O ar no bar do hotel pesava como um véu úmido, cada molécula carregada da tensão não resolvida entre os irmãos. O som do gelo batendo contra o vidro do copo de Ian marcava um ritmo funéreo, a única trilha sonora entre o silêncio opressivo e o caos emocional que ameaçava explodir.
Alexander deslizou para o banco ao lado com a graça felina de um predador que sabe ter sua presa encurralada, sinalizando para o garçom com um gesto despreocupado.
— Um uísque. Do mesmo que ele está bebendo — disse Alexander, seu meio sorriso um claro ato de provocação calculada.
Ian apertou o maxilar até sentir os músculos da mandíbula queimarem.
— Você não devia estar aqui — suas palavras saíram entre dentes cerrados, cada sílaba um aviso.
— Por quê? — Alexander arqueou uma sobrancelha em falso questionamento. — Somos irmãos, afinal de contas. Deveríamos brindar a esse fato inegável.
— Não somos nada — Ian rosnou, sua voz baixa mas carregada de uma fúria que tremia sob a superfície. — E não finja que esta mesa é algum tipo de terreno neutro. Você sistematicamente destruiu tudo que eu amava.
Alexander riu, um som amargo e deliberadamente calmo que soou como a mais cruel das ironias.
— Ah, entendi. Ainda é por causa da mulher que mentiu para você? A mesma que te escondeu seu próprio filho por seis anos? Talvez eu devesse visitá-la outra ve...
Ian se moveu antes que seu cérebro pudesse processar a ação. Em um movimento fluido nascido de pura raiva, ele agarrou Alexander pela gola da camisa impecavelmente engomada e puxou-o para perto até que seus rostos estivessem separados por meros centímetros, seus olhos faiscando com um ódio primitivo.
— Se você ousar só encostar nela de novo... — a ameaça ficou pairando no ar entre eles, não precisando ser completada.
Alexander nem pestanejou. Em vez disso, seu sorriso se ampliou.
— Lá está ele. O Moretti frio, o magnata implacável... ainda sangra quando o assunto é ela. Fascinante.
Ian apertou o tecido com mais força, seu punho tremendo visivelmente.
— Você devia agradecer por eu não ter acabado com você quando tive chance.
— Agradecer? — Alexander bufou, genuinamente divertido. — Ian, eu te libertei. Você simplesmente ainda não entendeu isso.
Ian o empurrou com força suficiente para fazer Alexander cambalear para trás, o copo de uísque do irmão caindo e se espatifando no chão em mil fragmentos de cristal.
— Libertar? Você chama de libertar destruir o que sobrou da minha família? Roubar a paz de todos à minha volta?
— Família? — Alexander sorriu de canto, como quem saboreava a palavra antes de cuspí-la. — A mesma família que mentiu para você a vida inteira? Que te fez carregar um nome manchado de sangue e segredos? Você é quase tão vítima quanto eu, irmão.
Ian deu uma risada seca e fria que não alcançou seus olhos.
— Eu não sou vítima de ninguém.
— Não mesmo? — Alexander inclinou-se sobre o balcão, seu olhar penetrante. — Então por que continua tentando salvar o mesmo império que te envenenou desde o berço? Por que se apegou tanto ao legado de um homem que criou essa dinastia sobre mentiras?
Ian olhou o irmão de cima a baixo, seu desprezo tão palpável que quase podia ser sentido no ar.
— Porque é meu. Porque Nicolau acreditou em mim quando ninguém mais acreditava, e eu não vou deixar que você, com seu ódio patético e sua necessidade doentia de vingança, destrua tudo que ele construiu.
Alexander balançou o copo vazio antes de perceber que não havia mais líquido para beber.
— Tanto faz. O velho já está morto e enterrado.
A frase ecoou entre eles como um tiro no silêncio do bar quase vazio. Os olhos de Ian brilharam com uma fúria tão intensa que por um momento pareceu que ele realmente atacaria Alexander ali mesmo.
— Cale a boca, Alexander — a ordem saiu em um sussurro perigosamente controlado.
Ian levantou-se de súbito, seu corpo inteiro tomado por um impulso assassino que ele mal conseguia controlar. A cadeira tombou para trás com um baque surdo, o que restava de seu copo caindo e se juntando aos estilhaços já espalhados pelo chão. Mas antes que ele pudesse concretizar a violência que ardiam em seus olhos, uma voz familiar o chamou da entrada do bar.
— Senhor Moretti?
Era Vitório, o advogado da família, seu traje impecável e sua pasta de couro marrom nas mãos contrastando com a atmosfera carregada do bar. Ian respirou fundo, lutando visivelmente para conter a tempestade emocional que ameaçava consumi-lo por completo.
Alexander, ainda sentado e aparentemente impassível, apenas sorriu e ergueu seu copo imaginário em uma zombaria silenciosa.
— Vá lá, herdeiro. O império chama.
Ian o ignorou com um esforço sobre-humano, passando por ele sem conceder sequer um olhar. Vitório o seguiu, seu rosto profissional marcado por uma surpresa genuína ao perceber a tensão.
— Ian, o que era tão urgente que precisava me encontrar pessoalmente a esta hora? — perguntou Vitório enquanto caminhavam em direção aos elevadores.
Eles entraram no elevador vazio. Ian manteve o olhar fixo nas portas de aço fechadas, seu reflexo mostrando um homem à beira do abismo. Quando finalmente respondeu, sua voz era cortante e controlada; o completo oposto do inferno que ardia em seu interior.
— Achei o meu filho, Vitório. E agora quero que todas as medidas jurídicas necessárias sejam tomadas imediatamente.
Vitório assentiu, ainda processando a informação. — Entendido. Prepararemos a documentação e começaremos o processo de imediato.
Ian apertou os punhos dentro dos bolsos do paletó, seus olhos fixos em algum ponto distante além de seu próprio reflexo no espelho.
O elevador apitou suavemente, as portas deslizando para abrir no andar executivo. Ele deu um passo à frente, mas antes de sair, parou e se virou ligeiramente, um meio sorriso gélido curvando seus lábios.
— Apenas me aguarde, Carolina — ele sussurrou para si mesmo, seu olhar adquirindo um brilho perigosamente determinado. — Eu estarei chegando para você também.

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