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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 223

Quando Ian saiu do quarto, o corpo pesado como chumbo e a mente um turbilhão de verdades dolorosas que a terapia havia desenterrado, ele encontrou Matheus parado no corredor escuro. Não era sua postura habitual, os ombros estavam ligeiramente curvados, as mãos enfiadas profundamente nos bolsos do casaco, como se tentasse conter sua própria apreensão. A luz suave do abajur no final do corredor pintava sombras angulares em seu rosto, acentuando a seriedade de sua expressão. Seus olhos, normalmente tão pragmáticos, estavam carregados de uma preocupação que transcendia o profissional, era o olhar de um amigo testemunhando o abismo se abrindo sob os pés de alguém que amava.

— Tem algo que você precisa ver, Ian — a voz de Matheus era um sussurro quase reverencial, respeitando não apenas a quietude da mansão adormecida, mas a fragilidade palpável que Ian carregava após a sessão.

Ian esfregou o rosto com as mãos, os dedos pressionando as pálpebras fechadas. A fadiga era uma névoa espessa em seus sentidos.

—Agora? — a pergunta saiu mais como um lamento do que uma recusa. — Já são quase onze horas, Matheus. Minha cabeça... está um campo de batalha.

Matheus não se moveu, sua solidariedade silenciosa mais eloquente do que qualquer palavra. Ele assentiu lentamente, sem quebrar o contato visual, e estendeu o celular como quem entrega uma sentença.

— Preciso que você veja isso.

Ian pegou o aparelho com movimentos lentos, quase hesitantes. E então, seus olhos focaram na tela. E o mundo desabou.

Era Olívia. Capturada em um momento roubado, sob a luz crua e sem piedade do dia. Ela estava parada em uma calçada que ele não reconhecia, envolta na aura de solidão determinada que sempre a caracterizou nos momentos mais difíceis. Ao seu lado, malas, não as elegantes que ele lhe dera quando ela se mudou pra mansão, mas malas práticas, resistentes, feitas para um novo começo, não para uma viagem de luxo. À sua frente, a porta anônima de um prédio de apartamentos que não constava em seus registros, em um bairro que seu motorista nunca precisara visitar. Seu rosto, embora marcado por uma resolução férrea, carregava nas sombras sob os olhos e na ligeira curvatura de seus ombros o peso de uma dor que ele, Ian, havia meticulosamente colocado ali.

Mas foi a legenda, publicada em um fórum profissional discreto, que foi o golpe de misericórdia, a faca que encontrou o espaço entre suas costelas e torceu:

“Disponível para entrevistas de emprego. Buscando oportunidades longe do centro. Preciso recomeçar. Do zero.”

Do zero. As palavras ecoaram na mente de Ian como um sino fúnebre. Ela não estava apenas se mudando; estava se desfazendo de tudo, apagando-o de sua história. Ela queria um mundo onde "Moretti" fosse apenas uma palavra em um jornal de negócios, não o sobrenome que amarrava seu filho a um legado de dor.

Ian sentiu uma vertigem súbita. O chão de mármore sob seus pés pareceu ceder, o corredor escuro girou em um redemoinho de sombras familiares que de repente pareciam hostis. O ar foi sugado de seus pulmões, deixando-o com uma pontada de dor no peito.

Matheus, observando a palidez que tomou conta do rosto de Ian, completou com uma voz grave, cada palavra pesada como uma lápide:

—Ela não está só ameaçando, Ian. Estive monitorando os movimentos dela discretamente, como você pediu depois... bem, depois do último incidente. Ela já assinou o contrato de locação. Pagou o adiantamento. Está realmente indo embora da cidade. Desta vez, é para valer.

Ian ficou imóvel. Não a imobilidade controlada do negociador, mas o congelamento de um animal diante dos faróis de um caminhão prestes a atingi-lo. O corredor, a mansão silenciosa, a própria cidade lá fora - tudo parou. A máscara de controle inabalável que ele lutou tanto para manter durante a sessão de terapia, que havia rachado sob o olhar compassivo do psicólogo, desintegrou-se completamente. E então, surgiu do mais profundo de seu ser, uma emoção crua e há muito suprimida:

E então, ele partiu. Não com a elegância calculada do magnata que entra em uma sala de reuniões, mas com a urgência desesperada e desengonçada de um homem que, no fundo do poço, finalmente entendera a mais simples, complexa e vital de todas as verdades:

O amor que ele tão feroz e estupidamente destruíra - com seu orgulho, seu medo, sua incapacidade de ser vulnerável - era a única coisa neste vasto, frio e vazio mundo que possuía o poder redentor de salvá-lo de si mesmo.

Seus passos ecoaram nas escadarias de mármore, cada batida um mantra de arrependimento. Ao chegar ao saguão, ele não pegou o casaco. Não chamou o motorista. Ele simplesmente seguiu em frente, para a noite fria, o celular já em sua mão, seus dedos tremendo ligeiramente enquanto discava o número que era ao mesmo tempo um farol e um precipício.

O telefone tocou. Uma vez, duas, uma eternidade. E então, uma conexão. Um silêncio do outro lado da linha, mais eloquente do que qualquer grito.

A voz de Ian, quando finalmente saiu, não era a de Ian Moretti. Era a de um homem naufragado, agarrando-se à última tábua de salvação.

— Olívia... — ele respirou fundo, o ar noturno queimando seus pulmões. — Onde quer que você esteja... o que quer que esteja fazendo... preciso que venha aqui. Preciso.

E do outro lado da linha, o silêncio persistia, carregado do peso de todo um futuro por decidir.

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