O silêncio que se seguiu ao telefonema foi mais estridente que qualquer grito. Olívia permaneceu imóvel, o celular ainda pressionado contra o ouvido como se pudesse extrair mais alguma palavra, algum som que desfizesse a terrível profecia que Benjamin acabara de proferir. Seus dedos tremiam levemente, e o ar parecia ter se solidificado em seus pulmões.
Ian já estava em movimento antes que o primeiro segundo se esgotasse. Seu corpo, antes tenso pela paralisia do choque, transformou-se em um furacão de ação deliberada. Ele arrancou o celular das mãos trêmulas de Olívia com uma gentileza que contrastava com a urgência em seus olhos.
— Matheus, é agora! — sua voz ecoou pelo quarto, um comando cortante que não admitia hesitação. Ele não desligou, mantendo a linha aberta enquanto seus dedos dançavam sobre a tela de seu próprio aparelho, iniciando um rastreamento simultâneo. — Ativa o protocolo Fênix. Preciso da origem dessa ligação em menos de três minutos. Aciona a equipe tática. Agora!
Olívia finalmente conseguiu respirar, um suspiro profundo e trêmulo que a fez cambalear. Ian estendeu o braço, segurando-a pelo cotovelo, estabilizando-a. Seu toque era firme, ancorando-a naquela realidade que parecia desmoronar.
— Ele está com medo, Ian — ela sussurrou, seus olhos arregalados com uma compreensão dolorosa. — Medo real. Não é só paranoia.
— E é por isso que precisamos chegar a ele primeiro — Ian respondeu, sua voz baixa, mas carregada de uma fúria gelada. Ele já puxava uma jaqueta preta de couro do armário, cada movimento econômico e preciso. — Se o que ele sabe é tão perigoso assim, não estamos mais só atrás de respostas. Estamos numa corrida contra a morte.
Em menos de dois minutos, eles estavam entrando na sala de comando da mansão – um espaço que Olívia só tinha visto em filmes. Era espartano, iluminado pela luz fria e azulada de uma dúzia de telas. O ar cheirava a eletricidade e café forte. Matheus já estava lá, com três homens vestidos com roupas civis escuras, mas cuja postura militar era inconfundível. Eles não falavam; comunicavam-se com gestos curtos e olhares, suas mãos voando sobre teclados e tablets.
— O sinal é fraco, mas conseguimos triangulá-lo — um dos técnicos, um homem jovem de óculos e expressão intensa, anunciou sem levantar os olhos da tela. — Zona Leste. Motel Vista Alegre, na Avenida Marginal. Quarto 12. O ping final veio de um celular descartável.
— Vulnerabilidade? — Ian perguntou, seus olhos fixos no mapa digital que mostrava um ponto vermelho piscante.
— Máxima — Matheus respondeu, cruzando os braços. O tecido de sua camisa preta esticou sobre seus ombros largos. — O lugar é uma caixa de fósforos. Uma única entrada, janelas para o corredor interno. Fácil de vigiar, mais fácil ainda de isolar. Se "eles" souberem que ele está lá...
— Então não temos um segundo a perder — Ian finalizou, seu olhar encontrando o de Olívia. Ele viu o protesto se formando em seus olhos antes mesmo que ela abrisse a boca. — Não, Olívia. É muito perigoso.
— Ele falou comigo — ela argumentou, erguendo o queixo num gesto de determinação que Ian conhecia bem. — Ele pode não falar com você. Ele está apavorado. Minha presença pode... acalmá-lo. Pode fazer a diferença entre ele falar ou não. Você mesmo disse: é uma corrida.
Matheus emitiu um som baixo, quase um rosnado. — Ela tem um ponto, Ian.
Ian cerrar os maxilares, uma batalha interna travada em seu rosto. A necessidade de protegê-la guerreava contra a lógica brutal da situação. Por fim, ele assentiu, um movimento curto e relutante.
— Você fica atrás de mim. Em todos os momentos. Entendido?
— Entendido.
A viagem até o Motel Vista Alegre foi um silêncio tenso dentro da SUV preta e blindada. Olívia observava a cidade passar pela janela escura, seus dedos entrelaçados em seu colo, as palavras de Benjamin ecoando em sua mente. "Nós morremos." Ela olhou para Ian, seu perfil cortado contra a luz noturna da cidade. Ele estava concentrado, seus olhos fixos em algum ponto distante, planejando, calculando. Aquele era o Ian que ela raramente via – o estrategista, o predador.
O motel era um conjunto de cabines baixas e decadentes, pintadas de uma cor rosa desbotada. A luz de um néon quebrado piscava erraticamente, lançando sombras doentes sobre o estacionamento de cascalho. O quarto 12 ficava no fundo, isolado das outras unidades.
Matheus e dois de seus homens – Ramos e Costa, ela ouvira Ian os chamarem – se dissiparam nas sombras, flanqueando a abordagem. Ian se aproximou da porta, com Olívia um passo atrás, como combinado. Ele bateu na madeira, não com força, mas com uma autoridade que ecoou na quietude da noite.
— Benjamin? É o Ian. Estamos sozinhos. Precisamos falar.
Silêncio. Então, um ruído de arrastar de pés. A porta se abriu uns cinco centímetros, a corrente de segurança ainda engatada. Um único olho, vermelho-sangue e arregalado de terror, encarou-os através da fresta. Era Benjamin, mas estava irreconhecível. Seus cabelos estavam ainda mais embaraçados e sujos, sua pele tinha uma palidez cadavérica.
— Vocês... vocês trouxeram eles? — sua voz era um raspado áspero, cheia de um medo tão profundo que era quase palpável. — Eu sabia... eu sabia que o telefone... eles rastreiam tudo...
— Poder — ele cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Diana era inteligente. Muito inteligente. Ela descobriu... descobriu que A Segunda estava desviando fundos há anos. Lavando dinheiro das Indústrias Moretti através de empresas de fachada no exterior. Ela tinha provas. Ia expor tudo. Ia destruir o império.
Ian parou de examinar os papéis. Sua expressão era de uma compreensão horrível. As peças se encaixavam, formando um quadro de uma traição tão profunda que era quase incompreensível.
— O nome, Benjamin — Ian pressionou, sua voz ainda controlada, mas com uma urgência subjacente. — Você disse ao telefone que lembrou do nome.
Benjamin fechou os olhos, seu rosto contraído em uma máscara de agonia. Ele parecia lutar contra si mesmo, contra o medo que o consumia.
— É... — ele começou, mas a palavra morreu em seus lábios.
De fora, um som distante, mas que se aproximava rapidamente, cortou o ar – o ronco abafado de motores potentes, sem escapamento. Não era o som de carros comuns.
Matheus, que estava perto da janela, afastou a cortina um centímetro. Seu corpo ficou instantaneamente rígido.
— Temos companhia. Dois SUVs pretos, sem placas. Eles não estão perdendo tempo.
— Eles vieram! — o grito de Benjamin foi um som de puro e simples terror. Ele se encolheu, agarrando os papéis contra o peito. — Eu sabia! Eu sabia que eles me achariam!
— Saída pelos fundos! Pelas janelas do banheiro! — Ian ordenou, sua voz um comando cortante. Ele empurrou Olívia para trás de si, colocando seu corpo entre ela e a porta.
Mas o tempo havia se esgotado. A porta do quarto não foi arrombada; ela pareceu explodir para dentro, lascas de madeira voando pelo ar, acompanhadas pelo clarão cegante e pelo estrondo ensurdecedor de uma granada de atordoamento. O mundo de Olívia se transformou em um turbilhão de branco, zumbidos agudos e desorientação. Ela tropeçou, cega e surda.

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