O 48º andar da Moretti Industries respirava tensão. Ian ajustou o punho da camisa branca antes de empurrar as pesadas portas de carvalho da sala de reuniões. Vinte pares de olhos se voltaram para ele, alguns cheios de expectativa, outros de franca hostilidade.
— Senhores — sua voz ecoou na sala silenciosa, enquanto ele ocupava a cadeira à cabeceira da mesa de jacarandá — a auditoria independente avança a todo vapor. Identificamos transferências suspeitas e contas vinculadas a locais onde meu avô, francamente, nunca deveria ter movimentado recursos. Estou lidando pessoalmente com cada irregularidade.
De Santis, o sócio mais antigo do conselho, deixou os óculos caírem sobre a mesa com um clique seco.
—E o nosso ilustre vice-presidente, Ian? — sua voz era um fio de sarcasmo — Benjamin foi indicação pessoal de Nicolau. Seu desaparecimento começa a cheirar mal... muito mal.
Um acionista mais jovem bateu a caneta na mesa, seu tom urgentemente preocupado:
—Os jornais financeiros já estão ligando para nossos assessores. Sem uma posição oficial, o prejuízo à imagem corporativa será catastrófico!
Ian sentiu uma veia pulsar em sua têmpora, mas manteve as mãos firmemente entrelaçadas sobre a mesa.
—Benjamin não está desaparecido — ele afirmou, articulando cada palavra com cuidado — Está sob investigação interna. Enquanto isso, continuo como CEO e garanto a estabilidade operacional. Terão respostas formais quando...
— Não podemos operar nessa névoa de incertezas! — De Santis interrompeu, erguendo-se parcialmente — Se ele não se apresentar até o comitê de sábado, moveremos pela destituição formal. Não é sobre Benjamin... é sobre a credibilidade do grupo!
Ian inclinou-se para frente, suas mãos pressionando a madeira polida até os nós dos dedos ficarem brancos.
—Compreendo perfeitamente — sua voz baixou para um tom perigosamente controlado — No sábado, terão uma decisão definitiva.
Quando o último acionista deixou a sala, Ian deixou escapar um suspiro profundo e desabou na cadeira. Seus dedos tremiam ligeiramente enquanto esfregava o rosto. O silêncio da sala agora era opressivo, quebrado apenas pelo zumbido distante do ar condicionado.
O celular vibrou em seu bolso. Ele puxou o aparelho com movimentos bruscos.
—Dra. Beatriz? — sua voz soou mais áspera do que pretendia
— Senhor Moretti... — a voz da veterinária veio hesitante — Precisamos conversar sobre a entrevista da Olívia.
Ian endireitou-se imediatamente na cadeira.
—O que houve? Algo saiu errado?
— Não, não exatamente. Ela foi brilhante, na verdade. A equipe toda aprovou seu currículo e postura. Mas... — ela fez uma pausa significativa — a Sra. Valentina compareceu sem aviso. Fez certos comentários sobre "estabilidade emocional" e "exposição midiática"...
Ian fechou os olhos, sentindo uma pontada de raiva percorrer sua espinha.
—Ela não tem jurisdição sobre contratações da ONG — sua voz saiu como um rosnado baixo.
— Eu sei, senhor Moretti — Beatriz soou genuinamente cansada — mas o conselho teme conflitos com a Moretti Industries. Valentina mantém... certa influência.
— Compreendo — Ian disse curtamente — Agradeço o alerta.
Mal desligou a chamada, seu punho cerrado bateu contra a mesa. Ele respirou fundo três vezes antes de pressionar o intercomunicador com força excessiva.
—Matheus. Sala 48. Imediatamente.
A porta abriu-se em menos de um minuto. Matheus entrou com a respiração levemente ofegante, como se tivesse corrido pelos corredores.
— Então simplifique-a! — Ian retorquiu, batendo a palma da mão na mesa — Confio em você para lidar com isso. É por isso que você está aqui.
Após um longo momento onde o único som era a respiração ofegante de ambos, Matheus assentiu relutantemente.
—Está bem. Falarei com ela.
— E Matheus... — Ian fez uma pausa significativa, segurando o olhar do amigo — não permita que ela te provoque.
Um sorriso amargo e torto cruzou o rosto do segurança.
—Para isso — ele disse, virando-se para sair — já é tarde demais.
Sozinho novamente, Ian caminhou até a parede de vidro que oferecia uma vista panorâmica da cidade. Seus dedos tamborilaram nervosamente no vidro frio enquanto observava o céu cinzento que se coalescia no horizonte. Cada prédio lá embaixo parecia representar uma das pressões que ameaçavam afundá-lo.
Lembrou-se de Olívia naquela manhã, arrumando a pasta de documentos com aquela expressão determinada que tanto amava. Como sua mão tremia ligeiramente quando ela ajeitava o cabelo atrás da orelha - um gesto que só ele notava. Recordou o beijo no tribunal, aquele momento de pura verdade em meio ao caos.
Seu celular vibrou, interrompendo seus pensamentos. A mensagem de Olívia piscava na tela:
"Entrevista terminada. Estou a caminho de casa. Me conta sobre seu dia depois."
Ian fechou os olhos, uma determinação férrea solidificando-se em seu peito. Suas mãos se cerraram em punhos ao lado do corpo. Ele a protegeria - de Valentina e suas manipulações, de Alexander e sua sede de poder, dos fantasmas de Benjamin e Nicolau que ainda assombravam cada canto desta empresa, de todo o mundo que ousasse ameaçar a frágil felicidade que finalmente começavam a construir.
Desta vez, ele pensou enquanto observava a cidade se preparar para a noite, o preço do fracasso seria mais do que impagável - seria a perda de tudo que finalmente importava.

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