O universo havia se reduzido àquele cubículo hospitalar. O ar era um caldo pesado de antisséptico, suor frio e desespero. Cada som era um golpe: o sibilante ritmo dos monitores, o ruído de passos apressados em linóleo, o sussurro tenso de ordens médicas que tentavam, em vão, desafiar a morte.
— Pressão caindo! Cinquenta de adrenalina, agora! — o grito do médico ecoou contra as paredes brancas, um comando de guerra contra um inimigo invisível.
—Carga a 200! Afasta!
O corpo de Nicolau arqueou-se no leito, um espasmo violento e antinatural sob o choque dos desfibriladores. O som metálico do equipamento fundiu-se com o bip-bip-bip constante do monitor cardíaco, um canto fúnebre que cortava o ar como uma sentença já proferida.
Ian estava paralisado na soleira da porta, as pernas de chumbo. Seu próprio coração batia em um ritmo frenético e descompassado, um tambor caótico que ecoava a agonia das máquinas. O mundo desfocou-se à sua volta, tudo se tornando secundário diante do homem pálido e frágil sob os lençóis brancos.
Ele deu um passo. Outro. O chão parecia inclinar-se.
—Senhor, por favor... precisamos de espaço para trabalhar — uma enfermeira tentou contê-lo, a voz profissional mas com um fio de compaixão.
A voz de Ian saiu como um rugido rasgado, uma fera ferida:
— Só quero vê-lo! Um segundo! Deixe-me ter um segundo!
O médico-chefe, um homem de cabelos grisalhos e olhos cansados, virou-se. Seu olhar encontrou o de Ian, e naquele breve silêncio, uma compreensão passou entre eles: a batalha estava perdida.
—Ele não vai responder, Sr. Moretti — disse o médico, a voz baixa e carregada de um peso imenso. — Os sedativos... já não está consciente. Mas... pode tentar despedir-se. Diga o que precisa dizer.
Ian atravessou o resto do caminho com o corpo tremendo como uma folha. O som do mundo extinguiu-se, restando apenas o zumbido surdo nos seus ouvidos e o ressoar cavernoso do seu próprio coração.
O avô estava imóvel. A pele, outrora marcada pela força e pela determinação, estava de um branco pálido, quase translúcido. O rosto, relaxado, parecia finalmente livre do fardo colossal que sempre carregara. A paz nele era uma facada no peito de Ian.
Ele caiu de joelhos ao lado do leito, não por reverência, mas porque as pernas se recusaram a sustentá-lo. Suas mãos, trêmulas, envolveram a mão fria e enrugada do avô. O contato foi um choque de realidade gelada.
— Sei que talvez não me pode ouvir... — a voz de Ian falhou, engasgada em lágrimas que ainda não ousavam cair. — Mas tenho que falar. Tenho de dizer... que finalmente entendi.
O silêncio era a única resposta, mas ele continuou, as palavras a saírem num fluxo de dor e de culpa.
— Você me criou para ser forte. Para nunca baixar a cabeça. Para lutar até ao fim, mesmo quando a luta já estava perdida. Eu pensava que era dureza. Que você queria que eu fosse de ferro, impenetrável... — uma lágrima quente escorreu pelo rosto, salgada como o mar. — Mas hoje vejo... você só queria que eu sobrevivesse. A este mundo, a esta família, a mim mesmo.
Silêncio.
E então...algo.
Um aperto.
Quase imperceptível. Ténue como o bater de uma asa. Mas real.
A mão de Nicolau apertou a dele.
Só por uma fracção de segundo.Um último e derradeiro impulso de vida. Um adeus.
Os monitores, que tinham estado num tom constante, voltaram a apitar de forma irregular. O médico aproximou-se, o seu rosto um mapa de cansaço e pesar. Colocou os dedos no pulso de Nicolau, depois no pescoço. Os seus olhos encontraram os de Ian, e um ligeiro, quase impercetível, abanar de cabeça confirmou o que Ian já sabia no seu âmago. O médico olhou para o relógio, e a sua voz, quando saiu, era rouca e solene:
—Hora do óbito: 11h42.

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