As palavras cravaram-se em Ian como punhais de gelo. O mundo parou. As cores desvaneceram-se. O som tornou-se abafado, como se estivesse debaixo de água. Ele já não sentia o chão sob os pés.
Ele saiu do quarto como um sonâmbulo, o corpo a mover-se por inércia. Cada passo era um fardo, como se carregasse o cadáver invisível do avô nos ombros. O corredor, outrora um espaço familiar, parecia alongar-se infinitamente à sua frente, um túnel sem fim. As luzes fluorescentes brancas ardiam nos seus olhos como lâminas, ampliando a dor de uma cabeça que já latejava de agonia.
Olívia viu-o de longe, parada ao lado de Carla, o seu rosto pálido e expectante. Mas quando os seus olhares se cruzaram no caos daquele corredor, não houve necessidade de palavras. Ela viu a paisagem devastada nos seus olhos. Viu o menino órfão por trás do homem de negócios. E entendeu.
Ela correu. Os seus passos ecoaram no linóleo, e ela atirou-se para os seus braços, envolvendo-o num abraço firme, desesperado, uma âncora na sua tempestade pessoal. Ian não resistiu. Todo o seu peso caiu sobre ela. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, no seu pescoço, e deixou-se quebrar de um modo que nunca permitira a ninguém. Um soluço profundo, gutural, sacudiu-o, seguido por outros, uma maré de dor que já não podia ser contida.
— Acabou... — a voz dele era irreconhecível, destruída, sussurrada contra a sua pele. — Ele partiu, Olívia. Partiu.
Ela não disse "vai ficar tudo bem". Não disse "ele está num lugar melhor". Apenas o segurou com mais força, os seus próprios ombros a tremer, as suas lágrimas a molharem o casaco dele.
—Eu sei... — sussurrou de volta, a voz carregada de uma dor empática. — Eu sei, amor. Deixa ir. Deixa sair.
O tempo perdeu-se num vórtice de luto partilhado. Quando as ondas de soluços finalmente amainaram para um tremor residual, Ian afastou-se ligeiramente, o rosto devastado, os olhos vermelhos e inchados. Ele limpou o rosto com as costas da mão, um gesto brusco e infantil. A máscara do patriarca, do homem de negócios impenetrável, tentou reassentar, mas estava rachada, mostrando a vulnerabilidade por baixo.
— Eu... tenho de tratar de tudo — disse, a voz rouca e mecânica, como se lesse um guião. — O funeral. Os advogados. Os acionistas vão querer sangue... — o seu olhar perdeu-se no vazio, a enormidade da tarefa esmagando-o.
— Que havia algo sobre você... — a voz de Ian era agora um sussurro rouco, carregado de um medo que não era apenas luto. — Algo que eu precisava saber.
Por um instante que pareceu durar uma eternidade, o mundo parou outra vez para Olívia. O sangue correu mais frio nas veias. O seu rosto, outrora macio com compaixão, endureceu instantaneamente, os músculos ficaram tensos. As suas mãos, que ainda repousavam nos braços de Ian, retraíram-se ligeiramente, um tremor quase impercetível a percorrê-las. Foi uma reação visceral, incontrolável. O pânico, nu e cru, pairou nos seus olhos por uma fracção de segundo antes de ser abafado.
— O que é que ele quis dizer com isso, Olívia? — Ian perguntou, a sua voz ainda calma, mas o seu olhar... o seu olhar era uma lâmina afiada, a esgravatar a superfície dela à procura da verdade. — O que é que o meu avô sabia... sobre você?
E o silêncio dela, pesado, carregado e eloquente, foi a resposta mais perturbadora e reveladora que ele poderia alguma vez ter recebido. Era o som de um segredo a ser desenterrado, e do novo abismo que se abria entre eles.

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