O céu alaranjado do fim de tarde envolvia a escola em uma atmosfera serena que Ian mal conseguia apreciar. Seu dia havia sido um turbilhão de reuniões estressantes e pressões, mas agora, um único pensamento acalmava sua mente: encontrá-los.
E lá estavam eles.
Encostado no carro, ele viu Olívia e Léo saindo juntos pelo portão. O coração de Ian deu um salto. Léo, ao avistá-lo, soltou um grito animado.
— Pai! Você veio!
O menino correu em sua direção, e Ian se abaixou, os braços abertos, para recebê-lo em um abraço forte. O cansaço do dia pareceu dissolver-se momentaneamente com o calor do filho.
— Claro que vim, companheiro. Prometi, não foi?
Olívia aproximou-se com um sorriso tranquilo, seus olhos encontrando os de Ian em uma cumplicidade silenciosa.
— Ele não parou de falar sobre isso o dia todo — comentou ela, suavemente.
— Entra! — Léo puxou a mão do pai, ansioso. — Pode sentar no meio, mamãe!
Dentro do carro, Léo era um rio de entusiasmo. Sua vozinha aguda preenchia o espaço, narrando cada detalhe do seu dia com uma energia contagiante.
— ...e aí eu fiz um avião de papel que voou até o outro lado da sala! A tia disse que foi o melhor! E o Lucas me mostrou um jogo novo no parque, a gente correu muito, e eu ganhei! E na hora do lanche, eu dividi meu sanduíche com a Maria porque ela esqueceu o dela...
Ian e Olívia trocaram um olhar por cima da cabeça do menino. Um daqueles olhares que carregavam um universo de entendimento — um misto de amor, cansaço e uma alegria profunda por aquele momento simples e perfeito. Enquanto Léo falava sem parar, o silêncio entre eles era mais eloquente que qualquer palavra.
Ao chegarem à mansão, a porta principal já se abria. Helena estava lá, como sempre, com seu uniforme limpo e um sorriso calmo.
— Léo! — chamou ela, sua voz um acalento familiar.
— Helena! Já tava com saudade! — O menino disparou em direção a ela, esquecendo a mochila no carro. Ele se jogou em seus braços em um abraço sincero.
Helena riu, afagando seus cabelos.
— Saudades de você também, meu querido. Vamos, tenho um suco de laranja fresquinho e aqueles biscoitos que você gosta.
— De chocolate? — perguntou Léo, os olhos brilhando.
— De chocolate, sim — ela confirmou, pegando sua mão. — Vamos lavar as mãos primeiro.
Os dois subiram a escadaria juntos, a figura maternal de Helena guiando o pequeno furacão com paciência infinita.
Sozinhos no hall de entrada, Ian e Olívia observaram a cena.
— Ele realmente a adora — comentou Olívia, suavemente.
Ian concordou com a cabeça, afrouxando a gravata com um suspiro de alívio.
— E ela é incrível com ele. Mas... — ele hesitou, olhando para Olívia. — Você não acha que ele já está bem estabelecido? Mais seguro? Talvez não precise mais de uma enfermeira em tempo integral.
Olívia ponderou por um momento.
— É verdade, ele está muito melhor. Mas a Helena... eu já a vejo como parte da família, Ian. Não é só sobre cuidados médicos mais.
— Exatamente — Ian concordou. — Seria uma perda terrível deixá-la ir. Talvez possamos propor uma transição. Mantê-la conosco, mas com funções diferentes. Quem sabe... uma acompanhante, ou algo assim. Algo que a mantenha por perto, mas com menos pressão.
Olívia aprovou com um sorriso.
— É uma ótima ideia. Eu posso falar com ela sobre isso amanhã, sentir o que ela acha.
— Perfeito — Ian respondeu, seu olhar suavizando-se ao observá-la.
Foi então que Olívia notou as sombras sob seus olhos, a tensão residual em seus ombros.
— Dia difícil? — perguntou ela, aproximando-se.
Ian esfregou o rosto, um gesto de cansaço profundo.
— Foi... intenso. A reunião com os acionistas foi um campo de batalha. O desaparecimento do Benjamin está criando um descontrole geral. Eles estão exigindo respostas, soluções... — sua voz carregava uma frustração contida. — Já chega. Vou ter que tomar uma atitude mais drástica, Olívia. Não posso deixar isso afundar tudo que construí.
Ele parecia prestes a se aprofundar no assunto, mas parou, sacudindo a cabeça como para afastar os pensamentos sombrios.
— Mas chega de negócios por hoje. E a sua entrevista? Como foi?
O olhar de Ian intensificou-se.
— Porque ela é a mãe da filha do meu melhor amigo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Olívia piscou, processando a informação.
— Matheus? — sussurrou ela, incrédula.
— Sim — Ian confirmou. — Eles tiveram um caso há anos. Complicado. Ele nunca superou totalmente, e ela... bem, ela nunca superou a rejeição dele. Foi por isso que pedi a ele para intervir depois do confronto dela com você. Ele é a única pessoa que consegue acalmá-la.
Olívia ficou em silêncio, suas memórias se reorganizando rapidamente.
E então, um novo pensamento surgiu, nítido e perturbador: Carla sabia de tudo isso? E será que ela aprovaria Matheus se envolvendo com Valentina de novo?
Mas ela guardou a pergunta para si. Aquele não era o momento.
Ian observou a expressão pensativa em seu rosto e aproximou-se, sua presença um reconforto familiar.
— Isso te incomoda? — perguntou ele, suavemente.
— Não — ela respondeu, honestamente. — Só... me fez entender algumas coisas.
Ele acenou com a cabeça, um entendimento silencioso passando entre eles.
— Há muitas coisas do meu passado que ainda preciso te contar — disse ele, sua mão encontrando a dela. — Mas entre nós... não há mais segredos. Certo?
Olívia sorriu, sentindo o calor de sua mão.
— Certo.
E quando ele se inclinou para beijá-la, não houve hesitação. Estavam navegando naquela vida complicada juntos, um passo de cada vez.
Enquanto isso, no andar de cima, Helena observava discretamente pela janela do corredor. Seu rosto, normalmente sereno, estava marcado por uma preocupação profunda. Ela segurava o colar que usava no pescoço, os dedos tremendo levemente.
Alguém tinha que proteger aquela família, custasse o que custasse. E ela sabia, com uma certeza que a assustava, que a tempestade que se aproximava seria a pior de todas.

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