O espelho do hall refletia um homem que Ian mal reconhecia como si mesmo. Seus olhos pareciam fundos e sombrios, como janelas abertas para uma alma em ruínas. Seu maxilar estava tão tensionado que ele podia sentir os músculos queimando de esforço, e o terno impecável de alfaiataria - que costumava ser sua armadura contra o mundo - servia agora apenas para disfarçar o caos interno que lentamente o consumia. Ele apertou o nó da gravata com uma força desnecessária, talvez na esperança infantil de que o gesto pudesse conter o tremor quase imperceptível em suas mãos, ou talvez para se convencer de que ainda mantinha algum controle sobre a vida que desmoronava ao seu redor.
As memórias da noite anterior chegavam em fragmentos desconexos e dolorosos, como cacos de vidro que se recusavam a se encaixar. O vinho barato e amargo. A garrafa tombada. O gosto metálico persistente em sua língua. E Carolina - sempre Carolina, seu rosto aparecendo em sua mente como um fantasma de um passado que se recusava a morrer. O nome dela agora soava como veneno em seus pensamentos, uma toxina que envenenava tudo que tocava.
"Não importa," ele murmurou para seu reflexo pálido, jogando as chaves do carro no bolso com um movimento brusco antes de sair de casa. Carolina não seria mais um problema em sua vida, ele se prometeu. Não depois da última mentira descarada, da última manipulação calculada. Havia linhas que nem ela poderia cruzar impunemente.
No elevador em descida, ele observou seu próprio reflexo distorcido nas portas de aço polido. "Você está se despedaçando," pensou, a voz em sua mente soando estranhamente calma diante da constatação. "Mas vai continuar fingindo que não. É isso que os Moretti fazem melhor - fingimos até que a mentira se torna verdade."
O escritório das Indústrias Moretti parecia mais frio e hostil do que nunca quando ele chegou. O som de seus passos solitários ecoava pelo corredor polido como tambores fúnebres anunciando sua chegada. Quando passou pela mesa da assistente - vazia, intocada - algo o atingiu com a força repentina de um soco no estômago.
O perfume suave e familiar ainda parecia pairar no ar, o mesmo que costumava sentir quando Olívia se aproximava para entregar relatórios com aquele meio sorriso que sempre o desarmava. Ela sempre deixava uma caneta torta sobre a pasta, uma pequena mania que outrora o irritava profundamente e que agora... agora doía como a lembrança de algo precioso perdido.
A assistente temporária, uma jovem que mal o olhava nos olhos e tratava tudo com uma eficiência clínica e desprovida de personalidade, havia deixado o espaço organizado demais. Estéril. Impessoal. Sem vida.
Ian parou por um momento, encarando aquela mesa vazia como se pudesse conjurar o passado apenas pela força da vontade. Por que diabos estava pensando nisso? Por que ainda importava se ela voltaria ou não? Ela mentira para ele, escondera seu próprio filho...
— Maldição... — murmurou para si mesmo, empurrando a porta de seu escritório com mais força do que o necessário.
Vitório já o esperava, sentado em uma das cadeiras de couro diante da mesa imponente. O advogado levantou-se imediatamente ao vê-lo entrar, mas Ian percebeu algo diferente em sua postura; um olhar pesado, cansado, quase paternal que nunca notara antes.
— Ian — cumprimentou, com uma seriedade solene que não deixava espaço para amenidades ou conversas fiadas. — Precisamos conversar.
— Se for sobre Carolina — Ian respondeu, sua voz deliberadamente seca e impessoal — poupe-se o esforço. Ela não tem mais espaço nem no rodapé das minhas prioridades. Ela me confirmou que recebia pensão do meu avô. Corte-a.
Vitório franziu levemente o cenho, mas não comentou sobre a interrupção. Ian sabia que aquilo era um tanto pessoal para ele, aliás, ele a havia a tomado magnificamente como amante há alguns meses.
—Eu vim tratar de outros assuntos. — Ele abriu a pasta de couro marrom que sempre carregava, seus movimentos meticulosos e precisos. — Está tudo encaminhado: a documentação da guarda compartilhada e a estrutura jurídica da sucessão, incluindo os direitos hereditários de Léo.
Ian recostou-se na cadeira de couro, tentando projetar uma imagem de desinteresse que estava longe de sentir.
—E as visitas? Como ficam as visitas?
— A senhora Olívia concordou com o arranjo proposto — respondeu Vitório, escolhendo cada palavra com o cuidado de quem pisa em um campo minado —, desde que todas as visitas sejam previamente acordadas e supervisionadas inicialmente.
Ian arqueou as sobrancelhas, uma centelha de irritação acendendo em seus olhos.
—E quem decidiu essas condições?
— Ela — a resposta foi simples, mas carregada de significado.
O silêncio que se seguiu foi espesso o suficiente para ser cortado com uma faca. Ian apoiou os cotovelos na mesa de mogno, seu olhar fixando o advogado com intensidade renovada.
—Eu mesmo vou falar com ela sobre isso. Algumas coisas precisam ser ditas pessoalmente.
Vitório suspirou, removendo os óculos e pousando-os sobre a pasta aberta com um gesto que denotava cansaço.
—Ela... deixou absolutamente claro que não quer falar com você. Sob nenhuma circunstância.
A frase caiu entre eles como uma lâmina afiada, cortando o ar com precisão cirúrgica. Ian riu - um som rouco, incrédulo, que ecoou estranhamente no escritório silencioso.
—Senhora Moretti... eu... não esperava sua visita.
— É Belmonte — ela interrompeu, sua voz mais baixa do que o habitual, mas incrivelmente firme. — Nunca fui uma Moretti.
Os olhos de Ian se estreitaram, tentando decifrar o código por trás daquela afirmação. O silêncio que se instalou entre eles era mais eloquente que qualquer discurso poderia ser. Ele tentou ler algo naquele rosto que já conhecia tão intimamente - cada curva, cada expressão, cada nuance - mas encontrou apenas uma distância intransponível, como se ela tivesse construído um muro ao redor de si mesma durante a noite.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, cada sílaba sainda carregada de uma tensão elétrica que parecia preencher o espaço entre eles.
Olívia o encarou, sem piscar, sua postura desafiadoramente firme.
—Terminando o que começamos. De uma vez por todas.
Vitório, visivelmente desconfortável com a intensidade do momento, pegou sua pasta e se afastou discretamente, como um homem que percebe que está no olho de uma tempestade prestes a se desencadear.
— Vou deixá-los a sós — murmurou, passando por Olívia com um aceno respeitoso antes de sair e fechar a porta suavemente atrás de si.
Ian se levantou, caminhando lentamente em sua direção, cada passo medido e cuidadoso, como se se aproximasse de um animal assustado.
—Então agora você escolhe quando quer me ver? É assim que vai funcionar?
— Não — respondeu Olívia, erguendo o queixo em um gesto de desafio que ele nunca vira nela antes. — Eu escolho quando quero ser ouvida. Há uma diferença.
Ele parou diante dela, perto o bastante para sentir o eco familiar de seu perfume - e ao mesmo tempo, consciente do abismo intransponível que agora os separava.

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