O silêncio que se seguiu foi opressivo, preenchendo cada centímetro do espaço que os separava.
Olívia sentia o peso físico do olhar de Ian em seu peito, cada respiração um esforço consciente contra a pressão que parecia querer esmagá-la. O ar na calçada da casa de Carla estava parado, pesado com o calor do final de tarde e com tudo que não estava sendo dito.
Ian permanecia diante dela como uma estátua esculpida em gelo; seus traços familiares, outrora tão cheios de vida e paixão, agora fixos em uma máscara de impenetrável frieza. Seus olhos, que ela lembrava cheios de calor e intensidade, agora a encaravam com um distanciamento que doía mais que qualquer acusação.
— O que você quis dizer com aquilo? — A pergunta de Olívia pairou no ar entre eles, uma tentativa frágil de atravessar a barreira que ele erguera.
Ele não respondeu. Em vez disso, começou a se virar, um movimento deliberado e final que a fez sentir um pânico súbito e agudo.
— Ian, por favor... — sua voz quebrou, carregada de uma emoção crua que ela não conseguia mais conter. — Você precisa me ouvir. Dessa vez, vou dizer apenas a verdade.
— Eu já ouvi o suficiente. — Suas palavras saíram cortantes, cada sílaba afiada como vidro quebrado. — Ou melhor, já ouvi mentiras suficientes para durar uma vida inteira.
Olívia sentiu as pernas amolecerem, o mundo girando levemente ao seu redor. Ela se segurou na entrada da porta, seus dedos brancos contra a madeira desgastada.
— Eu não menti para te machucar. — ela insistiu, o desespero crescendo em sua voz como uma maré. — Em cada decisão, em cada silêncio, eu fiz o que acreditava ser certo naquele momento.
— O que você acreditava ser certo? — A risada que escapou dele era um som vazio, desprovido de qualquer humor. — Você me roubou seis anos, Olívia. Seis anos de primeiros passos, de primeiras palavras, de noites de febre e manhãs de descobertas. Você se colocou no lugar de Deus, decidindo o que eu merecia saber e o que deveria ser mantido escondido. E ainda tem a audácia de ficar aqui e me dizer que fez o que era certo?
As palavras dele a atingiram com a força de um furacão, cada uma arrancando um pedaço de sua já frágil compostura. Ela engoliu em seco, sentindo as lágrimas queimarem em seus olhos, mas manteve-se firme, determinada a não quebrar completamente.
— Eu estava te protegendo, Ian. Protegendo o Léo. — Sua voz era um sussurro rouco, carregado da dor de anos de segredos guardados.
— De mim? — Ele deu um passo à frente, e pela primeira vez desde que começara a conversa, uma emoção genuína irrompeu em seus olhos; uma raiva tão profunda e fervente que quase a fez recuar. — Que tipo de monstro você acha que eu sou, Olívia? Que tipo de pai você acredita que eu seria?
Ela abriu a boca para responder, para explicar os medos que a consumiam, as sombras da família Moretti que sempre a assombraram, mas as palavras morreram em sua garganta quando um som doce e familiar cortou a tensão entre eles.
— Mamãe!
A voz de Léo ecoou pela entrada da casa como um raio de sol através de nuvens escuras. Quando Ian se virou, Olívia viu o menino subindo os degraus da varanda com a energia contagiante que apenas as crianças possuem. Seus bracinhos estavam carregados de sacolas coloridas que balançavam com seu movimento animado.
— Olha o que o tio Ian me comprou! — ele anunciou, seu rosto iluminado por um sorriso que poderia derreter até o coração mais endurecido. — Tem um caminhão que faz barulho de verdade, um livro sobre dinossauros e até uma camisa igual à dele!
Olívia sentiu seu coração se contrair de uma forma quase dolorosa. A inocência radiante de Léo, sua alegria pura e descomplicada, criou por um momento uma imagem do que poderia ter sido - pai e filho, unidos por um amor simples e incondicional, sem o peso das mentiras e segredos que sempre pairaram sobre eles.
Mas Ian não olhou para ela. Nem mesmo um relance. Sua atenção estava completamente focada no menino, e Olívia pôde ver, por uma fração de segundo, algo suavizar em sua expressão antes que a máscara de frieza reassentasse.
— Vamos, Léo — ele disse, sua voz notavelmente mais suave, mas ainda distante. — Vá colocar isso dentro de casa.
Léo correu em direção a casa, sua energia contagiante deixando um rastro de alegria no ar pesado. Foi naquele breve intervalo, enquanto o menino estava momentaneamente fora de vista, que Olívia fez uma última tentativa desesperada.
— Ian, não me afasta assim. Por favor. A gente ainda pode...
— Acabou, Olívia. — As palavras caíram entre eles como uma lápide. — O que quer que houvesse entre nós morreu. A única coisa que nos conecta agora é Léo. E só isso.
Sem esperar por uma resposta, sem dar a ela a chance de mais uma palavra, ele se virou e caminhou em direção ao carro onde Matheus o esperava, completamente ciente do terremoto emocional que ocorria a poucos metros de distância.
O motor ligou, um ronco suave que pareceu ecoar pela rua silenciosa. Olívia permaneceu onde estava, paralisada, observando o carro se afastar pela rua arborizada até desaparecer completamente de vista.
O vento da tarde soprou, carregando o cheiro de terra molhada e flores murchas, misturando-se às lágrimas salgadas que agora escorriam livremente por seu rosto. A sensação era terrivelmente familiar; o abandono, o vazio, a dor aguda de um amor perdido.
Mas desta vez, o que mais doía não era o silêncio dele ou a distância que ele criara. Era a terrível, esmagadora consciência de que talvez - apenas talvez - ele estivesse certo.
E pela primeira vez desde que tudo começara, Olívia percebeu que não sabia mais como lutar por algo que ela mesma havia destruído.
— Olívia... — Clara se aproximou de repente.
Ela olhou para amiga, esquecendo completamente da discussão que a levaram até ali.
— Acabou, Carla. — ela choraminga. — Eu o perdi para sempre.

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