O céu da manhã sobre o edifício Moretti estava nublado, o tipo de cinza que antecede uma tempestade, mesmo quando não há chuva no horizonte.
Ian atravessou o saguão principal sem dizer uma palavra, os funcionários se afastando instintivamente, como se percebessem o campo de força invisível de tensão que o cercava. Ele vestia o terno como uma armadura, o rosto impenetrável, mas havia algo diferente em seu olhar; um cansaço contido, uma espécie de guerra silenciosa acontecendo por trás da fachada de aço.
Assim que entrou em seu escritório, fechou a porta com força, abafando o burburinho da imprensa que ecoava no andar de baixo.
Pôde ouvir, mesmo com as paredes duplas, as vozes insistentes dos repórteres que se amontoavam na entrada do prédio:
— Sr. Moretti! O senhor confirma as acusações sobre seu irmão ilegítimo?
— Há algum comentário sobre a herança contestada?
— O patriarca Nicolau Moretti realmente está em estado crítico?
Ele se jogou na cadeira de couro e respirou fundo, os dedos tamborilando sobre o tampo da mesa. O cheiro de café frio e papel recém-impresso o enjoava.
— Chega. — murmurou. — Chega dessa exposição miserável.
Pegou o telefone e discou.
— Matheus. Agora.
Poucos minutos depois, a porta se abriu, e o fiel segurança entrou, ainda com o paletó desalinhado e olheiras marcadas pela falta de sono.
— Você mandou bloquear os canais de imprensa? — Ian perguntou sem olhar para ele.
— Sim. Todos os comunicados passam por mim e pela assessoria. Mas não vai durar muito, Ian. Eles sabem que algo grande está acontecendo.
Ian esfregou o rosto, exasperado.
— Grande? — repetiu, amargo. — Eles não fazem ideia do que é grande.
Levantou-se, caminhando até a janela. Lá fora, a cidade parecia um tabuleiro minúsculo; pessoas, carros, prédios, tudo pequeno demais para importar.
— Quero todas as informações que você tiver sobre Alexander — ele disse, o tom de voz agora baixo, controlado. — Tudo. Histórico, registros, qualquer coisa. E... quero saber quem era a mãe dele.
Matheus hesitou.
— Você acha que ela...
— Ele disse algo antes de sumir. — Ian o interrompeu, sem se virar. — Falou que minha família fez algo com a mãe dele. Que se eu soubesse o que foi, entenderia o motivo de tudo isso.
Silêncio. O tipo de silêncio que pesa mais que qualquer som.
Matheus abriu a pasta que carregava e folheou rapidamente algumas páginas.
— Ainda estamos cruzando os arquivos antigos — explicou. — Seu avô enterrou bem essa parte da história. Mas há algo estranho: há registros apagados das propriedades costeiras da família... da mesma época em que seu pai ainda era vivo.
Ian se virou lentamente, o olhar afiado.
— Apagados?
— Sim. Como se alguém quisesse garantir que ninguém voltasse a mexer nisso.
Ian encostou-se à mesa, o maxilar rígido.
— Então comece por aí. Quero saber tudo sobre essa mulher. Onde viveu, quando morreu e, principalmente, quem mandou esquecê-la.
Matheus assentiu, mas parecia relutante em mudar de assunto. Ainda assim, sua voz suavizou quando falou:
— Ian... e a Olívia?
Ian levantou o olhar, surpreso pelo rumo inesperado da pergunta.
Pálida.
Os olhos arregalados, ofegante, as mãos trêmulas segurando a bolsa como se fosse a única coisa que a mantinha em pé.
— Olívia? — Ian atravessou a sala em dois passos, a tensão tomando conta do corpo. — O que aconteceu?
Ela abriu a boca, mas por um instante nenhuma palavra saiu. O ar parecia ter desaparecido do ambiente. Quando finalmente conseguiu falar, sua voz era fraca, embargada:
— É o seu avô...
Ian sentiu o estômago despencar.
— O que tem ele?
Olívia respirou fundo, tentando manter a compostura, mas as lágrimas começaram a marejar seus olhos.
— Ele está morrendo, Ian. Nicolau tem poucas horas de vida.
O som das palavras dela ecoou no silêncio absoluto do escritório. O relógio de parede marcava os segundos em batidas secas, e Ian, parado diante dela, sentiu o tempo parar; não com o choque, mas com o peso inevitável de um fim que ele sempre soube que chegaria, só não tão rápido.
Matheus deu um passo à frente, hesitante.
— Ian...
Mas ele já estava em movimento, passando por Olívia sem dizer uma palavra, o rosto uma máscara de determinação fria e medo contido.
Ela o seguiu com o olhar, o coração disparado. E quando ele parou por um breve instante diante do elevador e olhou para ela, o que havia em seu olhar não era apenas desespero, era algo mais profundo.
A última chance de acertar as contas com o homem que começou tudo.

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