Os dias que se seguiram foram de uma quietude peculiar — não o silêncio gélido do ressentimento, mas um hiato tenso que parecia construir pontes entre eles. Pontes frágeis, de madeira verde, que rangiam a cada passo, mas que existiam.
Ian e Olívia moviam-se em órbitas cuidadosas, como dois corpos celestes redescobertos após um eclipse. Nada era fácil ou imediato. Ian deixava uma caneca de café quente na mesa da cozinha quando ela descia de manhã. Olívia escrevia bilhetes curtos sobre os horários de Léo e os deixava sobre a escrivaninha dele. Às vezes, seus olhares se cruzavam no corredor e um sorriso tímido — quase adolescente em sua hesitação — nascia. Outras vezes, apenas se observavam, tentando decifrar os vestígios do que ainda poderia existir entre as ruínas.
E Léo... Léo era o arquiteto inconsciente dessa reconstrução. Seu riso ecoava pelos corredores da mansão como um antídoto contra a sombra dos Moretti. Ele corria, pequeno e determinado, sempre puxando a mão de um para mostrar um desenho ao outro, costurando-os com a sabedoria ingênua de quem ainda acreditava que pais eram feitos para estar juntos.
Enquanto Olívia tentava recompor os pedaços de uma rotina, Ian mergulhava cada vez mais fundo nos abismos do passado familiar. Nicolau, Benjamin, Diana — seus fantasmas dançavam em documentos antigos e em memórias trincadas. Ele contratou investigadores particulares, revirou arquivos secretos da empresa, forçou a abertura de cofres que seu avô julgara eternamente selados. As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar de forma perturbadora, formando um quadro que era ao mesmo tempo lógico e monstruoso.
Benjamin permanecia desaparecido — a polícia já o considerava oficialmente foragido. E Alexander... Alexander tecia sua teia pública com a precisão de um aranha venenosa. Manchetes explodiam diariamente nos jornais:
"HERDEIRO DESAPARECIDO: ONDE ESTÁ BENJAMIN MORETTI?"
"MORTE DE DIANA MORETTI: ACIDENTE OU HOMICÍDIO?"
"OS SEGREDOS SOMBRIOS DA DINASTIA MORETTI"
Ian mantinha-se em silêncio, sua calma uma estratégia calculada. Ele não alimentaria o circo midiático que o irmão montara. Não ainda.
A convocação era inevitável. Quando chegou, trouxe consigo o peso do inevitável: Olívia teria que depor. Não sobre a morte de Diana — ainda —, mas sobre a atmosfera na empresa, sobre Nicolau, sobre Benjamin, sobre os relacionamentos tóxicos que permeavam o império Moretti.
O salão do fórum estava abarrotado quando ela entrou, quase ao meio-dia. Repórteres famintos por escândalos, advogados de ternos caros, curiosos atraídos pelo drama da alta sociedade. E Ian. Ele estava sentado na primeira fileira, não ao lado dos outros Moretti, mas sozinho, do lado oposto. Olívia sentiu o estômago embrulhar ao vê-lo ali — uma ilha de solidão em um mar de expectação.
Quando o juiz chamou seu nome, um silêncio repentino tomou conta da sala.
Ela caminhou até o centro, suas passadas ecoando no piso de mármore. Sob as luzes brancas e cruas do tribunal, seu rosto parecia pálido, mas sua voz saiu surpreendentemente firme:
— Eu sou Olívia Belmonte. Não Olívia Moretti.
Um burburinho eletrizado percorreu o tribunal.
O advogado da família, um homem de expressão severa, aproximou-se:
—A senhora confirma que foi casada com o senhor Benjamin Moretti?
— Fui — ela respondeu, sem vacilar. — E foi o maior erro da minha vida.
Novos murmúrios surgiram, acompanhados pelo clique frenético das câmeras.
O advogado ajustou os óculos, consultando suas anotações:
—E a senhora confirma que tinha conhecimento das atividades ilícitas de Nicolau Moretti? Ou do comportamento criminoso de Benjamin?
Cochichos surgiram como fagulhas, mas foram rapidamente sufocados pela expectativa do que viria a seguir.
Ian continuou, sua voz crescendo em convicção:
—Eu sei que vocês querem respostas sobre o império Moretti. Sobre a morte da minha mãe. Sobre o desaparecimento do meu sobrinho. E vocês terão essas respostas. Mas não às custas dela.
Olívia sentiu seu peito contrair. Suas mãos tremiam levemente, mas ela não conseguia desviar os olhos dele. Nunca o ouvira falar assim — tão despido, tão verdadeiro.
Então, Ian respirou fundo, como um homem se preparando para mergulhar em águas profundas, e proferiu as palavras que mudariam para sempre a história dos Moretti naquele tribunal:
— Eu não quero mais ser um Moretti. Não preciso desse sobrenome. Não preciso desse império. A única coisa que eu quero ser, é pai do Léo. E ter a família que nunca pude ter no lar em que cresci.
O choque que percorreu a sala foi quase físico. Repórteres digitavam freneticamente em seus celulares. Advogados trocavam olhares de incredulidade.
Olívia sentiu algo dentro dela desmoronar e se reconstruir simultaneamente. Ian Moretti — o homem que sempre definira seu valor pelo legado familiar — estava publicamente renunciando a tudo para defendê-la.
Ele baixou a cabeça por um momento, como se recuperando do esforço, então ergueu o olhar novamente. Diretamente para ela. Sem máscaras. Sem paredes. Apenas a verdade nua de um homem que finalmente descobrira seu próprio norte.
— É isso que importa para mim — ele disse, sua voz agora um fio de som carregado de significado. — Só isso. E nada mais.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido