A sala de jantar parecia menor com os dois ali. Mergulhada em um silêncio assim que os dois ficaram a sós.
Não era o silêncio natural de uma manhã preguiçosa e calma, mas aquele tipo que se instala quando duas pessoas estão prestes a se atacar.
Carolina permanecia de pé. Estava encostada na mesa, mãos pousadas levemente sobre a cadeira, o sorriso curto e irônico, como se tivesse acabado de vencer uma batalha invisível, mas que não chegava aos olhos.
Ian, parado a pouco passos de distância dela, parecia uma tempestade prestes a romper. Ombros tensos, maxilar travado, respiração pesada. Quando ele entrou na mansão naquela manhã estava mal, e achou que não poderia ficar pior. Mas estava errado.
— O que você está fazendo aqui? — ele tornou a repetir, voz dele saiu grave, baixa, com aquele tom que não pedia resposta... exigia.
Carol não respondeu de imediato. Olhou para Ian como quem saboreia o momento antes de cravar o golpe.
— Essa é a sua recepção? — Carolina arqueou uma sobrancelha, o olhar deslizando de cima a baixo como se estivesse analisando um objeto caro que perdeu o brilho. — Achei que ficaria feliz em me ver.
Ian deu um passo à frente, o corpo inteiro carregado de tensão.
— Responde. — A palavra saiu quase como um rugido contido.
— Fiquei sabendo que o grande Ian Moretti finalmente se amarrou. — O deboche estava em cada sílaba. — E não é que é verdade? Uma noiva nova... uma nova peça no seu tabuleiro. Me perguntei como você se apaixonou tão rápido. Então, só quis conhecer a noiva.
Ele estreitou os olhos.
— Você não foi convidada.
— Como se isso fosse me impedir. — Ela deu um meio sorriso. — Sabe, quando ouvi que você estava “comprometido”, não resisti à curiosidade. Tive que ver por mim mesma. Afinal... é real dessa vez? Ou é mais uma das suas encenações?
Ian riu, um som seco.
— Não finja que você não precisava de mim. — Carol acrescentou.
— Você recusou. Lembra disso? — O tom era baixo, mas carregado de ódio. — Quando eu propus... Você riu na minha cara, Carolina.
— Pessoas mudam de ideia — ela rebateu, sem desviar o olhar. — Eu mudei de ideia. — acrescenta, como se fosse algo trivial.
Via a mentira nos seus olhos azuis. Os mesmos olhos que podem quebrar uma alma.
— É claro que mudou. — Ian soltou um sorriso seco e se aproximou, o rosto a centímetros do dela. — Só que agora eu não quero nem de graça. Naquela época eu estava desesperado. Porque já te desprezava. E isso não mudou. Não pense que você é especial.
O sorriso dela permaneceu, mas a raiva brilhou por trás dos olhos. Finalmente a atingiu.
— Bonito ouvir isso de você. — Carol rebateu, ajeitando uma mecha de cabelo com calma. — Ainda mais vindo de alguém dizia que eu era a única pessoa que ele podia confiar.
Ian apertou o maxilar, como se segurasse as palavras. O olhar dele escureceu.
— Confiança? — Ele soltou uma risada amarga. — Você destruiu isso muito antes de eu pensar em te pedir qualquer coisa.
Ela inclinou a cabeça, como quem aceita a provocação.
— Vamos lá, Ian. Você ainda sabe como eu gosto do meu café, não é? E minhas músicas favoritas de cor? Leu todos os meus livros de cabeceira? Isso não tem como esquecer. Você realmente quer se convencer que nós dois ficamos no passado? Que está feliz por estar me perdendo?
— Você nunca foi minha para eu perder.
— Talvez. Mas a verdade é que você nunca me conheceu de verdade, Ian. Porque quando eu te disse te amo, eu não estava brincando.
— Eu conheço bem o suficiente para saber que sua presença aqui é um problema. — Ele cruzou os braços, olhando para ela como um predador analisando a presa. — Como entrou? Quem deixou você pisar nesta casa?
— Coincidência — disse, fingindo inocência e sorrindo. — Estava procurando emprego de home care e vi o endereço. Quando soube que era o mesmo lugar da mansão, eu sabia que tinha que aceitar.
Ian respirou fundo, controlando a raiva.
— Isso termina hoje.
Carol se inclinou, roçando os lábios próximos ao ouvido dele, o sussurro gelado:
— Se eu cair, Ian... você cai comigo.
Ian a fitou por um instante, os olhos queimando como se quisessem atravessá-la.
Depois se afastou, devagar, com a promessa gravada no olhar:
— Então reza pra eu não te empurrar primeiro.
Ele então deu as costas a ela e subiu as escadas, seus passos pesados ecoando. Ainda cego em sua raiva e ódio. De nada adiantaria permanecer ali, fechando e abrindo feridas.
Quando chegou ao corredor, surgiu na porta do quarto de Leo. O rosto sombrio, quase esculpido em raiva contida, o semblante carregado.
— Precisamos conversar. Agora. — ele anuncia.
Olivia terminou de dobrar uma camisa devagar e encarou-o, engolindo em seco.
— Sobre a Carol?
Ele manteve o olhar fixo.
— Sobre muita coisa.

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