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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 209

A primeira coisa que penetrou a consciência de Ian foi um zumbido profundo e persistente, como se enxames de abelhas tivessem se alojado em seu crânio. A segunda sensação foi uma dor latejante nas têmporas, ritmada e implacável. A terceira percepção veio mais lentamente; um silêncio pesado demais, antinatural para um espaço supostamente habitado. Era o tipo de quietude que sussurrava segredos nos ouvidos de quem ousava escutar.

Ele abriu os olhos com dificuldade, suas pálpebras pesadas como se tivessem sido costuradas. A luz do amanhecer filtrada pelas cortinas semiabertas cortava o quarto em faixas diagonais de um dourado pálido, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar parado. O teto era desconhecido; não o teto texturizado de seu apartamento, nem o de madeira rustica da mansão Moretti. O lençol sob seu corpo era de um algodão caro, mas de um padrão floral que ele nunca escolheria. E então veio o perfume; doce demais, artificial, com notas de jasmim e algo mais medicinal que pairou no ar como um fantasma sensorial.

Ele se ergueu com um esforço que fez cada músculo protestar. Sua garganta estava seca como papelão, seu corpo pesado como se tivesse sido preenchido com chumbo. Cada movimento trazia flashes confusos e desconexos: a discussão acalorada com Alexander no bar, o uísque amargo, o gosto metálico do vinho, o rosto de Carolina...

Carolina.

O nome o atingiu com a força de um soco no estômago, trazendo consigo uma onda de náusea e raiva.

Seus olhos percorreram o quarto lentamente, reconhecendo os detalhes que confirmavam seus temores - estava no quarto dela. A garrafa de vinho vazia repousava sobre o criado-mudo de mármore como uma evidência acusatória, duas taças ao lado, uma delas ainda manchada com o vestígio vermelho de batom que ele reconheceu. O estômago se revirou violentamente.

Levou a mão ao rosto e percebeu com crescente alarme que vários botões de sua camisa estavam abertos, revelando seu peito, seu paletó jogado no chão em uma pilha desleixada. A confusão inicial se transformou em uma raiva fria e afiada. Ele se levantou de um salto, seu corpo respondendo ao comando antes que sua mente pudesse processar completamente as consequências.

— Carolina! — sua voz ecoou pelo apartamento, rouca da noite de excessos e carregada de uma fúria que tremia em cada sílaba.

Ela apareceu na porta momentos depois, envolta em uma camisola de seda que deixava pouco à imaginação, seu cabelo cuidadosamente desgrenhado como se tivesse sido arrumado para parecer casual. Seu rosto estava montado em uma máscara de preocupação calma que não alcançou seus olhos.

— Você devia estar descansando. Passou mal ontem à noite, Ian. — O tom dela era melífluo, quase maternal, mas havia uma nota falsa por baixo que fez seus instintos se acenderem.

—O que diabos aconteceu aqui? — ele perguntou, cada palavra saindo como um estilhaço de gelo. — Que porra você fez comigo?

Carolina piscou, uma expressão de ofensa perfeitamente coreografada cruzando seu rosto.

—Fiz? Eu te salvei. Você apareceu aqui, completamente transtornado. Bebeu minha garrafa de vinho inteira e desmaiou. Eu só te trouxe para a cama e cuidei de você.

Ian a observou em silêncio, seus olhos escaneando cada microexpressão em seu rosto. Seu olhar não tremia - era quase convincente, se ele não sentisse aquele nó gelado de intuição no peito.

—Por que eu estaria aqui, Carolina? — ele perguntou, fechando a distância entre eles. — Por que, de todos os lugares que eu poderia ir, eu pararia em sua cama?

Ela sorriu, um gesto lento e calculado que não alcançou seus olhos.

—Porque no fundo, você ainda confia em mim. Sempre confiou, mesmo quando fingia que não.

Ele riu, um som curto e amargo que ecoou no quarto silencioso.

—Eu confiei em você uma vez. E descobri que foi o maior erro da minha vida.

O rosto dela endureceu, a máscara de doçura se desfazendo para revelar a raiva por baixo.

—Você fala isso, mas sempre volta. Sempre.

Ian se aproximou até que apenas centímetros os separassem, seu olhar tão gelado que quase pareceu baixar a temperatura do quarto.

Ele respirou fundo,recuando um passo para criar espaço entre eles.

— Que bom — disse, sua voz seca como os ossos no deserto. — Porque se tivesse sido diferente, eu não teria garantias de que sairia vivo daqui.

Ele se virou, pegando seu paletó do chão e sacudindo-o com um movimento brusco antes de vesti-lo. Seus dedos encontraram o celular no bolso, e ele verificou rapidamente as notificações antes de guardá-lo, ignorando o mal-estar persistente que pulsava em seu corpo como um segundo coração.

Carolina deu um passo à frente, sua máscara de compostura rachando para revelar a aflição por baixo.

—Pra onde você vai?

— Resolver o que realmente importa — respondeu ele, sua mão já na maçaneta da porta. — O meu filho que teve a chance de vir ao mundo.

Quando a porta se fechou atrás dele, Carolina ficou parada no meio do quarto, seu corpo imóvel, seu olhar perdido no espaço vazio que ele deixara para trás. Então, tão baixo que quase não era um som, ela sussurrou para o silêncio vazio, suas palavras carregadas de uma mistura venenosa de amor e ódio:

— Você pode achar que me odeia, Ian… mas eu vou te provar que você ainda é meu. De uma maneira que você nunca poderá negar.

Do lado de fora, Ian atravessou o corredor com passos largos e determinados, suas mãos cerradas tão firmemente que suas unhas deixaram marcas crescentes em suas palmas. A raiva o mantinha ereto, mas algo dentro dele doía com uma intensidade avassaladora: a certeza crescente de que tudo em sua vida estava girando fora de controle, como um carrossel desgovernado.

E no fundo de sua mente, persistente como uma melodia obsessiva, uma imagem o assombrava; o rosto de Olívia, seus olhos cheios de dor e desapontamento. Ele não sabia, não podia saber, que naquele exato momento ela estava olhando para uma foto que mudaria tudo entre eles; uma mensagem que ele ainda não sabia que ela havia recebido, um golpe que atingiria o pouco que restava de seu mundo já abalado.

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