O motor ainda fazia um ronco baixo quando Olivia saiu do carro. Ela parou na frente de casa, mas não abriu a porta. Ian, todavia, também não havia partido.
Ficou ali, com as mãos no volante, os nós dos dedos esbranquiçados, olhos presos no nada.
As últimas palavras dele ainda ecoavam na mente de Olivia, afiadas como vidro quebrado, martelando como um prego na tábua.
“Clara e Benjamin vão passar alguns dias hospedados na mansão.”
Olivia saiu do carro de Ian assim que aquelas palavras saíram da boca dele, porque de repente, o ar pareceu mais pesado ali dentro. Cada respiração trazia um gosto amargo, mistura de raiva e medo.
Se viver na mesma casa que Ian já seria um desafio… com Clara e Benjamin no mesmo teto, aquilo se tornava uma sentença.
— Vai ser um inferno. — murmurou, sem perceber que estava falando sozinha.
Um aperto subiu pelo estômago e se transformou em calor no rosto quando ouviu a voz de Carla vindo da varanda.
— Olha só quem resolveu aparecer! — Clara apoiava-se no corrimão, expressão de quem estava mais curiosa do que feliz. — O que vai ser um inferno? — a voz veio de fora, leve, carregada de curiosidade.
No mesmo instante que ela surge, Olivia vê quando Ian finalmente acelera o carro e sai em disparada da sua rua. Ela respira fundo, aliviada ainda que fosse apenas 1%.
Olívia olhou para o lado e viu Carla, sua vizinha e melhor amiga, apoiada no portão. Jeans surrado, camiseta larga e um coque malfeito no cabelo. O jeito despretensioso de sempre… mas com aquele olhar que atravessava qualquer fachada.
— Você tá pálida, garota. Onde se meteu?
— Carla… — Olívia tentou forçar um sorriso. — Oi. E por favor, não começa... — suspirou Olivia, empurrando a porta de casa.
— Oi, nada. — Carla se aproximou e se apoiou na entrada da casa. — Faz três dias que você sumiu. Não atende, não responde. Pensei até em ligar pra polícia. E agora me aparece com essa cara de “acabei de sair de um funeral”.
Olívia suspirou, e entrou em sua casa. Não tinha energia para brigar, mas sabia que Carla não a deixaria em paz.
— Entra. — disse, andando até a cozinha.
Carla fechou a porta a seguiu até lá, como um detetive atrás de testemunha.
O cheiro familiar de café que Carla havia feito na última visita ainda pairava no ar, mesmo depois de dias.
— Então? — Carla se encostou na bancada, braços cruzados. — Vai falar ou eu vou ter que tirar na marra?
Olívia ficou de costas, os dedos brincando com a borda da pia.
—Deixa eu ver... Contrato, almoço dos Moretti. Foi… um desastre. Caos. — fez uma pausa, encarando o azulejo como se fosse mais fácil contar para ele. — E agora, como se já não fosse o suficiente, Nicolau decidiu que eu e o Léo vamos morar lá. Com todos eles.
Carla franziu o cenho e Olivia não disse nem metade das coisas que queria ter dito.
— “Todo mundo” inclui quem eu tô pensando?
Olívia fechou os olhos.
— Inclui. Clara e Benjamin.
O silêncio foi imediato. Carla respirou fundo enquanto arregalava os olhos, como se estivesse digerindo a notícia.
Ela ficou em silêncio por tempo suficiente para que Olivia já pressentisse a bomba que estava por vir.
— E o Ian sabe? — perguntou, num tom mais baixo.
— Sobre o quê? — Olívia se virou para ela, a encarando, mas desviando o olhar à primeira vista.
Carla só arqueou uma sobrancelha, sem responder, um sorriso de canto nos lábios. O olhar dizia tudo. Como quem sabe exatamente qual pergunta fez.
— Não é necessário ele saber. — Olívia cortou o assunto, firme. — São três meses. Vai passar rápido. Depois, nunca mais nos veremos.
Carla riu, mas sem humor.
— Como você achava antes? — ela rebateu, a lançando aquele olhar que gela o corpo.
O comentário atingiu Olívia como um estalo. Ela apoiou uma xícara na pia com força. O silêncio ficou pesado, enquanto ela apertava o maxilar.
— Carla, mesmo estando sob o mesmo teto, estamos a oceanos de distância. Há tanto espaço entre nós que será como se ele nem estivesse ali.
Se afastou da cozinha, pegando as chaves de casa.
— Você acha mesmo que entre vocês dois cabe espaço para mais algum segredo? Além de tudo que vocês já combinaram.
— Eu não tô no clima, Carla. — disse, seca. — Agora eu preciso ir.
Carla ergueu as mãos, se afastando.
— Tudo bem. Mas lembra que fui eu quem ficou do seu lado quando todo mundo sumiu. — fez uma pausa, olhando sério. — E vou ficar de novo. Mesmo se você estiver sendo muito burra.
Olívia respirou fundo, caminhando até a porta. No fundo, sabia que sua amiga tinha razão, mas jamais assumiria aquilo pra ela
— Eu adoraria poder sentar e conversar com você por horas. Mas preciso ver o Léo.
Ela olhou para ele, que agora terminava de pintar o seu dragão de horas antes e respirou fundo. Seus cabelos escuros e lisos caindo pela pele pálida, os lábios fartos e rosados, seus olhos negros e espertos...
“Meu menino perfeito”, Olivia murmurou, “Tudo por você.”
Enquanto Olivia se preparava para aquela mudança gigante, do outro lado da cidade, na mansão dos Moretti, o veneno ainda circulava.
Clara estava no quarto de hóspedes, sentada diante da penteadeira, tirando o esmalte vermelho das unhas. Benjamin, recostado na poltrona, mexia no celular.
— Ela não vai durar aqui — Clara disse, olhando o próprio reflexo. — E se pisar nessa casa, eu termino o que comecei anos atrás.
Benjamin riu baixo.
— Você fala como se tivesse acabado alguma coisa.
— O que eu comecei com ela, eu sei terminar. — Clara respondeu, firme.
Benjamin fechou o celular e a encarou.
— Calma. Você só precisa esperar. Eu tenho um jeito melhor. Eu sei exatamente onde cutucar. Meu querido tio. É só mexer com Ian nos pontos certos. Ele é esperto, mas não é imune.
— E se ele proteger ela? — Clara rebateu.
Benjamin sorriu, lento, guardando o celular, os olhos fixos na parede oposta.
— Todo mundo tem um limite. E eu vou encontrar o dela.
No mesmo momento, a porta se aviso. Ian estava ali.
O sorriso de Clara sumiu. Benjamin apenas ergueu o queixo.
— Se vocês tocarem um dedo na Olívia… — disse, cada palavra mais fria que a anterior — eu acabo com vocês antes mesmo de Nicolau pensar em intervir.
Clara abriu a boca para responder, mas fechou. Benjamin manteve o sorriso, desafiador.
Ian os encarou por alguns segundos e saiu, batendo a porta.
Benjamin respirou fundo, ainda sorrindo.
— Ele acha que pode proteger ela… — disse para si mesmo. — Mas é ela que precisa se proteger de mim.

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