O mundo de Olívia havia se reduzido a um zumbido agudo e persistente, uma névoa branca que dançava em sua visão e uma desorientação que fazia o chão balançar sob seus pés. Através dessa cortina sensorial distorcida, figuras altas e encapuzadas emergiram como fantasmas saídos das paredes. Vestidas de preto da cabeça aos pés, sem uma polegada de pele visível, moviam-se com uma eficiência assustadora, silenciosos como sombras, mas com a presença física de predadores. Não havia gritos, nem ordens gritadas, apenas o movimento coreografado de uma operação de precisão.
Matheus, Ramos e Costa, reagindo com um treinamento que parecia quase um reflexo inato, já haviam se posicionado formando um triângulo defensivo. Quando suas armas cuspiram fogo, o espetáculo para Olívia foi quase surreal. As labaredas laranjas saíram dos canos em silêncio, ou pelo menos era assim que seus ouvidos, atordoados pela granada, registravam. O único som que a alcançava era um abafado pop-pop-pop, como se alguém estivesse batendo com os nós dos dedos em uma porta grossa, muito, muito distante. Ela viu um dos homens de preto recuar, atingido no ombro, mas a figura simplesmente se recompôs e continuou avançando, como se a dor fosse um conceito alheio.
— Pelo telhado!
A voz de Ian chegou até ela como se estivesse vindo de debaixo d'água, abafada e distorcida. Antes que seu cérebro pudesse processar completamente a ordem, ela sentiu uma pressão brutal em seu braço. A mão de Ian, forte como uma tenaz, a puxou para frente, afastando-a do epicentro do caos. Ela tropeçou sobre os destroços da porta, seus pés arrastando-se em câmera lenta através da fumaça acre que queimava seus olhos e garganta. Benjamin os seguia, um espectro ofegante e desesperado, seus soluços um contraponto trêmulo e humano à frieza mortal dos invasores.
Ian os levou para o pequeno banheiro, um cubículo apertado que cheirava a mofo e água sanitária barata. Com um solavanco, ele empurrou a tampa de um alçapão no teto que Olívia nem tinha notado, revelando uma escada de metal enferrujada que desaparecia na escuridão.
— Sobe! — a ordem de Ian era um rugido abafado, mas inquestionável.
O instinto de sobrevivência falou mais alto que o choque. Olívia agarrou os degraus frios, suas mãos tremendo não de medo, mas da adrenalina que corria desenfreada em suas veias. Ela se puxou para cima, seus músculos queimando, até que sua cabeça e ombros emergiram no telhado. A noite fria a acertou em cheio no rosto, um banho gelado de realidade que ajudou a dissipar um pouco a névoa em sua mente. Ela se arrastou para fora, ficando de pé em um telhado plano e sujo, pontilhado de antenas parabólicas enferrujadas e montes de gravetos trazidos pelo vento. Ao redor, sob a luz fraca das estrelas, estendiam-se outras cabines idênticas, um mar de telhados baixos e sombrios.
Ian surgiu atrás dela, puxando Benjamin, que caiu de joelhos, ofegante. Os olhos de Ian, faiscando no escuro, varreram o perímetro antes de se fixarem no telhado adjacente.
— Temos que pular para o próximo bloco! — ele apontou para uma lacuna de cerca de dois metros entre os dois edifícios. A distância era saltável, mas a escuridão, a altura e a textura escorregadia do outro lado a tornavam uma proposta aterradora.
Foi então que o alçapão atrás deles se abriu com um rangido metálico. Uma das figuras encapuzadas emergiu com a fluidez de uma serpente, sua arma já erguida, o cano varrendo o telhado em um arco mortal. O olhar invisível sob o capuz passou por Ian, por Matheus, que agora também subia, e se fixou em Olívia. Ela estava paralisada, exposta, um alvo perfeito contra o céu noturno.
Benjamin, que estava a seus pés, viu a cena se desenhar com uma clareza cristalina. O medo paralisante que o consumira por semanas pareceu, por um instante, se liquefazer, transformando-se em algo diferente, algo mais profundo e resoluto. Uma resignação terrível, sim, mas também uma centelha final de coragem, um último ato de redenção. Não houve grito heróico, nem palavras de despedida. Com um movimento que foi ao mesmo tempo desesperado e decidido, ele se lançou para a frente, colocando seu corpo frágil entre Olívia e o atirador.
O CRACK da arma, agora perfeitamente audível para os ouvidos de Olívia, ecoou na noite silenciosa como o som de um raio atingindo uma árvore.
— NÃO!
O grito que saiu de Olívia foi uma reação visceral, arrancada das profundezas de sua alma. Ela caiu de joelhos no cimento áspero, seus braços se estendendo para pegar Benjamin enquanto ele colapsava. O impacto do projétil o girou, e ele caiu de costas em seus braços, mais leve do que ela imaginava possível. Seus olhos arregalados fitaram o céu estrelado, mas Olívia sabia que eles não viam mais as estrelas. Um vermelho escuro começou a se espalhar com velocidade assustadora pelo peito esfarrapado de sua camisa.
— Benjamin... — seu choro era um sussurro quebrado. Suas mãos, inúteis, pressionaram o ferimento, tentando conter um fluxo que já era inexorável. — Por que você fez isso? Por quê?
Ele tentou falar. Seus lábios se moveram, mas em vez de palavras, apenas um borbulhar horrível e úmido de sangue emergiu, escorrendo pelo seu queixo. Sua mão direita, que ele mantivera cerrada o tempo todo, moveu-se com um esforço titânico. Ele estava segurando algo – um pequeno pedaço de papel, amassado, sujo de suor e agora manchado de seu próprio sangue. Com a última migalha de sua força, ele pressionou o papel na palma da mão de Olívia, fechando os dedos dela em torno dele com uma pressão surpreendentemente forte.
— Me perdoe, Olívia... — a voz de Benjamin era um sussurro rouco, um último fôlego que cheirava a cobre e morte. — Eu realmente amei você. — ele ofegou, cada palavra um custo imenso.
Então, o corpo em seus braços mudou. Um último, suave suspiro escapou de seus lábios, um som de rendição total. O peso que ela segurava não era mais o de um homem, mas o de uma ausência, de uma casca vazia.
Na tela, imagens granuladas e trêmulas, capturadas por uma lente de segurança ou talvez por uma câmera de corpo, mostravam a fuga caótica. A figura observava, sem uma única contração muscular que denotasse emoção, o momento exato em que Benjamin tomava a bala, o grito silencioso de Olívia, o salto desesperado para a liberdade.
Um som de bip suave veio do interfone na mesa.
— Entre.
A porta se abriu e um homem de terno impecável, com uma postura militar, entrou e fechou a porta silenciosamente atrás de si.
— O problema Benjamin foi resolvido — o homem informou, sua voz neutra e impessoal.
Na tela, a imagem congelou no rosto de Olívia, capturado em um momento de puro horror.
A Segunda inclinou a cabeça, um movimento quase imperceptível. Um sorriso lento e frio, que não alcançou os olhos, tocou seus lábios.
— Muito bem — a voz que saiu era suave, melodiosa, mas carregada de uma autoridade absoluta. — Agora lidem com os outros. Comecem pela veterinária. Ela... incomoda.

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