Carla encarava o relógio do restaurante como se pudesse controlar o tempo com a força do pensamento. Suas unhas batiam levemente na mesa de mármore, um ritmo nervoso que acompanhava a ansiedade crescente.
20h17.
O garçom passou pela primeira vez.
— A senhora gostaria de pedir algo enquanto espera?
— Um vinho bordô suave, por favor. E... ele deve chegar a qualquer momento.
21h03.
O vinho estava intocado. A taça suava no ar condicionado.
— Mais algum tempo,senhora?
— Sim,obrigada. Ele deve ter se atrasado no trânsito.
21h48.
As velas já haviam derretido pela metade.O restaurante estava quase vazio.
O garçom olhava com pena agora.
— Posso trazer algo para senhora?
— Não...não, obrigada. Vou pagar a conta.
Carla sentiu um nó na garganta ao levantar. As pernas tremiam levemente. Ela se segurou na cadeira por um momento, tentando recompor o fôlego.
"Você nunca é a primeira opção de ninguém, Carla."
A voz interior, que ela tanto combatia, soava mais alta que nunca.
Quando finalmente se virou para sair, seu coração parou.
Do lado de fora, encostada em um carro preto, estava uma mulher de terno impecável. Cabelos lisos repartidos ao meio, postura altiva. Seus olhos escuros fixos em Carla, como um predador observando sua presa. Um sorriso leve e cruel nos lábios.
A mulher levantou a taça de vinho que segurava em um gesto irônico de brinde.
Carla sentiu as pernas amolecerem. Aquele olhar não era casual - era uma declaração. Alguém sabia de seu encontro, sabia de sua humilhação, e estava se divertindo com isso.
Ela engoliu seco, virou o rosto e entrou em seu carro com movimentos trêmulos. Mesmo ao dar partida, via no retrovisor a figura ainda lá parada, observando sua partida como quem assiste a um espetáculo.
***
Olívia estava no terraço quando ouviu o portão eletrônico se abrir. Reconheceu imediatamente o carro de Carla - e a maneira brusca como a amiga estacionou, quase encostando na fonte.
Desceu os degraus rapidamente.
— Carla? O que está fazendo aqui? Está tudo bem?
A amiga saiu do carro com movimentos bruscos, evitando seu olhar.
— Tudo ótimo. Por que não estaria? — A voz saiu mais áspera do que ela pretendia. — Vim apenas visitar você.
Olívia segurou seu braço gentilmente.
— Você está pálida. E tremendo.
Carla riu, um som amargo e sem humor.
— Só descobrindo que algumas lições a gente tem que aprender mais de uma vez na vida. — Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas.
Ian apareceu na porta principal, ainda de terno, mas com a gravata solta. Seu olhar analítico captou a cena instantaneamente.
— Problemas? — perguntou, descendo os degraus com calma.
O ar saiu de seus pulmões. Ela leu a mensagem repetidas vezes, cada palavra uma facada. Alguém sabia. Alguém via sua dor e decidiu intensificá-la.
Ela jogou o telefone no chão como se tivesse queimado, depois o pegou novamente, os dedos tremendo ao digitar uma resposta que nunca enviaria.
Decidiu voltar para seu apartamento, antes mesmo de Olívia voltar para ela com suas questões inquisitivas.
Carla levantou e caminhou até a varanda, observando os jardins iluminados pela lua.
No corredor, ouviu vozes baixas. Olívia e Ian ainda conversavam, suas silhuetas visíveis pela fresta da porta entreaberta.
— Ela vai ficar bem? — era Ian.
— Ela é forte. Mais do que eu jamais serei. — A voz de Olívia era um murmúrio reconfortante.
Carla fechou os olhos, deixando escorrer finalmente uma lágrima solitária.
Correu até seu carro e voltou para sua casa em instantes. Eram quase 2:00 da manhã quando o toque do telefone a fez pular.
Matheus. O nome dele piscava na tela, um farol na escuridão de seu quarto.
Sua mão tremeu. O coração acelerou. Por um momento, ela imaginou atendendo, ouvindo sua voz, acreditando em suas desculpas.
Mas então lembrou: a mulher do restaurante. O sorriso cruel. A mensagem anônima.
Ela pressionou o botão vermelho.
O toque parou, então começou novamente. Ele estava insistindo.
Mas não adiantava. A noite havia mudado tudo - seus sonhos, suas expectativas, sua confiança.
E no fundo de seu coração, um pressentimento frio a avisava: isto era apenas o primeiro ato de uma tragédia que mal começara.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Matheus encarava o telefone silencioso, sabendo que acabara de perder algo que nem sequer entendera ter encontrado.

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