A chuva caía em cortinas densas, batendo no teto do hospital como uma percussão frenética. Dentro do quarto privativo, o som era abafado, mas a tensão era palpável.
Matheus olhava pela janela, seu rosto iluminado pelas luzes azuis de dois SUVs pretos que acabavam de estacionar na entrada de serviço.
— É hora de ir — disse, sua voz era uma ordem suave, mas inquestionável. — Este lugar não é mais seguro.
Olívia, sentada na cama com Léo dormindo em seu colo, ergueu os olhos. O soro havia sido retirado, mas a palidez e o leve tremor em suas mãos permaneciam.
— Para onde?
— Para um lugar que nem eu sei o nome até chegarmos lá. Protocolo Fênix. — Matheus se virou para ela. — Ian o ativou. É o plano de contingência máximo. Significa que o perigo é iminente e interno.
Olívia aninhou Léo mais perto. A criança dormia exausta, seu rosto pacífico um contraste brutal com o caos ao redor.
— E Ian? — ela perguntou, sua voz quase sumindo no ruído da chuva.
O rosto de Matheus se fechou.
— Ele está… resolvendo coisas. Meu trabalho é levar você e o menino para um buraco no mundo onde ninguém os encontrará. — Ele se aproximou. — Preciso que você seja forte, Olívia. O que vem a seguir pode ser assustador. Mas meus homens são os melhores. E eu não vou deixar nada acontecer com vocês.
Ela assentiu, engolindo o medo. Ergueu-se, envolvendo Léo em um cobertor. Helena ajudou, cobrindo a cabeça do menino com um capuz.
— Vá com Deus, minha querida — sussurrou a enfermeira, seus olhos úmidos. — Cuidem dele.
A transferência foi rápida, militar. Olívia e Léo foram colocados no SUV do meio, cercados por três homens vestidos de preto, armados, de expressões impenetráveis. Matheus assumiu o volante do primeiro veículo. Outro segurança dirigia o terceiro, fechando o comboio.
Os carros saíram do estacionamento, mergulhando na noite encharcada. A cidade, sob a chuva, era um borrão de luzes douradas e refletores molhados. As sirenes do hospital desapareceram rapidamente, substituídas pelo som constante do asfalto molhado e pelo bater ritmado dos limpadores de para-brisa.
Olívia olhava pela janela escura, seu coração batendo em um ritmo acelerado. Léo mexia-se em seu sono, murmurando algo sobre carrinhos. Ela apertou-o contra si, sussurrando palavras de conforto que nem ela mesma acreditava.
Eles saíram da zona urbana, pegando uma estrada estadual que cortava uma área de mata fechada. A chuva aumentava, reduzindo a visibilidade a meros metros à frente dos faróis. As árvores à beira da estrada pareciam dedos retorcidos apontando para o céu negro.
No carro da frente, Matheus falava baixo em seu comando de rádio.
— Equipe Alpha, status do perímetro?
— Limpo até o quilômetro 20, chefe. Nenhum sinal.
— Mantenham os olhos abertos. Esta estrada é perfeita para uma…
A palavra "emboscada" morreu em seus lábios.
De repente, as luzes do SUV de trás — o que fechava o comboio — se apagaram. Um segundo depois, um BAQUE surdo ecoou, seguido pelo som de metal se contorcendo e vidro estilhaçando.
— Equipe Gama, reportem! — Matheus gritou no rádio.
Apenas estática.
Olívia virou-se, olhando pela janela traseira. A escuridão e a chuva eram quase absolutas, mas ela viu os faróis do terceiro SUV virados para o céu, o veículo capotado em uma vala.
— O que foi isso? — ela perguntou, seu coração disparando.
O segurança ao seu lado, um homem jovem de olhos claros chamado Rocha, já estava com a arma na mão.
— Fiquem baixos! — ele ordenou.
O SUV de Matheus reduziu a velocidade, mas não parou. Parar era morte certa.
Foi então que a armadilha se revelou completamente.
À frente, um caminhão de madeira apareceu do nada, bloqueando completamente a pista. Matheus freou bruscamente, os pneus cantando no asfalto molhado. O segundo SUV, onde estava Olívia, quase o atingiu.
— Inverta! Inverta agora! — Matheus ordenou pelo rádio para o motorista de Olívia.
Mas era tarde demais.
De trás, surgindo da escuridão como fantasmas, dois jipes modificados, sem placas, com grades dianteiras brutais, fecharam a retaguarda. Eles haviam empurrado o terceiro SUV para a vala. Agora, estavam encurralando os outros dois.
— Saia do carro! Peguem a mulher e a criança! Para a mata! — Matheus gritou, já saindo do seu veículo, sua arma cuspindo fogo em direção aos jipes.
O caos explodiu.
Portas se abriram. Homens encapuzados, vestidos com roupas escuras e à prova d'água, saíram dos jipes e também de entre as árvores à beira da estrada. Eram muitos. Mais do que os seguranças de Matheus.
Tiros ecoaram na noite, abafados pela chuva. Um dos homens de Matheus caiu, atingido no ombro.
Rocha abriu a porta de Olívia.
— Vamos! AGORA!
Olívia, com Léo agora acordado e chorando de susto nos braços, saiu correndo. A chuva a atingiu em cheio, gelada e violenta. Ela tropeçou no asfalto escorregadio, mas Rocha a segurou.
— Para ali! — ele apontou para a densa mata ao lado da estrada.
Eles correram, dobrando-se contra a chuva. Mais tiros. Olívia ouviu um grito atrás dela. Virou a cabeça por uma fração de segundo. Viu outro segurança cair.
Mas não era o Ian que ela conhecia.
Ele estava ensanguentado. Sua camisa branca estava rasgada e manchada de vermelho escuro e lama. Seu rosto tinha cortes, um acima do olho ainda sangrava. Seus punhos estavam vermelhos e inchados. Em seus olhos, não havia alívio, nem medo. Havia apenas um cansaço profundo, mortal, e uma fúria tão antiga quanto a própria noite.
Os dois homens encapuzados hesitaram, surpresos pela aparição brutal.
Ian não hesitou.
Ele avançou com uma velocidade que era quase desumana. O primeiro homem nem teve tempo de erguer a arma. Ian pegou o cano, torceu o pulso do homem com um crack audível, arrancou a arma de suas mãos e golpeou-o na cabeça com a coronha. O homem caiu como um saco de ossos.
O segundo atirou. A bala passou raspando pelo ombro de Ian.
Ian nem pareceu notar. Ele se lançou sobre o segundo homem. Não houve luta. Foi um massacre. Socos brutais, precisos. O som de ossos quebrando sob a chuva. Em dez segundos, o segundo homem estava imóvel na lama.
Ian ficou de pé sobre os corpos, respirando pesadamente, a chuva lavando o sangue de suas mãos e rosto. Ele então se virou e seus olhos encontraram os de Olívia, ainda encolhida contra a árvore, segurando Léo.
A fúria em seus olhos se dissolveu por um segundo, substituída por algo pior: uma dor profunda, uma verdade terrível.
Ele deu alguns passos pesados em sua direção, parando a poucos metros. A chuva escorria por seu rosto, misturando-se ao sangue.
— Olívia — a voz dele era rouca, destruída.
Ela não conseguia falar. Apenas olhava para ele, aquele espectro ensanguentado que era o homem que amava.
Ian engoliu em seco, seu olhar caindo sobre Léo, que agora olhava para ele com olhos assustados.
— Eu descobri — Ian disse, as palavras saindo com esforço. — Eu descobri quem está atrás de tudo isso.
Ele fechou os olhos por um momento, como se a revelação fosse fisicamente dolorosa. Quando os abriu, eles estavam cheios de uma verdade que prometia destruir o pouco de paz que ainda restava.
— O nome dela é Lenora — ele sussurrou, a chuva quase levando suas palavras. — Lenora Belmonte.
O sobrenome caiu no silêncio entre eles como uma bomba.
Belmonte.
O sobrenome de Olívia.
Ela sentou na lama fria, segurando seu filho, enquanto o mundo ao seu redor — a chuva, a mata, os corpos, o homem ensanguentado à sua frente — se desfazia em um único ponto de horror absoluto.
O inimigo tinha seu nome.

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