O som do motor parecia distante, abafado, como se viesse de outro mundo.
Ian observava a estrada pela janela do carro, o asfalto se estendendo diante deles em uma linha infinita, cortando o cinza pesado do céu.
O vento batia contra o vidro, e o cheiro de chuva iminente misturava-se ao de couro e perfume; o perfume de Olívia, sentada ao seu lado, imóvel, silenciosa.
Mas ele mal percebia.
Sua mente vagava para longe dali, para um tempo em que tudo era mais simples.
Lembrou-se da infância, das manhãs no jardim da mansão Moretti, o som grave da risada de Nicolau ecoando quando ele o levantava nos braços, girando-o no ar.
O avô tinha mãos grandes, firmes, e olhos severos que sabiam, mesmo quando o mundo parecia ruir, manter tudo em ordem.
“— Homens Moretti não choram, Ian. Eles constroem impérios com as próprias lágrimas.
— Mas e se eu não quiser um império?
— Então construa algo que sobreviva a você, menino.”
Ele construiu, pensou agora.
Construiu poder, medo, silêncio... e perdeu quase tudo no processo.
O reflexo no vidro lhe devolvia a imagem de um homem que não reconhecia; pálido, exausto, com o olhar oco.
Um herdeiro sem trono, um filho sem pai, um neto que agora corria para não perder o último fio de sangue que o ligava à história.
Olívia o observava, inquieta.
Ela via o peso que ele carregava, a rigidez em seu maxilar, o punho cerrado sobre o joelho. Quis falar, mas não encontrou palavras.
O silêncio entre eles era feito de dor e respeito, uma trégua em meio ao colapso.
Ela tentou mesmo assim.
— Ian... — sua voz saiu suave, quase um toque. — Ele vai querer te ver. Você ainda tem tempo.
Ele virou o rosto lentamente, seus olhos encontrando os dela.
Havia algo ali que o desarmava; aquela compaixão, aquele amor sem exigência.
Mas ele não conseguiu responder. Apenas assentiu e voltou o olhar para a estrada.
O carro parou diante do hospital, o nome em letras douradas iluminadas refletindo nas poças de chuva no chão. Ian saiu antes mesmo que o motorista pudesse abrir a porta.
Andava rápido, decidido, cada passo uma batalha contra o colapso iminente.
— Quero o médico responsável pelo Sr. Nicolau Moretti. Agora. — sua voz ressoou no saguão, fria e firme.
A enfermeira, nervosa, balbuciou algo antes de chamar um homem de jaleco que se aproximou depressa.
— Sr. Moretti — o médico começou, tirando os óculos e limpando-os com o lenço. — O quadro é crítico. Seu avô teve uma insuficiência cardíaca durante a madrugada. O corpo dele... está desistindo.
Ian prendeu a respiração. O chão pareceu se mover.
— Ele está consciente? — perguntou, a voz tensa, quase um rosnado.
— Por enquanto, sim. Mas não sabemos por quanto tempo.
— Quero vê-lo. — Não foi um pedido.
O médico hesitou, depois assentiu.
— Apenas alguns minutos.
Olívia tentou acompanhá-lo, mas Ian levantou uma mão, suave, pedindo que esperasse.
— Eu preciso fazer isso sozinho — disse, sem encará-la.
E então entrou.
O quarto era silencioso, com aquele silêncio frio e estéril que só hospitais sabiam ter.
O bip do monitor cardíaco era um metrônomo da morte, marcando o ritmo exato do tempo que restava.
— Não estou falando de poder, garoto. — Nicolau o interrompeu com um esforço que lhe roubou o ar. — Estou falando da verdade.
O olhar dele ficou distante, perdido em memórias que ninguém mais poderia acessar.
— Há coisas... que nunca te contei — disse finalmente. — Coisas sobre sua mãe. Sobre seu irmão. Sobre o que foi apagado da nossa história.
Ian o encarou, o coração disparado.
— Então me conta. Agora.
O velho tossiu, o som úmido e áspero preenchendo o quarto. Uma enfermeira entrou, mas Nicolau ergueu a mão fraca, dispensando-a.
Virou-se para Ian com um último lampejo de lucidez.
— Não é sobre eles que você precisa se preocupar agora — disse. — É sobre ela.
Ian franziu o cenho.
— Ela quem?
Nicolau sorriu levemente, quase triste.
— Olívia.
O nome dela soou como uma sentença.
— Existe algo sobre Olívia... que você precisa saber.
O monitor cardíaco apitou, acelerando de repente. O médico correu para dentro, e Ian foi puxado para trás enquanto os enfermeiros cercavam o leito.
Mas o velho ainda o olhava, seus lábios se movendo lentamente, formando palavras que Ian não conseguiu ouvir; apenas ver.
Três palavras.
Duas sílabas.
E antes que pudesse decifrá-las, o som contínuo do monitor preencheu o quarto, e Nicolau Moretti finalmente se calou.

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