A pergunta de Matheus ainda pairava no ar como um fantasma, impossível de ignorar.
Você voltou?
Duas palavras simples que carregavam o peso de todo um futuro não escrito.
Olívia sentiu cada músculo de seu corpo se contrair. Estavam todos suspensos em um fio invisível, prestes a se romper. Desta vez, não havia vinho para anestesiar, nem adrenalina para justificar, nem beijos desesperados para confundir o que sentia.
Restava apenas a verdade nua e crua.
E a verdade era...
Ela não sabia.
Sua boca se abriu, mas nenhuma resposta saiu. Apenas o som seco de sua respiração presa ecoou no silêncio tenso.
Matheus ergueu uma sobrancelha, seu rosto um estudo em paciência calculada.
Ian, no entanto, não era paciente. Ele estava à beira do colapso. Seus olhos estavam cravados nela como se ela fosse o único ponto de luz em um universo de escuridão.
— Olívia... por favor — ele murmurou, a voz tão baixa que era quase um movimento dos lábios.
E aquilo foi a gota d'água.
Ela não podia responder. Não quando seu corpo ainda tremia com o eco do perigo. Não quando seu coração ainda ardia com a lembrança de seus toques. Não quando sua mente ainda girava com as revelações sobre Benjamin e a morte de Diana Moretti.
Não quando tudo dentro dela gritava duas verdades igualmente poderosas e contraditórias:
Eu ainda te amo.
Eu ainda tenho medo de você.
— Eu... — ela tentou, mas as palavras morreram em sua garganta.
Matheus, percebendo a tempestade que havia desencadeado, foi o primeiro a recuar.
—Tá — ele disse, erguendo as mãos em um gesto de rendição. — Falei demais. Vou deixar vocês... respirarem.
Ele saiu da cozinha, a porta se fechando com um clique suave que soou como o fechamento de um caixão. Deixou para trás apenas eles dois: Olívia e Ian. Sozinhos. Completamente expostos.
O silêncio que se seguiu era um tormento peculiar. Ian já ouvira ameaças de morte, tiros, mentiras e traições ao longo da vida. Mas nada jamais o ferira como aquele silêncio carregado. Porque nele habitava uma resposta — uma resposta que ele temia ouvir.
Quando finalmente encontrou ar em seus pulmões, sua voz saiu rouca e quebrada:
—Você não voltou.
Ela engoliu em seco. Não confirmou. Mas também não negou.
— Ian... — começou, e a dor em sua voz era tão crua que ele quase recuou.
Quase.
Ele deu um passo à frente, fechando a distância entre eles.
—Eu só preciso saber — sua voz carregava o peso de todas as admissões não feitas — se tenho alguma chance. Se ainda existe espaço para mim, para nós... ou se estou lutando sozinho contra fantasmas.
A confissão pairou no ar, trêmula e vulnerável.
Olívia sentiu o chão ceder sob seus pés. A honestidade dele exigia uma honestidade igual.
—Eu não sei — ela respondeu, finalmente. — Não sei mais nada, Ian. Só sei que... amo o Léo. E que... ainda te sinto. Isso é tudo que tenho para te oferecer agora.
Um músculo saltou em sua mandíbula tensa. Ele não esperava aquela resposta. Ele queria algo definitivo, algo que pudesse segurar e controlar. Mas ela lhe dera o que tinha — e era mais honesto do que qualquer promessa vazia.
Ian passou uma mão fatigada pelo cabelo, seu rosto uma batalha entre o desespero e um frágil entendimento.
—"Ainda te sinto" — ele repetiu, como se saboreasse a verdade amarga e doce daquelas palavras.
Ela desviou o olhar imediatamente.
—Não faça isso — sussurrou.
— Não fazer o quê?
—Me olhar assim.
Ele deu um passo. Depois outro. E mais um, até que Olívia recuou e encontrou a bancada de mármore contra suas costas.
Ele parou tão perto que seu calor a envolveu como um cobertor familiar.
—Eu vou olhar para você assim enquanto você deixar — ele murmurou, sua voz um fio de som carregado de devoção. — E mesmo se você não deixar... não sei se conseguirei parar.
A respiração dela falhou. Por um instante — apenas um — pareceu que tudo desabaria novamente em seus braços.
A tensão ainda eletrizava o ar quando Olívia respirou fundo e quebrou o silêncio:
—Está tudo bem? — perguntou, num tom mais suave.
Helena hesitou por um segundo crucial antes de assentir.
—Claro. Só um pouco cansada. Boa noite.
E desapareceu escada abaixo numa velocidade que contradizia sua calma forçada.
—Amanhã vou falar com ela — murmurou. — Hoje já foi pesado demais.
Olívia concordou em silêncio, uma inquietação persistente apertando seu estômago.
Ao entrarem no quarto de Ian, a realidade a atingiu como uma maré. A cama enorme, o cheiro familiar dele, suas roupas cuidadosamente dispostas sobre a poltrona — cada detalhe era um testemunho de uma vida que outrora compartilhara.
Ele parou perto da porta, sua postura rígida.
—Eu vou para o outro quarto. Se precisar de qualquer coisa, me chama.
Ele começou a se virar, mas algo em Olívia se rebelou contra a partida. Uma necessidade profunda e irracional falou antes que sua mente pudesse processar:
—Ian... espera.
Ele congelou no lugar, virando-se com uma lentidão quase reverente.
Seus olhos brilhavam com uma vulnerabilidade crua.
—Talvez eu... não saiba se voltei inteira. Ou se voltei como você espera — ela respirou fundo, sentindo cada batida cardíaca em sua garganta. — Mas eu sei que... não quero que você vá.
Ian ficou absolutamente imóvel. Nenhum músculo se moveu. Ele mal parecia respirar.
—Você... quer que eu fique?
Ela assentiu, um movimento pequeno e dolorosamente verdadeiro.
—Quero — confessou. — E... vamos encontrar um modo de nos acertar. Não sei como. Não sei quando. Mas... eu quero tentar.
Por um segundo que pareceu uma eternidade, Ian pareceu perder completamente o ar. Sua postura rígida desmoronou. A barreira que sempre carregara em torno de seu coração rachou, expondo o homem por trás do mito.
Ele deu um passo. Depois outro. Parou diante dela — tão perto que ela podia sentir seu calor, mas não o suficiente para tocá-la.
—Eu fico — ele sussurrou, sua voz quebrada pela emoção. — Pelo tempo que você quiser. Pelo tempo que você permitir.

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