O som do corpo de Olívia batendo nos degraus de pedra da capela ecoou nos ossos de Ian como um sino fúnebre. Ele a pegou antes que sua cabeça atingisse o chão. Era leve demais. Frágil demais. Um contraste violento com o fogo nuclear que consumia suas próprias entranhas.
Ele a levou até o carro, seus movimentos mecânicos, precisos. A raiva era uma entidade viva dentro dele, pulsando com cada batida do seu coração, alimentada pela imagem queimada em sua retina: o carrinho vermelho de Léo, o brinquedo barato e amado, na mão suja de um estranho. O sorriso cruel. A provocação muda.
Tocaram no que é meu.
A frase girava em sua mente, primitiva, absoluta. Não era sobre posse. Era sobre território. Sobre o santuário violado. O quarto do seu filho. A paz da sua mulher.
Ele a colocou no banco de trás do Aston Martin, seu rosto de porcelana pálida contra o couro preto. Matheus tentou bloqueá-lo.
— Ian, espere. É o que eles querem. Que você aja sozinho, por impulso.
Ian ergueu o olhar. O que Matheus viu fez o segurança endurecer. Não era a fúria explosiva do CEO arrogante. Era algo muito mais silencioso e muito mais perigoso. Uma calma glacial, onde a turbulência tinha congelado.
— Eles pegaram o brinquedo do meu filho, Matheus — a voz de Ian saiu plana, sem inflexão. — Eles olharam para Olívia e sorriram. Eles não querem que eu aja por impulso. Querem que eu os encontre. E é exatamente o que vou fazer.
Ele empurrou o homem capturado — o que ficara para trás com a perna sangrando — para o porta-malas. O homem gemeu, mas um olhar de Ian o silenciou. Aquele olhar não prometia dor. Prometia extinção.
Não houve discurso. Não houve plano. Ian entrou no carro e dirigiu para um dos armazéns abandonados da empresa fantasma dos Moretti à beira do rio. Conhecia o lugar. Concreto, escuridão, isolamento. O eco perfeito para o que havia se tornado.
O interior do armazém cheirava a mofo, óleo velho e água parada. Ian arrastou o homem para dentro, seus sapatos arrastando na sujeira. A única luz vinha de uma lâmpada pendente de LED que ele trouxera, cujo brilho cru criava sombras agressivas nas paredes vazias.
Ele amarrou o homem a uma pesada cadeira de metal, herança de algum escritório esquecido. A fita adesiva prateada brilhava grotescamente no pulso sujo do capturado.
Ian não disse uma palavra. Arrancou a mordaça.
O homem ofegou, seus olhos esbugalhados varrendo o espaço vazio, depois fixando-se em Ian.
— Por favor… eu só… segui ordens…
Ian ignorou o pedido. Circulou a cadeira, seus passos ecoando no vasto espaço.
— Vocês foram à minha casa — a voz de Ian quebrou o silêncio, um corte limpo no ar pesado. — Um de vocês andou pelo quarto do meu filho de cinco anos. Tocou nos brinquedos dele. Escolheu um. Roubou.
— Não fui eu! — o homem gaguejou. — Eu estava no perímetro! Foi o outro, o Russo!
— E depois — Ian continuou, como se não tivesse ouvido — vocês foram ao cemitério. Viram a minha mulher. Olharam para ela. E um de vocês sorriu enquanto a via cair.
Ian parou atrás da cadeira. O homem tentou virar a cabeça, mas não conseguiu. Só podia sentir a presença, o perigo iminente.
— Você sabe o que é ter uma família? — Ian perguntou, sua voz sussurrando perto do ouvido do homem. — Não estou falando de sangue. Estou falando da coisa que você protege mesmo quando não há mais nada para proteger. A coisa pela qual você rasga o mundo ao meio se for preciso.
— Eu tenho filha… — o homem soluçou.
Ian deu a volta e ficou de frente para ele. Seus olhos eram buracos negros.
— Então você entende. Agora me diga: quem mandou vocês tocarem na minha?
O homem tremeu. O conflito era visível em seu rosto: o medo do homem à sua frente contra o medo de quem o havia contratado.
— Eles… eles vão matar minha família.
— EU VOU TE MATAR AGORA! — o rugido de Ian explodiu no armazém, um som de pura fúria animal que fez o homem gritar.
Ian avançou, pegou a cadeira pelas laterais e a ergueu, com o homem ainda amarrado, alguns centímetros do chão, antes de cravá-la de volta no concreto. O impacto sacudiu os dentes do capturado.
— NOME! — Ian exigiu, seu rosto a centímetros do outro.
O homem chorou. Lágrimas e muco escorriam por seu rosto.
— Foi a Carolina! A sua ex louca! Ela pagou! Deu os mapas, os horários, tudo!
Ian soltou a cadeira. Um frio diferente, não de raiva, mas de cálculo rápido, percorreu sua espinha. Carolina. Ela havia feito a cena da gravidez. Faria sentido. Vingança por saber que seria rejeitada? Para machucar Olívia? Possível. Mas parecia… pequeno. Carolina era uma oportunista, não uma estrategista.
— Mentira — Ian declarou, sua voz voltando ao tom plano e mortal. — Carolina não tem recursos, nem coragem, nem motivação para mirar no meu filho. Ela é uma ferramenta. Como você. Quem a segurava?
— Eu não sei! Juro! Só ouvia um nome… um codinome…
Ian se inclinou. A luz da lâmpada pendente atrás dele lançava seu rosto em sombras, tornando-o uma silhueta ameaçadora.
— Fale.


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