As lágrimas caíam sem cerimônia, cada uma carregando fragmentos de uma dor que Olívia já não conseguia nomear. Ela não sabia mais se chorava pela culpa que a consumia, pelo medo do futuro ou simplesmente pela exaustão de carregar o peso de tantas verdades não ditas. O chão frio daquela calçada parecia o único lugar sólido em um mundo que desmoronava ao seu redor.
Carla ajoelhou-se ao seu lado, suas próprias lágrimas misturando-se às da amiga em um testemunho silencioso de dor compartilhada.
— Eu... me desculpe, Livi. — a voz de Carla saiu trêmula, carregada de arrependimento genuíno. — Eu estava magoada, com raiva de tudo, mas nunca deveria ter dito aquelas coisas para você. Você é a pessoa mais forte que conheço.
Olívia ergueu o rosto, seus olhos inchados e vermelhos encontrando os da amiga.
— Eu também me desculpo. — ela respondeu entre soluços que pareciam vir das profundezas de sua alma. — Não sou egoísta, Carla... só estou tão cansada. É como se eu estivesse constantemente tentando manter um castelo de areia contra a maré, e toda vez que consigo erguer uma parede, outra desaba.
Carla assentiu, engolindo em seco enquanto enxugava suas próprias lágrimas. Por um momento que pareceu suspenso no tempo, as duas mulheres permaneceram ali no chão, abraçadas como náufragas em um oceano emocional, tentando encontrar força uma na outra.
Depois de alguns minutos de silêncio compartilhado, Olívia respirou fundo, enxugando o rosto com as mangas do casaco antes de perguntar em um tom suave, quase hesitante:
— E você e o Matheus?"
Carla piscou, confusa por alguns segundos antes que a compreensão chegasse.
— O quê?
— Eu vi vocês. — disse Olívia, um sorriso leve e cansado tocando seus lábios. — No sofá. Na verdade, eu vi até demais.
Carla corou profundamente, o constrangimento pintando seu rosto de vermelho.
— Foi... um erro, Livi. Um momento de fraqueza. Eu nem sei direito o que aconteceu, tudo foi tão rápido e...
— Não pareceu um erro para ele. — Olívia retrucou gentilmente, sua voz carregada de uma compreensão que surpreendeu a amiga. — E para você? Foi só um erro?
Carla desviou o olhar, sentindo seu coração acelerar ao lembrar da intensidade daqueles momentos.
— Eu gosto dele, tá? Mas ele é... complicado. É o braço direito do Ian, vive no mesmo mundo que vocês, e você imagina o tamanho da confusão que isso pode gerar?
Olívia pegou as mãos da amiga entre as suas, seu toque firme e reconfortante.
— O amor sempre vem acompanhado de confusão, Carla. Mas se for verdadeiro, se for real, vale todo o risco. Só... não se perca no processo. E não deixe ninguém te fazer sentir menos por isso.
Carla sorriu, seus olhos brilhando com lágrimas renovadas.
— Você ainda acredita nisso? Depois de tudo que aconteceu?
— Eu preciso acreditar. — respondeu Olívia em um sussurro quase quebrado. — Se não acreditar que o amor pode superar até os maiores erros, então o que me resta?
As duas se levantaram lentamente, seus corpos pesados pela exaustão emocional, e voltaram dentro de casa, parando na sala de estar. Lá encontraram Léo no centro do tapete, cercado por um mar de papéis coloridos e embalagens brilhantes, seus olhos abertos com admiração a cada novo tesouro descoberto.
— Olha, mamãe! — ele gritou animadamente, segurando um carrinho prateado que reluzia sob a luz da sala. — O tio Ian comprou pra mim! Ele disse que é igual ao dele!
Olívia parou na entrada, sentindo seu coração se contrair dolorosamente. Havia presentes demais; brinquedos caros que ainda cheiravam a plástico novo, roupas de marcas que ela nunca poderia comprar, até um relógio infantil que parecia pequeno demais para o pulso delicado de Léo. Cada presente era uma facada, uma lembrança de que Ian estava tentando compensar seis anos de ausência com objetos materiais. Ou talvez, pensou com amargura, ele estivesse tentando comprar o que sempre deveria ter sido seu por direito.
Carla se aproximou silenciosamente e sussurrou em seu ouvido:
— Você vai contar para ele? Sobre o Ian ser... bem, você sabe.
Olívia olhou para seu filho, para seus olhinhos inocentes e curiosos que ainda viam o mundo como um lugar maravilhoso e simples.
— Vou. — ela respondeu, sua voz firme apesar do tremor interno. — Não posso mais mentir. Já perdi demais tentando esconder a verdade.
Ela se ajoelhou ao lado do menino, respirando fundo antes de começar a conversa mais importante de suas vidas.
***
Enquanto isso, no bar do hotel...
— A vida dela não me interessa. Nem a de quem a cerca. Faça o que quiser.
Matheus apenas assentiu, o desconforto ainda pairando em seus ombros como um manto pesado. Depois de alguns minutos, ele levantou-se.
— Vou indo. Se cuida, Ian.
Ian ficou sozinho no bar, o copo agora vazio parecendo um símbolo adequado para o vazio dentro dele. Seus pensamentos giravam em torno de Nicolau, de Olívia, do pequeno Léo, e de como, de repente, o mundo inteiro parecia uma peça cruel escrita especificamente para sua própria agonia.
O barman aproximou-se silenciosamente para recolher o copo vazio, mas Ian o impediu com um gesto brusco.
— Deixa. — murmurou, sua voz rouca pelo álcool e pela emoção. — Traz mais um.
Enquanto o homem se afastava, uma sombra familiar deslizou para o assento ao lado dele no balcão. O perfume amadeirado e caro, combinado com o som de uma voz baixa e deliberadamente calma, fez com que todo o corpo de Ian enrijesse instantaneamente.
— Olá, irmão.
Ian virou o rosto devagar, seus olhos escuros encontrando os de Alexander. Seu maxilar se contraiu com tanta força que os músculos de seu pescoço ficaram tensionados, e o som do vidro trincando ecoou suavemente quando ele apertou o copo com força excessiva.
— O que diabos você quer? — a pergunta saiu em um tom tão gélido que quase pareceu congelar o ar ao seu redor.
Alexander sorriu, aquele sorriso calmo e venenoso que Ian sempre detestara.
— Nada demais. Só vim entregar o que você tanto diz querer: mais verdades.
Ian apoiou os cotovelos no balcão, seus olhos fixos em Alexander com uma intensidade que faria um homem menos confiante recuar.
— E qual é o segredo da vez? — ele rosnou, cada palavra carregada de desdém. — Quem é o próximo a me trair?
Alexander inclinou-se ligeiramente para frente, sua voz baixa mas incrivelmente clara no bar quase vazio, carregada de algo sombrio e perigosamente sincero.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido