O relógio do painel marcava 2h47 quando Ian estacionou violentamente em frente ao prédio de Carolina, os pneus cantando no asfalto úmido como um grito no silêncio da madrugada. As ruas respiravam a solidão peculiar das horas mortas, o vento noturno sibilando entre os edifícios com uma frieza que combinava perfeitamente com o inferno que ardia dentro dele.
Cada passo na calçada parecia ecoar não apenas no concreto, mas em sua própria alma. O porteiro, um homem de meia-idade com olhos sonolentos, tentou anunciar sua presença, mas um único olhar de Ian foi suficiente para silenciá-lo; havia algo na postura do herdeiro dos Moretti que falava de uma tempestade prestes a se desencadear.
O elevador dourado pareceu subir em câmera lenta, e durante aquela eternidade vertical, Ian ouvia o eco de sua própria raiva batendo contra as paredes de sua mente como um martelo persistente.
Alexander. Carolina. Nicolau. O passado que nunca ficara realmente para trás. As mentiras que se entrelaçavam como víboras venenosas. Tudo parecia convergir para aquele momento, para aquela porta que se abriria para mais verdades dolorosas.
Quando o elevador finalmente parou com um tilintar suave, Carolina já estava à porta, como se tivesse sentido sua chegada perturbadora. Ela usava um robe de seda azul-cobalto que conhecia bem; era presente dele, de uma época em que acreditavam que o amor poderia superar qualquer obstáculo. Seus cabelos loiros estavam soltos, caindo sobre seus ombros em ondas desordenadas, e seu rosto estava limpo de maquiagem, mostrando os anos que haviam passado e as marcas que deixaram.
O susto em seus olhos foi imediato e profundo; ela nunca o vira daquela maneira: olhar sombrio e selvagem, a barba de dois dias escurecendo seu queixo, o paletó caro amarrotado como se tivesse dormido com ele, o cheiro distinto de uísque caro misturado com algo mais primitivo; desespero.
— Ian...? — sua voz saiu como um sopro, trêmula e incrédula. — O que você está fazendo aqui a essa hora?
— Precisamos conversar — ele respondeu, suas palavras saindo curtas e afiadas como lâminas.
Sem esperar por um convite, ele cruzou o corredor e empurrou a porta suavemente, entrando no apartamento que outrora conhecera tão bem.
Carolina recuou um passo instintivo, seus dedos apertando o tecido do robe como se fosse uma âncora.
— Ian, eu sinto muito pelo Nicolau. Eu... eu queria ter ido ao enterro, mas...
— Poupe suas desculpas vazias. — ele cortou, sua voz gelada como o mármore do saguão. — Não vim aqui por condolências.
Ela engoliu em seco, seu olhar fugindo do dele para pousar brevemente no aparador da sala. Lá, uma garrafa de vinho tinto já estava aberta, uma única taça usada repousava ao lado, o líquido rubro escurecendo no fundo. Ian seguiu seu olhar e algo em seu rosto se contraiu; era uma cena íntima, solitária, e por algum motivo isso o enfureceu ainda mais.
— Ian, não... — ela começou, alarmada, quando o viu se aproximar do aparador e pegar a garrafa. — Essa garrafa...
Mas ele já havia levado o gargalo à boca, bebendo um gole longo e amargo que lhe arranhou a garganta com sua aspereza. O vinho era barato, ácido; completamente diferente dos vinhos finos que costumavam compartilhar.
— Você sempre teve um gosto duvidoso para vinhos. — ele murmurou, largando a garrafa sobre o balcão de mármore com força suficiente para fazer o líquido saltar. — Combina com você; bonito por fora, amargo por dentro.
— Ian, por favor, me escute... — as lágrimas começaram a brilhar em seus olhos, mas ele não estava em estado de conceder clemência.
— Não, Carolina. Agora você vai me escutar. — Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal, sua voz crescendo em volume e intensidade. — Por que você engravidou de mim e abortou sem me contar?
O ar no apartamento pareceu se solidificar, tornando-se pesado e irrespirável. As palavras pairaram entre eles como uma sentença de morte.
Carolina empalideceu visivelmente, seu rosto perdendo toda cor em questão de segundos.
— O quê...?
Ian riu - um som rouco, doído, que não tinha nada de humor e tudo de desespero.
— Até o fim, ele manipulou tudo. Controlou tudo. Me roubou de novo. Roubou mais um filho que eu nem sabia que poderia ter tido.
O quarto pareceu girar lentamente ao seu redor, as paredes se fechando como uma armadilha. O gosto metálico na boca voltou com força redobrada, agora acompanhado por uma sensação de formigamento em seus lábios. Ele tentou se apoiar no balcão de mármore, mas suas pernas simplesmente falharam, cedendo como se fossem feitas de água.
— Ian? — Carolina correu até ele, seu rosto um retrato de preocupação genuína. — Ian, o que você está sentindo?
Ele tentou formar palavras, mas sua língua parecia pesada demais, dormente. O som que saiu de sua garganta foi rouco, abafado, incompreensível. Antes que pudesse reagir, suas pernas cederam completamente e ele caiu, seu corpo pesado atingindo o chão de madeira com um estrondo surdo que pareceu ecoar pela noite silenciosa.
Carolina se ajoelhou ao seu lado, desesperada. Os olhos de Ian estavam turvos, sem foco, seu rosto estava pálido como mármore. Ao lado deles, a garrafa de vinho rolou devagar, derramando o restante do líquido escuro no tapete branco como um rio de sangue simbólico.
A garrafa adulterada. O rótulo manchado. O cheiro ácido e estranho que agora se notava.
Carolina levou a mão à boca, o horror crescendo em ondas nauseantes.
— Meu Deus... Ian... o vinho... — ela sussurrou, as lágrimas desabando livremente. — Não era para você...
Mas já era tarde.
Ian Moretti jazia imóvel, entre o gosto do vinho e o gosto amargo das mentiras que o destruíam — mais uma vez.

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