O barulho ecoou pela cozinha silenciosa como um estalo de ossos quebrando — seco, agudo, profundamente errado naquele espaço que deveria ser seguro. Ian levantou-se num movimento fluido e mortal, seu corpo todo tensão e prontidão. Olívia sentiu seu próprio coração acelerar, não pelo susto em si, mas pela transformação instantânea em Ian. Ele não parecia um homem assustado; parecia um predador pronto para atacar.
Ele se aproximou da despensa com passos calculados. Olívia apertou a borda da mesa de carvalho até os dedos doerem, seu estômago ainda sensível revirando-se em uma dança de náusea e apreensão.
Quando Ian abriu a porta de um golpe, revelando a escuridão além, seu corpo bloqueou momentaneamente a visão. Então ele congelou.
— Dona Alberta? — a voz dele perdeu um pouco da ferocidade, mas manteve-se cortante.
A figura que emergiu da penumbra era pequena e curvada, envolta em um roupão simples. Dona Alberta ergueu o rosto, seus olhos cansados e profundos piscando sob a luz da cozinha. Em suas mãos trêmulas, um pano de prato estava torcido como uma corda.
— Perdão, senhor Ian… — sua voz era um fio de som, envergonhado. — Eu… juro que pensei ter ouvido a senhora Helena descendo. Só queria garantir que todos estavam bem. Que ninguém precisava de nada.
Olívia deixou escapar o ar que não sabia estar segurando, uma mão instintivamente indo ao peito. O alívio foi uma onda quente, mas passageira.
Ian recuou um passo, seus ombros relaxando ligeiramente, mas seus olhos permaneceram alertas.
—A senhora me assustou. Não espero por sombras a esta hora.
Ela abaixou a cabeça em um gesto de submissão que parecia praticado há décadas.
—Isso jamais foi minha intenção, senhor. Jamais.
Quando ela ergueu o olhar novamente, seus olhos escuros encontraram os de Olívia. E então, algo estranho aconteceu. Um sorriso se formou em seus lábios finos — um sorriso que deveria ser simpático, reconfortante. Mas não chegava aos olhos. Havia uma qualidade calculada nele, uma frieza que não combinava com a expressão humilde. Seu olhar permaneceu em Olívia por um segundo a mais do que o necessário, escaneando, avaliando, medindo. Foi rápido, quase imperceptível, mas o suficiente para fazer o estômago de Olívia se contrair novamente, desta vez com um frio que não tinha nada a ver com náusea.
— Peço desculpas, de verdade — Dona Alberta disse, sua voz suave como veludo. — Vou… vou voltar para o meu quarto. Não quero atrapalhar. Descansem, por favor.
E com um último aceno de cabeça,ela desapareceu pela porta dos fundos, sua silhueta se fundindo com as sombras do corredor de serviço.
Quando a porta se fechou com um clique suave, o silêncio que tomou a cozinha foi diferente do anterior.
Olívia piscou algumas vezes, tentando processar o frio que ainda a percorria.
—Ian… — ela começou, sua voz soando estranha em seus próprios ouvidos. — Quem é ela, realmente?
Ian puxou sua cadeira, sentando-se com um cansaço que parecia ir até seus ossos. Ele passou uma mão pelo rosto, e quando a retirou, seus olhos estavam sombrios, marcados por uma fadiga que ia além do físico.
— Dona Alberta? — ele repetiu, como se o nome por si mesmo carregasse peso. — Ela trabalha aqui desde antes de eu nascer. Uma das funcionárias mais antigas da mansão. Cuida da limpeza dos aposentos privados, coisas assim.
— Mas… — Olívia hesitou, seus instintos gritando. — Por que ela estava ali? Escondida na despensa, a esta hora da noite?
Ian deu de ombros, mas o gesto era tenso, e seu cenho permanecia franzido.
—Ela sempre foi assim. Silenciosa. Um fantasma doméstico. Cuida de tudo, aparece do nada. Discreta demais, talvez. — Ele fez uma pausa, seus dedos tamborilando na mesa. — Mas sempre foi leal à casa.
O silêncio que se seguiu foi espesso, desconfortável. A presença de Dona Alberta, mesmo ausente, agora pairava entre eles como uma névoa tóxica.
Mas a sombra maior, a que havia trazido Olívia até ali, não podia ser ignorada por mais tempo. O assunto não resolvido voltou à tona como uma maré, arrastando consigo qualquer sensação de segurança remanescente.
Nicolau.
A morte de Diana.
E Benjamin.
Ian passou as mãos pelo rosto novamente, um gesto de um homem tentando, e falhando, em afastar demônios.
—Não quero acreditar — ele confessou, sua voz rouca, quebrada. — Não é… não é possível que tudo que eu pensei que sabia sobre minha família seja uma mentira.
Olívia sentiu uma dor aguda no peito, uma pontada de empatia por aquele homem despedaçado diante dela. Ele parecia ter encolhido, suas defesas rachadas, revelando o menino ferido.
— Ian… — ela tentou, mas as palavras falharam. Que conforto se poderia oferecer diante de uma traição tão monumental?
— Mas as peças… — ele continuou, falando mais para si mesmo do que para ela, seus olhos fixos em um ponto distante na mesa. — Elas começam a se encaixar de uma forma horrível. Pequenos detalhes que ignorei… conversas que eram abruptamente interrompidas quando eu entrava na sala… os relatórios originais da polícia que sumiram dos arquivos… as visitas frequentes do detetive naquela época, sempre à noite, sempre em segredo…
Ele fez uma pausa, e um riso seco, amargo e sem humor escapou de seus lábios.
—E eu, o tolo, achando que meu avô era apenas controlador. Um homem rígido, mas que mantinha a família unida. — Seu olhar encontrou o de Olívia, e a dor crua neles era quase insuportável de se ver. — Ele me fez carregar o peso da culpa pela morte da minha mãe, Olívia. Alimentou isso em mim. E eu carreguei. Como um bom filho.
Olívia se inclinou para frente através da mesa, seu instinto a impulsionando a diminuir a distância entre eles.
— Ian? — Olívia perguntou, o incômodo em sua garganta se transformando em um nó de pânico. — Ian, o que foi? O que há?
Lentamente, como se movendo através de um líquido espesso, ele virou o celular para ela.
E o mundo de Olívia desabou.
O visor brilhante mostrava uma foto. Enviada de um número desconhecido.
Era uma foto da mansão. Desta própria cozinha.
Deles dois — sentados exatamente onde estavam agora, seus corpos inclinados um em direção ao outro sobre a mesa, capturados em um momento íntimo de conversa séria.
A imagem fora tirada de dentro da casa. De algum lugar atrás deles, nas sombras que eles julgavam vazias.
E tinha sido tirada recentemente.
Muito recentemente.
Minutos,talvez segundos atrás.
Olívia sentiu cada pelo de seu corpo se eriçar, uma onda de terror puro e primitivo lavando sobre ela.
— Isso… — sua voz falhou, reduzida a um sussurro aterrorizado. — Isso foi agora? Aqui?
Ian não respondeu. Não precisava.
Porque uma segunda mensagem chegou, sobrepondo-se à imagem. Uma frase curta. Fria. Cirúrgica.
“Vocês dois falam demais.”
Olívia levou as mãos trêmulas à boca.
— Ian… — ela sussurrou, seu olhar selvagem varrendo a cozinha escura, cada sombra agora uma ameaça em potencial. — Tem alguém aqui dentro. Olhando para a gente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido