A manhã havia começado com um silêncio incômodo que pesava sobre a casa como um cobertor úmido; não era a calma tranquila do amanhecer, mas a quietude pesada que precede a tempestade. O céu sobre o bairro mantinha-se num cinza uniforme, e o som distante dos carros na avenida chegava como ecos abafados de um mundo que continuava girando, indiferente ao universo particular de Olívia que permanecia paralisado entre a raiva e uma dor profunda que ela ainda não conseguia nomear completamente.
Ela ainda estava de camisola, o cabelo preso num coque desleixado que testemunhava uma noite de insônia, quando a campainha tocou com uma insistência que pareceu vibrar através de seus ossos. Por um momento de pura negação, ela considerou não atender, deixando que quem quer que fosse desistisse e a deixasse em sua solidão autoimposta. Mas quando finalmente abriu a porta e encontrou Vitório parado no batente, o estômago dela contraiu-se violentamente.
— Bom dia, senhora Belmonte — cumprimentou ele, sua polidez excessiva soando como um presságio sinistro para o que trazia consigo.
Na mão, ele segurava uma pasta de couro marrom — a mesma que Nicolau sempre usava, com o mesmo desgaste característico no canto inferior direito. Foi esse detalhe aparentemente insignificante que fez o coração de Olívia gelar instantaneamente.
— Eu apenas vim entregar alguns documentos — explicou ele, estendendo o maço de papéis com um gesto quase cerimonial. — São referentes à herança deixada para o menino Léo, conforme estipulado no testamento do senhor Nicolau.
— Herança? — ela repetiu, um riso nervoso e sem humor escapando de seus lábios. — Ele tem seis anos, senhor Vitório. Não entende o conceito de dinheiro, muito menos de heranças. O que exatamente o senhor está dizendo?
Vitório hesitou visivelmente, seus olhos fugindo dos dela para se fixarem em algum ponto sobre seu ombro.
—Apenas cumpro a vontade expressa de Nicolau. Há também documentos sobre a pensão alimentícia retroativa... e o acordo preliminar para a guarda compartilhada.
As palavras atingiram Olívia com a força de golpes físicos. Pensão. Herança. Guarda compartilhada. Cada uma delas era um lembrete cruel de que Ian estava sistematicamente transformando o amor que compartilharam — e o filho que conceberam juntos — em cláusulas contratuais, cifras bancárias e termos legais estéreis.
— Ele... ele mandou você trazer isso? — perguntou ela, sua voz embargada pela emoção que lutava para conter.
Vitório engoliu em seco, seu desconforto tornando-se palpável.
—Eu apenas sigo ordens, senhora Belmonte. É meu trabalho.
Ela ficou parada na porta, a pasta agora em suas mãos sentindo-se incrivelmente pesada, seu coração batendo com tanta força que ela podia senti-lo pulsando em suas têmporas.
—Pois então diga ao seu chefe — disse, sua voz adquirindo uma firmeza recém-descoberta que a surpreendeu — que se ele insiste em me tratar como uma funcionária ou uma adversária contratual, eu vou responder na mesma moeda.
E sem pensar nas consequências, sem sequer respirar fundo para se preparar, sem trocar de roupa ou sequer escovar o cabelo adequadamente, Olívia vestiu o primeiro casaco que encontrou no cabide, agarrou a pasta como se fosse uma arma e saiu de casa com uma determinação feroz que a consumia por completo.
O elevador da sede das Empresas Moretti parecia menor e mais opressivo do que ela lembrava. As paredes de metal polido refletiam seu rosto — cansado, pálido, mas marcado por uma resolução que ela não sentia há muito tempo. Cada número que acendia no painel de controle era como a contagem regressiva para um confronto que ela sabia ser inevitável, mas que agora anseava enfrentar.
Quando as portas deslizantes finalmente se abriram no andar executivo, os olhares curiosos e surpresos dos funcionários se voltaram para ela como um só. Ninguém ousou impedir sua passagem — havia algo em sua postura, em sua expressão, que comunicava uma urgência indesafiável. Olívia atravessou o corredor como um vendaval humano, seus passos ecoando no mármore polido com uma cadência que parecia marcar o ritmo de seu coração enfurecido.
E quando ela finalmente escancarou a porta do escritório principal sem bater, Ian já estava lá — impecável em seu terno cinza-escuro, seu olhar gelado e impenetrável, o rei incontestável do império sentado em seu trono de mogno e aço.
— Que surpresa inesperada — ele murmurou, nem mesmo erguendo completamente os olhos dos documentos sobre sua mesa. — Achei que preferiria continuar se comunicando através de intermediários.
Olívia jogou a pasta sobre a mesa com força suficiente para fazer os objetos sobre ela tremerem. O som seco do couro batendo na madeira ecoou pelo silencioso escritório.
—Não vim aqui para negociar, Ian. Vim para devolver isso.
—O que você quis dizer exatamente com isso?
Olívia percebeu imediatamente que dissera mais do que pretendia — que deixara escapar algo que não deveria. Mas em vez de recuar, de tentar corrigir o erro, ela respirou fundo e jogou outra pasta, desta vez uma simples pasta de papelão, sobre a mesa com um gesto dramático.
— Isto — disse, sua voz recuperando a firmeza anterior. — É o meu pedido formal de demissão. Precisa apenas da sua assinatura no rodapé. Assim posso me vincular a outro trabalho e me livrar de vez desta empresa e de tudo que ela representa.
Ian soltou uma risada curta, quase sem som, que soou mais como um rosnado de desdém.
—Com o valor da pensão sozinha, você não vai precisar trabalhar pelo resto da vida.
Foi a gota d'água. Os olhos de Olívia brilharam com uma raiva tão pura e intensa que quase pareciam emitir luz própria.
—Quando você vai entender, Ian, que eu não quero um único centavo seu? Que nenhuma quantia de dinheiro pode pagar o que você fez?
Ian deu a volta na mesa, aproximando-se dela com passos lentos e deliberados. Os dois agora estavam frente a frente — tão próximos que ela podia sentir o calor de seu corpo, suas respirações quase se entrelaçando no ar carregado entre eles, a tensão tornando-se quase palpável.
Ele a encarou com uma intensidade que fez algo dentro dela estremecer.
—Sabe o que eu realmente acho? — disse, sua voz baixa, rouca, carregada de uma emoção crua que ele não se dava ao trabalho de disfarçar. — Acho que você se esconde atrás dessa raiva performática porque tem medo do que ainda sente por mim. Se esconde atrás desses papéis e desses gestos dramáticos para não ter que admitir que... — ele se aproximou ainda mais. — Que se eu quisesse, Olívia, eu teria você aqui. Agora. Em cima desta mesa. Como costumávamos fazer. De novo.

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