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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 253

A madrugada havia engolido a mansão, mas o silêncio era mais opressivo que qualquer barulho. Olívia vagava pelos corredores como um fantasma, as mãos ainda tremendo, o vestido manchado trocado por um roupão de banho que não conseguia aquecer o frio que vinha de dentro.

Seus pés a levaram até uma porta que ela raramente ultrapassava: o estúdio de Ian. A luz vazava por baixo da porta, um retângulo dourado no escuro do corredor. Ela hesitou. Dentro, sabia, estava o homem que havia testemunhado o mesmo horror que ela. O homem que carregava uma culpa diferente, mas igualmente pesada.

Ela empurrou a porta sem bater.

Ian estava de pé diante da grande janela que dava para os jardins negros, seu perfil cortado contra o vidro. Na mão, um copo de uísque, intocado. No ar, o cheiro de madeira encerada e tensão. Ele se virou lentamente, como se seus movimentos exigissem um esforço imenso. Seus olhos, normalmente tão impenetráveis, estavam devastados. Vermelhos. Humanos de uma forma que ela nunca vira.

— Não consegue dormir — ele disse, não como pergunta, mas como constatação. Sua voz era áspera, carregada de fumaça e emoção reprimida.

— Não — ela sussurrou, fechando a porta atrás de si. O estúdio era um santuário de couro e livros antigos, mas naquele momento parecia uma cela. — O quarto é muito silencioso. O silêncio… ele traz os sons de volta. O estampido. O… o grito.

Ela viu o corpo de Ian se tensionar, como se tivesse levado um golpe físico.

— Olívia… — ele começou, mas as palavras pareciam falhar. Ele colocou o copo na mesa com um baque surdo e passou a mão pelo rosto. — Eu não deveria ter deixado você entrar naquele carro. Eu não deveria ter levado você até lá. Cada vez que fecho os olhos, vejo você ajoelhada naquele telhado, coberta do… dele. E é minha culpa. Toda.

— Não, Ian — ela disse, cruzando o quarto em direção a ele. Suas pernas pareciam de chumbo. — Você não atirou. Você não deu a ordem.

— Mas eu o coloquei na mira! — a explosão veio de repente, um rugido de fúria e dor que fez Olívia estremecer. Ian bateu o punho fechado na moldura da janela, fazendo o vidro tremer. — Eu o pressionei! Eu o forcei a falar, sabendo que ele estava apavorado, sabendo que alguém estava atrás dele! Eu joguei ele aos lobos para conseguir minhas respostas! E o preço… — sua voz quebrou — o preço foi você. Ver você naquela situação. Ver o horror no seu rosto. Isso é uma tortura que eu mesmo criei.

Ele se virou completamente para ela, e a dor crua em seu rosto foi quase insuportável de se ver.

— Todos morreram, Olívia — ele sussurrou, a voz agora um fio arrasado. — Minha mãe. Meu pai. Meu irmão. Meu avô, mesmo sendo um monstro. Agora Benjamin, que era… que era o filho do meu melhor amigo, meu sobrinho. Todos que tocaram nessa família, que se aproximaram de mim… morreram. Sou uma maldição ambulante. E quase… quase te perdi também.

Foi demais. A barreira que Olívia mantivera desde o motel — para ser forte, para não desabar na frente de Léo, na frente de Helena — rachou. Um soluço abafado escapou de seus lábios, e então as lágrimas vieram, silenciosas e implacáveis.

Ian cruzou a distância entre eles em dois passos. Suas mãos, que pareciam capazes de tanta violência, tocaram seu rosto com uma ternura devastadora.

— Não me diga que não — ele implorou, seus polegares enxugando suas lágrimas. — Eu vi a verdade hoje. Vi o quão frágil tudo é. Como posso te proteger de algo que nem consigo nomear? Como posso manter você e Léo seguros se o perigo está nas sombras que eu mesmo não vejo?

Olívia colocou as mãos sobre as dele, sentindo a força trêmula sob seus dedos.

Ele a estudou, seus olhos percorrendo cada traço de seu rosto — a determinação teimosa no queixo, a vulnerabilidade nos olhos, a força que brotava das cinzas do trauma. Algo se rompeu dentro dele. A postura de protetor inflexível, a armadura de chefe implacável, racharam. Restou apenas o homem. Assustado. Cansado. E profundamente, irremediavelmente apaixonado.

Com um som que era meio suspiro, meio rendição, ele a puxou para si.

O beijo não foi gentil. Não foi suave. Foi uma colisão de almas devastadas, uma confirmação desesperada de vida em meio à morte. Era salgado pelas lágrimas de ambos, áspero pela dor, intenso pela promessa não dita de que, juntos, talvez conseguissem suportar o peso. As mãos de Ian se enterraram em seus cabelos, puxando-a mais perto, como se pudesse fundi-la a si mesmo, criar uma fortaleza de dois corpos só. As mãos de Olívia agarravam as costas dele, os dedos pressionando o tecido da camisa, ancorando-se na solidez dele, na prova viva de que nem tudo estava perdido.

Quando se separaram, estavam ofegantes. A dor ainda estava lá, nos cantos dos olhos, na tensão dos ombros. Mas algo novo também: uma solidificação. Uma decisão.

— Juntos — Ian raspou, sua testa ainda apoiada na dela. — Mas sob minhas regras. Você não faz mais nada sem eu saber. Você não vai a lugar nenhum sem proteção. Léo será guardado dia e noite. Isso não é negociável.

Olívia assentiu freneticamente, não havia nada que ela concordasse mais do que aquilo.

— E agora vamos lutar, Ian. O fim está próximo.

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