijou, devagar, como se quisesse memorizar o gosto dela antes de sair.
— E você? Vai ficar em casa?
— Não. Hoje é o dia da revisão do Léo — respondeu, ajeitando o cabelo. — Helena vai comigo, mas Carla insistiu em acompanhar.
— Quer que eu vá? — ele perguntou, sério.
— Não precisa. — Ela pousou a mão sobre o braço dele, gentil. — Vai ser rápido. E... eu prefiro que o Léo veja você como uma presença calma, não um furacão que arrasta seguranças pelos corredores.
Ian arqueou uma sobrancelha.
— Então quer dizer que eu intimido o pessoal do hospital?
— Intimida o planeta inteiro, Ian. — Ela sorriu, e por um segundo, o olhar dele suavizou.
— Me liga quando sair de lá, tudo bem? — ele pediu. — Só pra eu saber que vocês estão bem.
— Prometo. — Ela beijou o canto da boca dele. — Agora vai antes que eu te convença a ficar.
Ele riu, pegou o paletó e saiu, deixando para trás o perfume amadeirado que sempre a fazia lembrar de noites perigosamente intensas.
O caminho até o hospital foi tranquilo. Carla dirigia o carro, os óculos escuros escondendo os olhos curiosos.
— Então... quer dizer que finalmente rolou? — ela perguntou, um sorriso malicioso curvando os lábios.
Olívia fingiu indignação.
— Eu disse que era forte, mamãe. Igual ao Ian.
O comentário fez o coração dela se apertar, e Carla, do outro lado da sala, desviou o olhar, discretamente.
Elas estavam saindo quando o barulho começou.
Gritos abafados. Passos apressados. O som metálico de uma maca sendo empurrada.
Olívia virou-se no mesmo instante. Médicos e enfermeiros corriam pelo corredor, abrindo caminho com urgência.
Uma figura conhecida vinha logo atrás, molhado pela chuva, o rosto transtornado.
Benjamin.
Ela congelou.
— Benjamin? — Sua voz saiu rouca, incrédula. — O que aconteceu?
Ele parou diante dela, ofegante, os olhos sombrios.
— Eu tentei ligar pra Ian. Ele não atende. — Passou as mãos pelos cabelos, desesperado. — Você precisa falar com ele, Olívia. Agora.
— Por quê? O que houve?
Benjamin respirou fundo, sua voz embargada quando finalmente respondeu:
— É o Nicolau.
O nome soou como uma sentença.
Olívia sentiu o sangue gelar nas veias.
Benjamin segurou seu braço, o olhar fixo nela, e completou, com o tom devastado de quem carrega uma notícia impossível:
— Ele tem poucas horas de vida.

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