Olívia sentia o mundo se estreitar.
O ar do hospital, seco e estéril, parecia mais pesado a cada respiração. As palavras de Ian ecoavam dentro dela como sinos distantes, uma mistura de verdade e ameaça.
“O que o meu avô sabia sobre você?”
Ela tentou responder, tentou mesmo. Mas as palavras não vinham.
O medo e a culpa se misturavam como veneno.
Nicolau uspeitava. Ou melhor, Nicolau sabia.
E agora, talvez, tivesse levado o segredo para o túmulo.
Será que ele conseguiu entender tudo antes de partir?
Ou será que, no fim, ela o decepcionou também?
Olívia apertou os dedos uns contra os outros, sentindo o coração bater alto demais no peito.
Ela olhou para Ian.
Os olhos dele estavam cansados, vermelhos, mas havia algo ali, algo que ela nunca vira com tanta clareza: desolação.
Ele havia perdido o avô, o último pilar do que restava de sua linhagem. E agora, estava prestes a descobrir que o próprio passado ainda guardava um golpe final.
Talvez ele não precisasse saber. Talvez, com Nicolau sendo o único que verdadeiramente soubesse da verdade sobre o Léo, tudo poderia ser enterrado. Nenhum segredo os separaria. Leo continuaria sendo só dela. E Ian também...
Mas no fundo, ela sabia que não era assim. Não podia e nem seria justo.
Talvez esse fosse o momento. Talvez, agora que o mundo de Ian desabava em mil pedaços e ele perdia o último pilar de sua família, saber que ainda existia um pedaço dele vivo poderia acalmá-lo.
Olívia inspirou fundo.
Abriu a boca. Precisava de apenas dez segundos de coragem para arruinar tudo.
— Ian... há algo que eu preciso te dizer — começou, sua voz tremendo, mas firme. — Algo que o seu avô... talvez quisesse que você soubesse. É sobre o Léo e...
— Ian!
A voz de Benjamin cortou o ar como uma lâmina.
Olívia engoliu as palavras de volta num reflexo, girando para encará-lo.
Benjamin caminhava rapidamente pelo corredor, o rosto abatido, mas os olhos ainda carregando aquela faísca arrogante que ela conhecia tão bem.
Ele parou diante do tio, respirando com dificuldade.
— O que aconteceu? — perguntou, a voz embargada, mas sem emoção genuína. — Nicolau passou mal, eu estava sozinho na mansão e tentei te ligar... Como ele está?
Ian o observou em silêncio por um instante.
Era estranho pensar que agora, entre todos os Moretti, só restavam eles dois.
Dois homens criados sob o mesmo nome, moldados por pressões diferentes, marcados pela mesma ruína.
— Nicolau se foi — Ian respondeu, sem rodeios. — Eu vou precisar organizar tudo. Os advogados, o velório, o testamento... você deve ficar por perto.
Benjamin apenas assentiu.
O silêncio entre eles foi pesado.
Ian passou a mão pelos cabelos e olhou uma última vez para Olívia, com um misto de dúvida e necessidade em seu olhar, antes de se afastar pelo corredor.
Quando a porta do elevador se fechou atrás dele, o corredor ficou pequeno demais para os dois.
Benjamin quebrou o silêncio primeiro.
— Ele realmente morreu, não é?
— Sim — Olívia respondeu, medindo o tom. — Agora há pouco.
Ele desviou o olhar, como se ainda processasse.
Havia algo diferente nele. Uma tristeza real, talvez. Ou arrependimento.
Ela não sabia mais distinguir o que era verdade vindo de Benjamin.
— Ele não era fácil de amar — ele murmurou, depois de um tempo. — Mas... ainda assim, era o velho Nicolau. A força da família.
Houve uma pausa longa.
Ambos sabiam que estavam pisando em um terreno frágil.
— E agora? — Olívia perguntou, olhando-o de frente. — Agora que ela fez a escolha dela?
Benjamin suspirou, o olhar perdido no chão.
— Agora eu não sei. Não sei como seguir.
Olívia cruzou os braços, firme.
— Então talvez seja hora de aprender. — Sua voz saiu calma, mas cortante. — Porque todo mundo paga pelo que faz, Benjamin. Inclusive você.
Ele levantou os olhos, surpreso com o tom dela.
Mas Olívia já estava se virando para ir embora.
Não havia mais o que dizer.
Quando ela alcançou o final do corredor, seus pensamentos voltaram a Ian.
A conversa interrompida.
As palavras que ficaram presas em sua garganta.
“Há algo sobre você... que ele precisava saber.”
E, naquele instante, enquanto o elevador se fechava diante dela, Olívia soube com absoluta clareza:
não poderia esconder por muito mais tempo.
O segredo que ela carregava estava prestes a vir à tona e, quando isso acontecesse, nada mais entre ela e Ian seria o mesmo.
E ela temia de verdade.
Temia perder o único homem que a fizera verdadeiramente amar de novo.

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