O som da voz de Ian cortou o ar como um tiro, apenas o estalo seco soando.
— Que porra você está fazendo aqui?
O garfo de Olívia parou no a, enquanto ainda ouvia a voz dele ecoando, zumbindo em toda sua indignação e raiva.
Ela piscou, tentando entender se tinha ouvido certo.
Demorou um segundo para perceber que ele não estava falando com ela.
O olhar dele passava direto, atravessando-a, cortando a sala, frio e concentrado, até se fixar na mulher de branco sentada na frente do Leo.
Carol.
A enfermeira se levantou devagar, como quem saboreia o desconforto. Cada movimento calculado para incomodar. Um sorriso breve apareceu em seus lábios e não tinha nada de acolhedor ou alegria. Era algo... Torto. Quase desafiador. Era o tipo de sorriso que dizia “eu sei exatamente onde te ferir”.
O corpo de Olívia reagiu antes da mente. Sentiu um arrepio gelado percorrer sua nuca. Aquela ali não parecia em nada com a garota doce que ela estava conversando a cerca de dois minutos atrás.
O jeito que Ian a encarava… não era simples surpresa. Era puro ódio. E não qualquer ódio, era aquele que vem com história.
E o jeito que Carol continuava sorrindo... era como quem sabia exatamente onde cutucar.
— Ian…? — Olívia se levantou, se erguendo da cadeira, instintivamente se colocando no meio, entre eles. — O que está acontecendo?
Carol não respondeu. Nem desviou o olhar dele. Apenas manteve os olhos presos em Ian, como se Olivia nem estivesse ali. O sorriso seguia, mais sutil, mais perigoso. Mas agora tinha algo a mais... um brilho quase divertido.
O silêncio que ela carregava tinha a mesma força de uma provocação gritante. E Ian percebeu tudo isso. Ian odiou tudo isso.
Ele deu um passo à frente, cada músculo visivelmente tenso.
— Eu vou perguntar só mais uma vez. — A voz dele estava mais baixa agora, e isso só a tornou mais ameaçadora. — O que você está fazendo aqui?
Olívia olhou de um para o outro, sentindo o peso do ar. Ela olhou novamente para Carol, tentando decifrar aquela postura. Como alguém poderia ficar tão tranquila diante de tanta raiva?
O coração dela acelerou.
“Eu nunca vi Ian assim...” pensou ela. “Nunca vi ninguém olhar para outra pessoa dessa forma.”
Carol parecia encantadoramente indefesa. Divertida ao extremo. Qual motivo de tanto ódio? Ou será que ela havia simulado todos os seus sorrisos antes?
Carol inclinou levemente a cabeça para o lado, como quem avalia uma obra de arte. Outra vez, não respondeu. Apenas ergueu uma sobrancelha.
Olivia tentou intervir, forçando a voz e tentando segurar a situação:
— Ian, tem uma criança aqui. — Ela tentou falar mais firme, mas a voz traiu a tensão que sentia. O olhar dela pediu, implorou, exigiu que ele baixasse o tom. — Mede as palavras.
Ela virou para Leo, que continuava tranquilo, focado na torrada e alheio a guerra nem tão silenciosa que se desenrolava.
Ele nem piscou. Não tirou os olhos de Carol.
— Sai daqui, Olívia. — A ordem veio fria, sem direcionar o olhar para ela.
— Vamos, Léo. — A voz dela saiu firme do que se sentia, quase dura. — Vamos subir agora.
Carol não se moveu. Não piscou. Não parou de sorrir. Nem mesmo quando Olivia passou por ela.
No corredor, Olívia olhou para trás uma última vez.
Ian ainda estava parado no mesmo lugar, ombros tensos, o olhar cravado na loira. Ele e Carol estavam a poucos passos de distância, frente a frente. Perto o suficiente para começar uma guerra. Pareciam presos um ao outro por uma corrente invisível e perigosa.
Aquela não era só raiva.
Era história mal resolvida.
E história assim… sempre volta para cobrar.
Olivia fechou a porta atrás de si, prendendo o ar no peito. Infelizmente, não havia saída ali. Não havia como desaparecer. Sabia que estava protegendo Leo de algo que não entendia. Porque todavia, não sabia o que tinha acabado de presenciar. Mas sabia que precisava manter Léo longe daquilo.
Porque a certeza de Olivia era que corações se partiam ali, naquela maldita mansão.
E na cozinha, assim que o silêncio caiu, se prolongando, Carol deu um passo a frente finalmente sozinha com Ian, decidiu falar com seu tom doce que soava como veneno.
A voz macia como seda, mas afiada como faca soou:
— Oi, amor… você sentiu minha falta?

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