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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 188

Seis Anos Atrás

A chuva fina que caía sobre a cidade não lavava a dor, apenas a espalhava, diluindo-a nas calçadas e transformando o asfalto em um espelho distorcido de tudo que Olívia havia perdido.

Seus pés arrastavam-se pelo meio-fio, o salto direito quebrado; metáfora demasiado óbvia para o estado de seu casamento, mas ela não tinha energia para ironias.

O saldo esquerdo ainda intacto batia irregularmente contra o concreto, ecoando o ritmo descompassado de seu coração.

Ela parou sob uma marquise, encostou a testa fria no vidro de uma loja fechada e fechou os olhos. A imagem voltou, nítida e cruel: Benjamin e Clara entrelaçados não apenas em seus lençóis, mas em um conluio de gestos íntimos que falavam de uma história muito mais longa do que aquela tarde. Não fora um acidente, um deslize; fora uma escolha meticulosa, executada no espaço que ela considerava seu refúgio.

O gosto da traição era amargo e familiar na sua boca, como um remédio que se recusa a descer. Ela riu, um som oco que se perdeu no ruído da cidade.

— Parabéns, Olívia. — sussurrou para seu reflexo embaçado no vidro. — Vinte anos, e eis o que você construiu: um casamento desfeito, amizades destruídas e essa solidão que pesa mais que o seu próprio corpo.

As luzes dos carros passavam, riscos luminosos no asfalto molhado, e ela lembrava do dia em que escolhera aquele vestido azul; a cor que Benjamin sempre dissera combinar com seu tom de pele. Agora ele estava ensopado, colado à sua pele como uma segunda pele de vergonha.

Foi então que viu o letreiro vermelho piscando mais adiante: "O Último Porto". O nome soou como uma profecia. Empurrou a porta pesada e foi recebida por uma onda de calor humano que cheirava a cerveja derramada, madeira envelhecida e histórias não contadas.

O bar era o oposto de tudo que conhecia. Enquanto sua vida era composta por organizações meticulosas e horário certo de trabalhos, aquele lugar respirava autenticidade crua. Sentou-se no balcão, num banco de couro desgastado que cedera ao peso de incontáveis clientes antes dela.

— Uísque. Duplo. E deixe a garrafa. — disse ao homem atrás do balcão, um quarentão calvo com olhos que haviam visto demais.

O primeiro gole queimou de uma forma quase religiosa. O segundo já não doía tanto. O terceiro começava a apagar as bordas mais ásperas da sua dor. Estava no quarto copo quando uma voz a tirou de seu torpor.

— Você está bebendo como quem quer esquecer o próprio nome.

Ela virou-se lentamente. O homem sentado a dois banquetes de distância tinha uma presença que preenchia o espaço ao seu redor. Era alto, com ombros largos que tensionavam o tecido caro de seu terno preto, mas havia uma curvatura em sua postura que falava de cansaço profundo. Seus olhos escuros, quase negros, estudavam-na com uma intensidade que deveria ser intrusiva, mas que inexplicavelmente parecia familiar.

— E você está observando como quem já esqueceu o seu. — ela retrucou, surpresa pela própria lucidez.

Ele sorriu, um gesto cansado que não alcançou seus olhos.

— Justo. Mas pelo menos um de nós deveria manter a dignidade intacta esta noite.

— Por que seria você? — Ela girou o copo entre os dedos, observando como a luz âmbar se refratava no líquido.

— Eu já perdi a minha há três uísques. — Ele deslizou para o banco ao lado dela. — Ian.

— Olívia. — Ela não estendeu a mão, mas inclinou levemente a cabeça. — Então, Ian. O que traz um homem de terno caro a um lugar como este numa terça-feira chuvosa?

— O mesmo que traz uma mulher com vestido molhado e salto quebrado: a necessidade de estar em algum lugar onde ninguém faça perguntas.

O barman colocou outro copo à frente dela. Antes que pudesse alcançá-lo, a mão de Ian; larga, com veias salientes e unhas cuidadosamente aparadas, interceptou o movimento.

— Esse aqui. — ele disse, empurrando suavemente o copo para o lado — Vai te levar a um lugar de onde é difícil voltar. Acredite, eu conheço o caminho.

Ela observou sua mão, depois seu rosto.

— Eu não confio em estranhos.

— Hoje — ele respondeu, seu olhar sério, — Não confio nem em pessoas que conheço há anos.

Havia uma dor genuína em sua voz que ressoou com a dela. Olívia sentiu uma pontada de curiosidade através do nevoeiro de sua própria angústia.

— Deixe-me adivinhar. — Ela disse, o álcool tornando-a ousada. — Mulher?

— Namorada de cinco anos. Com um sócio mais um grupo de pessoas. — Ele ergueu o copo em um brinde amargo. — E você?

— Eu não tenho para onde ir. — ela admitiu, a vergonha queimando seu rosto.

— Eu também não. — Ian disse suavemente. — Pelo menos, não para nenhum lugar que queira estar.

Saíram para uma cidade transformada pela chuva. O ar cheirava a ozônio e terra molhada, limpando um pouco a névoa de álcool de suas mentes. Pararam sob o letreiro do bar, a luz vermelha pintando seus rostos de cores dramáticas.

— O que acontece agora? — Olívia perguntou, sua voz quase um sussurro.

Ian estudou seu rosto, seus olhos percorrendo cada traço como se estivesse memorizando-a.

— A noite ainda é jovem para pessoas com velhas dores.

Ela sabia o que ele estava propondo. Sabia que era uma má ideia, que se arrependeria amanhã, que estava usando uma tragédia para mascarar outra. Mas quando seus olhos encontraram os dele, viu não apenas desejo, mas um reconhecimento profundo; ele entendia sua dor porque vivia uma versão diferente da mesma.

Foi ela quem fechou a distância, quem colocou as mãos em seu rosto e quem o beijou primeiro. Não foi um beijo gentil ou hesitante, mas uma colisão de duas pessoas tentando provar que ainda estavam vivas. Seus lábios provavam a uísque e verdade amarga, e suas mãos tremiam não de hesitação, mas da intensidade da necessidade.

Quando se separaram, ofegantes, Olívia sentiu as lágrimas queimarem seus olhos novamente.

— Eu não devia...

— Devíamos. — ele interrompeu suavemente, seu polegar enxugando uma lágrima que ela não sabia ter caído. — Por uma noite, devíamos fazer algo que não seja sofrer.

Naquela noite, Olívia Belmonte esqueceu que era uma mulher traída.

Ian Moretti esqueceu que era um homem em luto.

E juntos, decidiram trocar o peso da dor pelo esquecimento, nem imaginando que, anos depois, aquela noite perdida na chuva mudaria o destino de toda uma linhagem.

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