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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 243

O sol da manhã entrava em listras douradas pela janela do quarto, mas Carla não conseguia sentir seu calor. Ela perambulava pelo quarto como uma alma penada, as mãos trêmulas, o coração um peso morto no peito.

Ignorar. É só ignorar para sempre, pensou, passando os dedos pelo cabelo desalinhado.

Chorar? Não. Já chorei demais por homens.

Fugir. Ligar para Olívia, pedir para sumir desta cidade, desta vida.

Mas o orgulho era uma couraça mais forte. Mais forte que a dor latejante, mais forte que a esperança ridícula que teimava em brotar, mesmo agora, como um verde teimoso sob as cinzas.

Os passos na calçada da sua casa fizeram-na parar. Firmes, pesados, decididos. Conhecidos. Seu corpo inteiro enrijeceu antes mesmo de a porta se abrir. Ela sabia quem era. Conhecia o ritmo da caminhada, a postura, a energia que emanava dele e que sempre a deixava em estado de alerta e de antecipação.

Matheus surgiu na moldura da porta. O cabelo, escuro e bagunçado, ainda gotejava água da chuva fina que caía lá fora. Seus olhos, normalmente tão impenetráveis, estavam vermelhos e fundos, marcados por uma noite em claro — de cansaço, de raiva, ou de ambos. Ele a encontrou com aquele olhar que sempre a fez sentir-se nua, como se ele visse além de todas as suas defesas.

— Carla — a voz dele saiu rouca, um sussurro carregado. — Precisamos conversar.

Ela riu. Um som seco e áspero que ecoou na sala silenciosa.

— Conversar? Agora? — Ela cruzou os braços com força, como se isso pudesse conter o tremor que percorria seu corpo. — Depois de me deixar esperando como uma idiota por duas horas? Fazendo eu passar vergonha sozinha num restaurante cheio?

Matheus fechou a porta atrás de si com um baque suave, mas decisivo. Seu maxilar estava tão tensionado que ela podia ver o músculo pulsando.

— Eu não tive escolha, Carla. Algo... algo urgente surgiu.

— Algo sempre surge, não é? — Ela cortou, a voz subindo de tom, carregada de uma amargura que a assustou. — É o que homens como vocês sempre fazem! O Ian com a Olívia, você comigo... Vocês são mestres em desaparecer quando as coisas ficam reais, e voltar só quando é conveniente, quando podem bancar os heróis!

Ele deu um passo à frente, rápido, e o ar no quarto pareceu ficar mais denso, eletrizado.

— Não me compare a outros homens— rosnou, os olhos faiscando. — Não se atreva.

— Por quê? A verdade é difícil de engolir? — Ela não recuou, plantando os pés no chão. — Vocês sempre são dois lados da mesma moeda! Aparecem para salvar quando lhes convém, mas para estar presente... para cumprir uma promessa simples... ah, para isso nunca há tempo!

Matheus respirou fundo, suas mãos se fechando e abrindo em punhos à suas laterais. Era um homem se segurando por um fio, um esforço visível e quase animal para não explodir.

— Você não faz ideia do que aconteceu ontem à noite. Nenhuma — sua voz era baixa, mas cada palavra era carregada de um peso sombrio. — Eu tive que lidar com alguém que... que envenena tudo o que toca. Alguém que está tentando destruir o Ian, a Olívia, e agora... — Ele cortou o próprio pensamento, sacudindo a cabeça. — Eu precisei resolver. Era importante.

— Ah, sim! O grande e leal segurança! — O nome saiu como um veneno da boca de Carla. — A prioridade número um. Sempre.

Os olhos de Carla arderam. A raiva se misturava agora a uma dor aguda, a uma vulnerabilidade que ela lutava para não mostrar.

— Você acha que eu quero um salvador? Um herói de capa brilhante? — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu não quero alguém perfeito, Matheus. Eu só queria... que você tivesse aparecido. Que você tivesse escolhido aparecer.

O silêncio que se seguiu foi profundo, preenchido apenas pela respiração ofegante de ambos. Todas as mágoas, todos os medos não ditos, todas as verdades dolorosas pareciam pairar naquele espaço entre eles.

Matheus soltou o ar num suspiro longo e tremulo. Ele parecia ter sido desarmado, a fúria inicial drenada, deixando para trás apenas um homem cansado e visivelmente afetado. Ele a observou por longos segundos, seu olhar percorrendo cada linha de seu rosto, como se estivesse memorizando-a.

Então, com uma voz baixa, rouca de emoção contida, quase um pedido de clemência, ele perguntou:

— Só me diz uma coisa, Carla...

Ele deu o último passo, ficando tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, o cheio de chuva e da pele dele. Tão perto que sua respiração tornou-se um só.

— Você quer que eu vá embora?

A pergunta ecoou na alma dela, pesada como chumbo, quente como fogo. E, por um instante que pareceu durar uma eternidade, Carla percebeu, com um frio na espinha, que qualquer resposta que desse naquele momento — um sim, um não, um silêncio — mudaria irrevocavelmente o curso de tudo. Para ela. Para ele. Para o que quer que houvesse, ou pudesse haver, entre eles.

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