O silêncio na capela era denso, úmido, preenchido apenas pelo som da respiração ofegante de Olívia. A revelação de Ian pairou no ar entre eles como um objeto físico - pesado, íntimo, devastador. Vasectomia. A palavra ecoou em sua mente, colidindo com os destroços da acusação de Carolina.
Ela sentiu um novo tipo de náusea, não do nojo da traição, mas do véu sendo arrancado de um segredo tão profundo, de uma decisão que afetava tanto o futuro dela... deles.
— Por quê? — a pergunta saiu em um sussurro rouco. Ela se soltou do seu aperto, mas não recuou. Precisava ver seu rosto. — Por que você faria isso... logo depois de descobrir sobre Léo?
Ian deixou os braços caírem, seus ombros cedendo sob o peso da memória. Ele se virou, andou alguns passos até o altar empoeirado e apoiou as mãos na pedra fria.
— Porque quando soube que era pai do Léo... e que você escondeu isso de mim durante todos aqueles anos — ele não disse com acusação, mas com uma dor resignada — algo dentro de mim rachou. Eu tinha um filho. Um milagre que eu não merecia. E ao mesmo tempo, a prova final de que minha vida, minhas escolhas, meu corpo... não eram realmente meus. Tinham consequências que poderiam me destruir, ou destruir pessoas inocentes.
Ele se virou para encará-la, seus olhos eram poços de escuridão no rosto pálido.
— Naquele mesmo dia, Olívia. Fui a uma clínica particular, usei um nome falso, e fiz o procedimento. Era uma decisão de controle. Se eu não podia controlar o passado, pelo menos controlaria o futuro. Nenhuma outra pessoa usaria uma possível gravidez como moeda de barganha contra mim. Nunca mais.
Olívia engoliu em seco. A lógica era cruel, mas ela conseguia entender. O mundo de Ian era feito de controle. E ele havia perdido o controle de algo fundamental.
— E aquela noite... com Carolina — Olívia forçou as palavras a saírem. — Por que você foi até ela?
Ian fechou os olhos, como se afastando de uma memória venenosa.
— Alexander voltou — ele disse, o nome saindo como uma maldição. — Meu amado irmão perdido decidiu presentear-me com uma informação de presente de boas-vindas. Descobri que anos atrás, quando Carolina e eu ainda... — ele hesitou — ...namorávamos, ela engravidou. E abortou. Sem nunca me contar. Alexander tinha documentos, testemunhas compradas. Fui até a casa dela confrontá-la. Estava cego de raiva. De sentir que minha vida inteira era uma peça de teatro onde outros escreviam as cenas.
— Você estava bêbado? — Olívia perguntou, sua voz ainda trêmula.
— Estava furioso — Ian corrigiu, seus olhos se abrindo. — Bebi, sim. Mas não o suficiente para... para fazer o que ela alega. Lembro de brigarmos. Lembro de ameaçá-la com expor tudo. Lembro de tomar uma garrafa de vinho sobre a mesa dela. O resto... — ele balançou a cabeça — o resto são lacunas. Mas não essas lacunas. Isso, ela inventou.
Olívia respirou fundo. A lógica se encaixava. A raiva de Ian, sua paranóia com controle após a descoberta sobre Léo e sobre o aborto secreto...
— Então tudo isso... só provou para você que precisava ter feito a cirurgia — ela concluiu, sua voz mais suave.
— Exatamente — Ian confirmou, um fio de amargura em seu tom. — Não deixaria mais ninguém usar isso contra mim. Minha fertilidade, ou a falta dela, seria minha escolha.
Um silêncio caiu. Então, Olívia soltou um som que nem ela esperava - um riso curto, seco, quase histérico.
— Então basicamente — ela disse, limpando uma lágrima com o dedo — você não sabe controlar seu... pau, e decidiu resolver o problema na fonte.
Ian a encarou, surpreso. Por um segundo, uma faísca de algo que parecia alívio cruzou seus olhos. Ele quase sorriu.
— Quando você diz assim... soa patético.
— É um pouco — ela admitiu, e por um momento fugaz, a tensão entre eles se dissipou, substituída por um entendimento cansado e compartilhado do absurdo da situação.
Mas o momento passou rápido. A expressão de Olívia ficou séria novamente, seus olhos se perdendo na poeira que dançava em um raio de sol fraco que entrava por uma fresta na parede.
— Isso quer dizer — ela começou, sua voz tão baixa que Ian teve que se inclinar para ouvir — que nós... nunca teremos mais nenhum filho?
A pergunta pairou no ar, carregada de um peso diferente. Não era mais sobre Carolina, ou sobre traição. Era sobre eles. Sobre o futuro que, em meio ao caos, eles mal haviam começado a imaginar.
Ian ficou imóvel. A pergunta claramente o pegou de surpresa. Ele não tinha considerado esse ângulo - não quando estava tão focado em se defender, em provar sua inocência.
— Eu... — ele começou, mas as palavras falharam. A resposta era óbvia, mas dizê-la em voz alta parecia um golpe brutal. — A cirurgia é... permanente, Olívia.
Ela fechou os olhos. Uma única lágrima escapou e rolou por sua face. Não era pelo filho que eles poderiam ter tido - era pela escolha que lhe fora roubada. Pela normalidade que parecia sempre fugir de seu alcance.
— Entendo — ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele.
Ela se levantou, as pernas trêmulas. Seus dedos encontraram o bolso do vestido rasgado e puxaram o envelope amassado, o papel que o vulto anônimo havia deixado cair.
— Eu... eu vim te procurar antes, por causa disso — ela disse, estendendo-o para ele. Sua voz estava morta, plana. — Alguém me deixou isso perto do túmulo. Diz que não quer me machucar. Que quer me proteger "deles".
Ian pegou o envelope, seus olhos escaneando rapidamente a caligrafia. Seu rosto se tornou ainda mais sombrio.

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