A madrugada ainda segurava a mansão em suas garras cinzentas quando Olívia acordou com um arranco. Não foi um pesadelo que a tirou do sono, mas uma queimação física na palma da mão, como se o papel que ali estava dobrado houvesse se tornado uma brasa. O pedaço de papel, amassado e escurecido pelo sangue seco de Benjamin, parecia pulsar contra sua pele.
Ian dormia ao seu lado, um sono inquieto, seus músculos ainda tensionados mesmo no repouso. Olívia deslizou para fora da cama, o piso frio de mármore sob seus pés descalços. Ela foi até a janela, onde a primeira luz do amanhecer começava a rasgar o céu.
Com dedos que tremiam não de medo, mas de uma urgência quase mística, ela desdobrou o papel. O sangue havia secado, tornando o papel rígido e quebradiço. A tinta – uma caneta esferográfica barata – havia corrido em alguns lugares, misturada com o vermelho escuro. Benjamin escrevera apressadamente, a letra trêmula e angulada.
Ela inclinou o papel contra a luz crescente. As palavras eram um quebra-cabeça macabro:
"A SEGUNDA É... L..."
E ali acabava. O resto da linha era uma mancha marrom-avermelhada onde o sangue havia encharcado completamente o papel, dissolvendo a tinta. Abaixo, mais algumas palavras ilegíveis, exceto por fragmentos: "...contro... polí... tudo..." e no canto inferior, algo que poderia ser um "M" ou um "W" distorcido.
Um "L". Apenas um "L". Um mundo de possibilidades mortais em uma única letra. Lucas? Leonardo? Larissa? Luiz? Uma alcunha? Um código?
— O que você encontrou?
A voz de Ian, rouca do sono, fez ela se virar. Ele estava sentado na cama, seus olhos já alertas, escaneando-a e então fixando-se no papel em suas mãos.
— Quase nada — ela respondeu, a voz surpreendentemente estável. — Só uma letra. "L". O resto… o sangue apagou.
Ian levantou-se, vestindo apenas um pijama de seda preta que destacava a palidez de sua pele. Ele pegou o papel de suas mãos, estudando-o com a intensidade de um perito forense.
— "L" — ele repetiu, o som saindo como um suspiro carregado. — Poderia ser qualquer um. Ou poderia ser ninguém. Poderia ser o início de "Laranja" por tudo que sabemos.
— Mas não é — Olívia disse, com certeza. — Ele morreu para escrever isso. É importante. É real.
Ian levantou os olhos para ela, seu rosto sombrio. — Matheus está na sala de comando desde as quatro da manhã. A equipe de reforço chega em uma hora.
A transformação da mansão começou ao nascer do sol.
Veículos utilitários pretos, sem identificação, subiram a alameda principal. Deles saíram homens e mulheres vestidos com uniformes táticos discretos, de movimentos precisos e olhos que nunca paravam de se mover. Não eram seguranças comuns; eram militares de alguma unidade que não existia em registros oficiais.
Matheus supervisionava tudo, seu rosto uma máscara de concentração profissional. Ele e Ian estavam no pátio quando o líder da equipe, um homem alto de cabelo raspado e cicatriz no queixo que se identificou apenas como "Capitão", fez seu resumo.
— A propriedade está agora dividida em três zonas de segurança — o Capitão explicava, apontando para um tablet. — Zona Verde: áreas residenciais internas. Zona Âmbar: jardins e perímetro interno. Zona Vermelha: muros externos e floresta. Ninguém entra ou sai da Zona Vermelha sem minha autorização. Ninguém.
— E meu filho? — Ian perguntou, sua voz baixa mas carregada de uma autoridade que rivalizava com a do militar.
— O menino e a Sra. Moretti terão acompanhamento em movimento. Dois agentes, revezamento 24/7, mesmo dentro da casa. Nosso sistema de câmeras tem reconhecimento facial e análise de comportamento. Se uma mosca pousar no muro errado, saberemos.
Olívia observava da varanda, enrolando o roupão ao redor do corpo. A mansão transformava-se diante de seus olhos em uma fortaleza. Homens instalavam sensores de movimento nos jardins. Outros subiam nos telhados com equipamentos de vigilância de longo alcance. O ar, antes perfumado por jasmins, agora cheirava a concreto, tecnologia e tensão.
Foi então que um pequeno toque na perna a fez olhar para baixo.
Léo estava ali, de pijama, seus cachinhos uma coroa desalinhada. Ele segurava seu ursinho, mas seus olhos – os olhos tão parecidos com os de Ian – estavam fixos no seu rosto.
— Mamãe chorou? — ele perguntou, sua voz pequena e séria.
Olívia sentou-se nos degraus da varanda, nivelando-se com ele.
— Sim, meu amor. Chorei um pouco.
— Por quê?
Como explicar a um menino de cinco anos que o mundo era um lugar onde homens morriam para proteger segredos, onde a sombra de um perigo sem nome se estendia sobre eles como uma asa negra?
— Porque… uma pessoa que a mamãe conhecia foi embora. E ela ficou triste.
Léo estudou seu rosto com uma sabedoria que ia além de seus anos.
— O tio Ben foi embora?
O coração de Olívia parou.
— Como você sabe sobre o tio Ben?
— A tia Helena falou — ele disse simplesmente. — Ela disse que o tio Ben foi para um lugar muito longe, e que a mamãe estava com o coração doendo.
— Não podemos não ir — ele disse. — Seria uma admissão de culpa. De medo. E Olívia… — ele olhou para ela, que acabara de entrar com Léo pela mão — ela precisa de um fechamento. Mesmo que ele tenha sido o que foi, foi marido dela.
— E seu sobrinho. — Olívia acrescentou.
Ainda assim, Olívia sentiu todas as células do seu corpo se rebelarem contra a ideia. Voltar a um lugar público. Expor-se. Expor Léo.
— É uma armadilha — ela disse, a voz clara na sala cheia de tecnologia silenciosa. — Quem quer que seja essa "L", saberá que estaremos lá. Será o lugar perfeito para… um ataque. Ou uma mensagem.
— Ou um desaparecimento — Matheus completou, sombrio. — É um cemitério grande, com vielas, mausoléus antigos. Alguém poderia sumir lá e só ser encontrado dias depois.
— Mas é aí que está nossa chance — Ian contra-atacou, seus olhos faiscando com um novo plano. — Se é uma armadilha, nós a viramos. Vamos controlar o local. Matheus, você pode colocar homens lá?
— Posso disfarçar pelo menos quinze agentes como enlutados, jardineiros, coveiros — Matheus assentiu, já processando. — Mas, Ian… se a "Segunda" tem influência na polícia, como Benjamin disse, eles saberão. Eles verão.
— Então deixe-os ver — Ian disse, sua voz baixa e perigosa. — Deixe-os ver que não estamos mais nos escondendo. Que estamos prontos. Que vamos enterrar Benjamin, mas não vamos enterrar a investigação.
Olívia olhou para o rosto de Ian, para a fúria fria e controlada nele. Este era o Ian que derrubava impérios no mundo dos negócios. Agora, ele estava trazendo essa mesma ferocidade para esta guerra sombria.
— Eu vou — ela disse, surpreendendo a si mesma. — Léo não. Ele fica aqui, com Helena. Mas eu vou. Preciso… preciso ver ele descansar. E — ela acrescentou, seu olhar encontrando o de Ian — preciso ver quem mais aparece para dizer adeus.
A sala ficou em silêncio por um momento, apenas o zumbido baixo dos computadores preenchendo o ar.
— O funeral será um campo de guerra — Matheus resumiu, sua mão descansando no coldre de sua arma. — E nós seremos o exército oculto.
Léo, que observava tudo em silêncio, apertou a mão de sua mãe.
— Tem muitos monstros lá fora, mamãe?
Olívia olhou para a tela que mostrava os jardins agora militarizados, para os homens armados patrulhando seus próprios muros, para o papel ensanguentado sobre a mesa que continha uma única letra capaz de detonar o que restava de suas vidas.
— Sim, meu amor — ela sussurrou, puxando-o para perto. — Mas desta vez, nós estamos preparados.

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