O amanhecer trouxe consigo uma serenidade que Olívia não sentia há anos. Ela acordou com o braço de Ian envolvente em sua cintura, seu rosto enterrado em seus cabelos. Pela primeira vez, não havia pressa em se afastar, nem aquele frio familiar no peito. Havia apenas paz.
Ian despertou minutos depois, seus olhos encontrando os dela ainda embaçados de sono.
—Bom dia — sussurrou, sua voz rouca da manhã.
—Bom dia — ela sorriu, girando-se para enfrentá-lo.
Ele a puxou para um beijo suave, demorado, que sabia a promessa e recomeço.
Três horas depois, os três desciam a escadaria da mansão, de mãos dadas. Léo, uniformizado e com uma mochila de dinossauros nas costas, não parava de sorrir.
— Hoje vocês vão me buscar juntos? — perguntou, esperançoso, enquanto Ian abria a porta do carro.
Ian e Olívia trocaram um olhar sobre sua cabeça.
—Sim, hoje vamos — Ian confirmou, seu sorriso tão aberto que quase não parecia o mesmo homem de algumas semanas atrás.
Na escola, enquanto Olívia ajeitava o colarinho de Léo, Ian ficou ao seu lado, uma presença sólida e visivelmente orgulhosa. Quando Léo correu para os amigos, gritando "Meus pais vieram juntos!", Olívia sentiu o coração apertar de emoção.
No estacionamento, Ian a segurou pela cintura antes que ela entrasse em seu carro.
—Boa sorte na entrevista — disse, seus olhos sérios. — Lembre-se, você merece isso por seu próprio mérito.
— Eu sei — ela respondeu, erguendo-se na ponta dos pés para um beijo rápido. — E você, consegue lidar com... tudo na empresa?
— Hoje sim — ele afirmou, com uma determinação renovada. — Tenho uma razão para lutar agora.
A ONG ficava em um bairro arborizado, longe da ostentação do centro empresarial. Era uma casa ampla e adaptada, com jardins e canis espaçosos. O ar cheirava a limpeza e a grama cortada, misturado com o som suave de latidos ao fundo.
Enquanto esperava na recepção, Olívia observou as fotos nas paredes — cães e gatos resgatados, antes e depois. Em uma moldura discreta, uma foto de Ian acariciando um vira-lata idoso chamou sua atenção. Ele estava de jeans e camiseta, ajoelhado na grama, com uma expressão que ela raramente via nele: completa e genuína felicidade.
— Ele vem aqui todo sábado — uma voz interrompeu seus pensamentos.
Olívia virou-se para encontrar uma mulher de cabelos grisalhos e olhos gentis, usando um jaleco veterinário.
—Dra. Beatriz, suponho? — Olívia estendeu a mão. — Olívia Belmonte.
— É um prazer. E sim, o Ian... ele é diferente aqui. Esse lugar é o seu refúgio, no sentido literal. Ele mesmo ajudou a construir alguns dos canis.
A admiração na voz da dra. Beatriz era evidente. Enquanto conduzia Olívia em uma visita, ela mostrou as instalações modernas e bem cuidadas — sala de cirurgia, farmácia, área de recuperação.
— Ele fundou a Aurora após resgatar um cachorro que foi atropelado na porta da empresa — contou Beatriz. — Pagou todo o tratamento, e quando o animal se recuperou, percebeu que queria fazer isso em maior escala. É a única parte da vida dele que não tem nada a ver com os Moretti. É só... dele.
—Olívia Belmonte está ótimo. E sim, por favor, continuemos.
O restante da entrevista foi permeado pela presença silenciosa, mas opressiva, de Valentina. Ela não fez perguntas, mas seu olhar crítico seguia cada resposta de Olívia, cada gesto.
Quando a entrevista terminou, Dra. Beatriz acompanhou Olívia até a saída.
—Não se preocupe com a Valentina — sussurrou. — Ela tem... interesses pessoais que vão além da filantropia. O Ian confia em você, e sua competência falou por si mesma.
— Que interesses? — perguntou Olívia, intuindo a resposta.
Beatriz hesitou.
—Ela era a candidata preferida de Nicolau para... se casar com Ian, anos atrás. O apoio dela à ONG sempre veio com... expectativas.
O sangue pareceu gelar nas veias de Olívia. O obstáculo tinha um rosto, um nome e um histórico.
Ao se despedir, Olívia sentiu o olhar de Valentina sobre ela, vindo da janela do andar de cima. Era um olhar de guerra silenciosa declarada.
Enquanto dirigia de volta para a mansão, Olívia sabia que aquele emprego significava muito mais do que uma recolocação profissional. Era uma afirmação de seu lugar no novo mundo que ela e Ian estavam construindo — um mundo que, claramente, ainda tinha inimigos prontos para atacar.
E Valentina Tannous, com seu sorriso afiado e seus olhos de gelo, era apenas o primeiro.

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