O corredor que levava ao escritório de Nicolau parecia mais comprido do que o normal. Ian caminhava ao lado dele, mas sem trocar uma palavra. Cada passo ecoava no mármore como se estivesse marcando tempo para algo inevitável.
Ao entrar, Nicolau fechou a porta devagar, sem pressa, mas com firmeza. Ficou de pé atrás da própria mesa, como um juiz, prestes a dar sua sentença.
O ambiente estava silencioso, exceto pelo tique-taque grave do relógio da parede.
Ian cruzou os braços, esperando.
— Isso… — Nicolau começou, e fez uma pausa proposital, como se a escolha das palavras fosse parte da estratégia — …não é o tipo de situação que deixo passar sem entender a fundo.
— Situação? — Ian rebateu, o tom contido, mas carregado de desafio. — Se está falando de Benjamin provocando Olivia… não tem nada para entender.
— Eu certamente preciso entender essa história. — Nicolau insiste, a voz firme. — Porque se houver alguma verdade nisso... As coisas mudam. Muito.
Nicolau inclinou o corpo para frente, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Uma criança perguntando a um homem se ele é o pai… Não é só provocação. É combustível. Para brigas. Para divisões. E, às vezes… — ele respirou fundo — …para verdades que estavam esperando para serem expostas.
O maxilar de Ian endureceu.
— Não há verdade nenhuma. — Ian respondeu, firme.
Mas por dentro, as palavras de Benjamin ainda ressoavam. O rosto de Léo... A idade dele... Tudo isso começava a se alinhar de forma incômoda.
— Então garanta isso. — Nicolau o encarou, cortante.
— Eu conheço a Olivia. — Ian rebateu seu avô, ao ver toda a desconfiança em seu rosto.
— Conhece o suficiente? — Nicolau disparou. A pergunta ficou no ar, pesada, intencional.
Ian não respondeu de imediato. Não porque tivesse dúvida, mas porque a própria pergunta o irritava mais do que deveria.
— O que está insinuando? — ele devolveu, a voz mais baixa.
Nicolau deu um meio sorriso.
— Não insinuo. Constato. Se houver qualquer ligação entre o menino e Benjamin… isso muda tudo! Porque uma herança como a nossa não sobrevive com conflitos escancarados.
Ian deu um passo em direção à mesa.
— Não existe ligação nenhuma.
— Então prove. — Nicolau se recostou na cadeira, como quem já tinha o próximo movimento planejado. — Não para mim. Para si mesmo.
O silêncio que se seguiu não foi de concordância. Foi de guerra velada. Ian sabia que o avô sempre deixava uma semente plantada e aquela começava a germinar, mesmo contra a sua vontade.
— Estamos entendidos? — Nicolau concluiu, não como pergunta, mas como ordem.
Ian assentiu uma única vez, virando-se para sair, mas antes, Nicolau o chamou outra vez:
— Por que Olívia, Ian?
Ian se vira para encarar o avô e respirando fundo, ele diz:
— Porque desde a primeira vez que a vi, eu sabia que ela era para mim.
— Espero que saiba que há uma tempestade que você está começando agora. — Nicolau responde quase no mesmo segundo.
— Eu sei. Mas mantenho minha escolha. — Ian rebateu, firme e seguro.
Mas logo em seguida, saiu em passos rápidos daquele escritório. Temia que se Nicolau olhasse profundamente nos seus olhos, pudesse ver a sua alma.
Quando Olivia voltou para o quarto de Leo, a casa parecia respirar sozinha. A verdade era que Olívia não era nem um pouco tão forte como forçava sempre a demonstrar. Por isso, enquanto subia as escadas sentia sua voz falhar na garganta, estava tremendo de medo.
Mas ela havia aprendido a viver com a dor, a construir mosaicos com seu coração partido.
Leu mais uma vez, tentando encontrar alguma pista no tom. Mas não havia nada. Era uma sentença. Um aviso.
Foi nesse momento que ouviu.
Toque. Toque.
Três batidas secas, próximas demais para serem de alguém passando pelo corredor.
O ar pareceu sumir de dentro do quarto.
Olívia sentiu o suor frio escorrer pela nuca, molhando a base dos cabelos. Seu coração acelerou num ritmo caótico, como se quisesse atravessar as costelas.
E se fosse quem havia mandado a mensagem?
E se já estivesse ali, esperando… observando?
O som se repetiu. Mais lento agora.
Ela respirou fundo, tentando manter o controle, mas as mãos tremiam. Olhou para Léo, dormindo, e aquela visão lhe deu força para não recuar.
Cada passo até a porta parecia mais longo que o anterior. O carpete abafava o som, mas ela ouvia o próprio sangue pulsando nos ouvidos.
Quando a mão alcançou a maçaneta, percebeu que estava gelada, como se tivesse sido deixada no gelo.
Por um segundo, pensou em voltar. Em esperar até que a pessoa fosse embora.
Mas não.
Com a respiração presa, Olívia girou devagar a maçaneta… A porta começou a se abrir, rangendo levemente.
E então...

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