o restante daquele dia seguiu cinza, abafado, pesado: como se até o céu soubesse que uma era dos Moretti tinha chegado ao fim.
Ian seguia de pé, desde antes de processar toda a perda. Ainda que tudo dentro dele estivesse desabando, Ian seguia de pé.
A gravata apertava mais do que o costume, o terno preto pesava nos ombros, e o reflexo dele no espelho parecia o de um homem que envelhecera dez anos em vinte e quatro horas.
Não havia tempo para o luto.
A morte de Nicolau Moretti, patriarca e símbolo de poder, se espalhara pelas manchetes com a mesma voracidade de uma epidemia.
“Morre Nicolau Moretti, o titã das indústrias italianas.”
“O império Moretti agora nas mãos de Ian Moretti — o neto controverso.”
“Sucessão em disputa: o futuro incerto de um império abalado por escândalos.”
As manchetes brilhavam nas telas enquanto Ian caminhava pelos corredores da sede principal das Indústrias Moretti, o som de saltos, telefones e murmúrios seguindo-o como um eco constante.
— Senhor Moretti, os repórteres estão na entrada principal — informou a secretária, a voz trêmula. — Eles querem um pronunciamento.
— Diga que não haverá um — Ian respondeu, sem desacelerar o passo. — Ainda não.
Ele entrou em sua sala e fechou a porta com força, isolando-se do caos lá fora.
O telefone tocava sem parar: sócios, acionistas, advogados, conselheiros.
Todos queriam respostas.
Todos queriam um novo Nicolau.
Mas Ian não era Nicolau.
Ele nunca seria.
Matheus apareceu minutos depois, uma pasta de documentos nas mãos.
— As notificações do conselho chegaram. Querem reunião extraordinária até amanhã.
— Amanhã? — Ian passou a mão pelos cabelos, exausto. — Eles não perdem tempo, não é? O corpo do meu avô nem foi enterrado.
Matheus hesitou.
— Eles têm medo, Ian. O império está sem comando. O mercado reage rápido.
Ian soltou um riso seco, sem humor.
— E os abutres mais ainda.
As horas se arrastaram em uma sequência interminável de telefonemas, assinaturas, declarações, instruções.
A cada decisão, uma lembrança de Nicolau surgia em sua mente: o olhar severo, os conselhos ditos entre tragos de conhaque, a mão firme no ombro, o som ensurdecedor de sua bengala.
Era estranho ter que preencher o vazio de um homem que fora mais que um avô: fora uma sombra, um guia, uma sentença.
Quando o sol finalmente começou a cair, tingindo o céu de tons avermelhados, Ian sentiu o corpo pesado, a mente latejando.
Ele queria apenas ir para casa, tirar o paletó, e respirar em silêncio.
E foi o que fez.
A casa estava silenciosa quando ele entrou.
Apenas o som do vento batendo nas janelas e o farfalhar distante das árvores.
Olívia estava na sala, de pé, com uma xícara de chá nas mãos.
A luz do abajur dourava seus cabelos, e por um instante, apenas vê-la ali foi suficiente para aliviar o peso do dia.
— Oi — ela disse suavemente, a voz um bálsamo. — Pensei que não voltaria hoje.
— Eu também — Ian respondeu, soltando o ar em um suspiro longo. — Mas eu precisava... ver você.
Ela sorriu, pequeno, compreensivo.
O tipo de sorriso que se dá a alguém à beira do colapso.
Ian atravessou a sala e a puxou para si, o rosto escondido na curva de seu pescoço.
Por um instante, o mundo ficou em silêncio.
Ali, naquele breve toque, ele pôde finalmente respirar.
Mas a calmaria durou pouco.
Uma voz cortou o ar.
A leitura começou.
As empresas, as subsidiárias, os imóveis — tudo seguia a lógica esperada.
Ian seria o novo presidente executivo das Indústrias Moretti.
Benjamin, o vice. Até para sua própria surpresa.
Mas então, o tom de Vitório mudou.
— Quanto à herança direta — ele prosseguiu, pausando o suficiente para que ambos erguessem o olhar —, há uma ressalva.
Ian franziu o cenho.
— Ressalva?
— Sim. Nicolau foi claro: nenhum dos senhores é o herdeiro legal do patrimônio pessoal.
Um silêncio espesso caiu sobre a sala.
Benjamin foi o primeiro a reagir.
— Como é que é?
— Ele disse que o verdadeiro herdeiro — continuou Vitório, a voz firme — é alguém que carrega o sangue Moretti, mas pertence a uma nova geração.
Ian sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Quem? — perguntou, o tom grave, baixo. — De quem você está falando?
Vitório o encarou por um instante antes de responder.
— Do seu filho, Ian.
O ar pareceu sair da sala.
Benjamin o encarou, atônito.
Ian piscou, sem compreender.
— O quê?

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