O mundo desintegrou-se em câmera lenta.
Olívia viu os lábios de Carolina se moverem, formando palavras que pareciam surgir de um pesadelo submarino.
"Eu vou ter um bebê do Ian."
O som chegou aos seus ouvidos amortecido, distorcido, como se passasse por quilômetros de água. A imagem ao seu lado desfocou: o céu cinza fundiu-se com as lápides, os ciprestes dobraram-se como varetas de incenso. Tudo desapareceu, exceto o rosto de Carolina e o lenço branco que tremulava em sua mão como a bandeira de uma rendição venenosa.
Dentro dela, uma memória antiga rasgou o presente ao meio: Benjamin, anos atrás, na sua sala. O perfume barato de outra mulher em cada cômodo. A mesma expressão de culpa presa na garganta. A sensação foi idêntica. O mesmo vácuo súbito sob os pés, o mesmo gosto de metal e mentira na língua. Só que pior. Infinitamente pior. Porque com Benjamin, ela sempre soubera, no fundo, que ele era fraco. Com Ian… com Ian ela acreditara na fortaleza.
Ian não desfocou. Ele explodiu. A negação não foi um processo mental; foi uma reação física, visceral. Seu corpo inteiro tensionou como uma corda de arco prestes a estalar. Um rosnado gutural escapou-lhe antes mesmo das palavras.
— MENTIRA! — o grito ecoou entre os túmulos, um som primitivo de raiva e puro horror.
Ele avançou. Não como um homem, mas como uma força da natureza, um furacão de linhas caras e fúria ancestral direcionado a Carolina. Seus olhos não viam mais a mulher; viam uma aberração, um câncer que precisava ser extirpado à força. Sua mão ergueu-se, não para bater, mas como se fosse arrancar a mentira do ar com as garras.
Foi então que Matheus materializou-se das sombras de um grande mausoléu. Não correu. Simplesmente apareceu, colocando seu corpo sólido e largo entre Ian e Carolina. Ele não agarrou Ian, apenas bloqueou seu caminho, um muro humano impenetrável.
— Ian — a voz de Matheus era baixa, uma corrente de aço sob tensão. — Não.
Ian tentou contorná-lo, seus olhos faiscando com uma luz perigosa.
—Ela está mentindo, Matheus! Sai da minha frente!
Carolina recuou um passo, o triunfo em seus olhos misturando-se a um medo genuíno e profundo. Ela viu a fúria de Ian e sabia que era real. Mas também viu Olívia paralisada, desintegrando-se, e isso… isso era parte do plano. Um triunfo doente, amargo.
— Não é mentira, Ian — ela sussurrou, sua voz trêmula, mas insistente. — Você não consegue lembrar… estava fora de si, bêbado de raiva e uísque… mas aconteceu. Naquela noite horrível. Aconteceu.
— Você é louca! — Ian cuspiu, ainda contido pelo corpo de Matheus. — Doente! Você me drogou, você abusou da situação para inventar essa… essa aberração!
Carolina fechou os olhos por um segundo, como se reunindo coragem. Então, com um movimento rápido, abriu a bolsa de clutch preta que carregava. Seus dedos, finos e nervosos, pescaram um papel dobrado. Um exame médico.
— Não é invenção — ela disse, e sua voz ganhou um fio de desafio. Ela não olhou para Ian. Olhou para Olívia. E estendeu o papel na direção dela, antes de deixá-lo cair, deliberadamente, no cascalho cinza entre elas. — É biologia. Confirmação. Quatro semanas. As datas… batem. Com aquela noite.
O papel aterrissou com um leve tapa. Um documento limpo, oficial, com um carimbo azul e linhas de dados. Um raio de sol fraco atravessou as nuvens e incidiu sobre ele, fazendo-o brilhar obscenamente contra a pedra triturada.
Olívia olhou para baixo. A náusea subiu tão rápido e violenta que ela levou a mão à boca. Não era o nojo da gravidez. Era o nojo do símbolo. A prova física da traição, ali, na terra que acabara de receber Benjamin. Tudo era contaminado. A morte, o luto, o amor. Tudo era mentira.
— Ian… — a palavra saiu de seus lábios, um sopro quebrado.
Ele seguiu seu olhar até o papel e sua raiva atingiu um novo patamar, tingido de desespero.
— Olívia, não olhe para isso! É uma farsa! É impossível! — Ele tentou se mover novamente, mas Matheus manteve a posição. — Mesmo se… mesmo se algo tivesse acontecido naquela noite, o que não aconteceu, seria impossível! Eu tenho certeza!
Carolina ergueu o queixo, uma lágrima fingida escorrendo por sua face.
— Ah, é? — ela sussurrou, o desafio agora claro. — Parece que não.
Algo em Olívia estalou. O som voltou de repente, um influxo brutal de ruído: o vento, os pássaros, a própria respiração ofegante de Ian. E com ele, a dor. A dor aguda, dilacerante, de ser traída. De novo. Percorreu cada centímetro de seu corpo, um fogo líquido que queimava por dentro. Ela não suportou. Não suportou ficar ali mais um segundo, vendo aquele papel, vendo a cara de Carolina, vendo o desespero nos olhos de Ian que podia ser culpa ou podia ser verdade.
Ela se virou e fugiu.

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