O apartamento de Valentina era exatamente como Matheus lembrava — uma extensão perfeita da mulher: moderno, impecável, e frio como uma tumba de mármore. Cada objeto cuidadosamente posicionado, cada superfície brilhando sob a luz artificial. Nada fora do lugar. Nada que sugerisse calor humano.
Ele não bateu — empurrou a porta com tanta força que ela atingiu a parede com um baque seco. Como sempre, ela não a trancava. Como sempre, ela o esperava.
Valentina estava reclinada contra o balcão da cozinha, vestindo um vestido preto que parecia pintado em seu corpo, segurando uma taça de vinho tinto como se fosse uma arma. Seu sorriso era afiado como vidro quebrado.
— Ora, ora. O cão de guarda do grande Ian Moretti finalmente veio latir à minha porta — disse ela, a voz um mel venenoso. — Que honra inesperada, Matheus. Ou devo dizer... fantasma do meu passado?
Ele ignorou a provocação, fechando a porta com tanta força que fez os quadros na parede tremerem.
— Você apareceu na entrevista da Olívia — ele disparou, a voz baixa, mas cortante como uma lâmina. — Meteu o nariz onde não é bem-vinda.
Ela riu, um som seco e vazio que ecoou no espaço estéril.
— Tudo que envolve a marca Moretti me interessa, querido. E essa... Olívia — ela pronunciou o nome com desdém — é apenas mais uma paixão passageira dele. Quantas já foram, Matheus? Três? Quatro? Você as perdeu de conta, assim como fez comigo?
Ele avançou um passo, seus punhos se cerrando involuntariamente.
— Não fale dela.
— Oh, vai fazer o quê? — Ela ergueu uma sobrancelha perfeita, desafiando-o. — Vai me bater? Ou vai continuar fingindo ser esse homem de moral elevada que sempre afirmou ser?
O ar entre eles parecia carregado de eletricidade, cada palavra um golpe cuidadosamente calculado em uma guerra antiga.
Ele mudou de tática, indo direto ao ponto:
— Não vim revirar nosso passado podre. Vim avisar. Você vai se manter longe da vida do Ian. E muito, muito longe da Olívia.
Valentina soltou um bufado de escárnio.
— Você nem conseguiu ficar na minha vida, mas quer ditar a minha agora? Rico em hipocrisia, não acha?
Ele cerrou os maxilares até doer.
— Valentina. Isso não é um aviso. É um ultimato.
— Sério? — Ela riu, desta vez com uma amargura que parecia vir das profundezas de sua alma. — Tão sério quanto quando jurou me amar? Tão sério quanto quando desapareceu por meses sem uma explicação? Ou quando me trocou por sua santidade recém-descoberta? Você sempre foi excelente em desaparecer, Matheus. É seu talento especial.
Ele engoliu seco, sentindo cada palavra como uma facada.
— Você sabe perfeitamente por que eu fui embora.
— Ah, sim! — Ela revirou os olhos dramaticamente. — Por favor, me refresque a memória. A parte onde você é "bom demais" para uma mulher como eu?
Matheus tentou respirar fundo, mas cada sílaba dela encontrava uma ferida mal cicatrizada.
— Você não era... — Ele hesitou, lutando pelas palavras certas. — Você não era alguém com quem eu poderia construir uma família.
Os olhos dela faiscaram de dor genuína por um instante antes de congelarem completamente.
— Engraçado ouvir isso de você, Matheus. O pai solteiro perfeito. O santo. O leal. O bom moço que fugiu de mim... apenas para correr atrás de outra.
Ele ficou rígido, cada músculo tensionado.
— Eu nunca corri atrás de ninguém.
Ela sorriu, um brilho perverso iluminando seus olhos.
— Mas agora tem vontade, não tem? — provocou. — A amiguinha da Olívia... como é mesmo o nome dela? Ah, sim, Carla. A bonitinha que apareceu no jornal.
O corpo de Matheus fechou completamente, sua expressão se tornando uma máscara de pedra.
— Não fale dela.
— Por quê? Tem medo que eu estrague suas chances? — Valentina inclinou a cabeça, como um predador estudando sua presa. — Do jeito que você foge de sentimentos, é bem capaz de fazer isso sozinho.
Ele estava à beira de explodir. Quase perdendo o controle.
Mas então...
Um pequeno som ecoou do corredor.
— Papai?
O mundo parou.
Matheus girou imediatamente, todo o ar saindo de seus pulmões.
Sua filha, uma garotinha de cachos escuros e pijama cor-de-rosa, vinha mancando em sua direção, segurando um ursinho de pelúcia desgastado.
— Eu acabo com você, Valentina. E dessa vez, não haverá perdão.
Ela sentiu o peso da ameaça, mas sorriu mesmo assim.
— Cuidado, Matheus. Eu ainda sei exatamente como te quebrar. Lembre-se: eu conheço todos os seus pontos fracos.
Ele não respondeu.
Apenas pegou suas chaves.
E saiu,deixando a porta aberta atrás de si como um último gesto de desprezo.
No elevador, ele finalmente respirou — fundo e pesado, tentando se recompor da tempestade emocional.
Quando o celular vibrou, ele quase não olhou.
Carla:
"Ei,você já está chegando? 😊
Lembrei que você mencionou gostar de comida tailandesa,
reservei aquele lugar novo no centro!"
Ele fechou os olhos, um misto agonizante de culpa, cansaço e raiva apertando seu peito.
Sem pensar, suas mãos trêmulas digitaram uma resposta curta:
"Desculpa.Algo urgente surgiu. Não vou conseguir."
Ele então silenciou as notificações, ignorando completamente as seguintes mensagens que começaram a aparecer.
Não podia falar com ela naquele estado. Não quando toda a raiva e frustração do confronto com Valentina ainda fervilhavam em suas veias.
E só muito mais tarde, quando já estava em casa encarando o teto no escuro, é que a realidade o atingiu com força total:
Ele tinha um encontro marcado com Carla naquela noite.
E ela... ela tinha esperado.

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