Olívia ficou paralisada, o mundo desfocando ao seu redor. Toda sua infância, toda sua história, passou por sua mente como um filme com o roteiro errado. A mulher reservada, de afeto contido, que nunca a beijara com a fome das mães que ela via na TV. As longas horas sozinha, justificadas como "tempo para você crescer forte". As perguntas sobre família sempre desviadas com um suspio e um "o importante é o presente, menina."
— Isso explica tudo — a voz de Olívia saiu rouca, carregada de uma compreensão dolorosa. — Toda a ausência. Toda a sensação de que eu estava... emprestada. Você nunca foi fria, foi só cuidadosa, não é? Cuidadosa com um segredo que não era seu.
— Olívia, por favor, não foi assim — a mulher tentou, seus olhos implorando.
— FOI ASSIM SIM! — Olívia explodiu, avançando um passo. As lágrimas de raiva e traição queimavam seus olhos. — Você me criou dentro de uma mentira! Quem era ela, então? Quem é a verdadeira Lenora? E por que você roubou minha vida de mim?
— Eu não roubei! — a defesa da mulher veio carregada de uma dor genuína. — Ela me deu você! Disse que se não te levasse para longe, as duas morreriam. Eu te salvei!
— Salvou pra quê? Pra me criar numa gaiola de mentiras? — Olívia engasgou. O chão parecia balançar sob seus pés.
Foi então que uma nova voz, rouca de sono e confusão, cortou o ar tenso.
— Nora? O que está acontecendo?
Na entrada da sala, de roupão sobre um pijama listrado, estava Robert. O homem de mãos calejadas pelo trabalho, que Olívia sempre chamara de pai. Seus olhos, ainda turvos pelo sono, pousaram em Olívia, depois no homem ensanguentado à sua porta e finalmente em sua esposa, cujo rosto estava pálido como a morte.
Olívia virou-se para ele, uma nova camada de horror abrindo-se em sua mente.
— Você — ela disse, apontando um dedo trêmulo para Robert. — Você também não é meu pai, é? É só mais um personagem nessa farsa. Mais um ator na peça de mentiras que chamaram de minha vida!
Robert ficou chocado. Ele olhou para Nora, sua esposa, buscando uma explicação, um sinal de que aquilo era um pesadelo.
— Olívia, o que você está dizendo? — sua voz estava frágil.
— A verdade! — ela gritou, a emoção a estrangulando. — Pergunte a ela! Pergunte qual o nome verdadeiro dela!
Todos os olhos se voltaram para a mulher no centro da sala. Ela fechou os olhos por um momento, como se reunindo coragem para um salto mortal. Quando os abriu, havia uma resignação profunda neles.
— Meu nome — ela disse, cada palavra pesando uma tonelada — não é Lenora. É Nora. Lenora Belmonte... era minha irmã mais velha. Sua mãe biológica, Olívia.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Robert emitiu um som abafado, levando a mão ao peito.
— O quê? Nora, o que você está dizendo? — a voz dele era um sussurro incrédulo.
Nora olhou para o marido, e as lágrimas que ela contivera por décadas finalmente transbordaram.
— Eu não pude te contar, Robert. Ela fez eu jurar. Disse que se eu contasse a qualquer um, inclusive a você, eles a encontrariam. Eles matariam a bebê. — Ela se virou para Olívia, sua expressão era de uma dor infinita. — Ela me deu você quando você tinha três dias de vida. Você era tão pequena, tão leve... e ela estava tão assustada. Tinha um corte no rosto, sangrava... Disse que tinha algo a resolver com uma família poderosa. Que se descobrissem que ela teve uma filha, matariam as duas. Eu era a única pessoa em quem ela confiava. A irmã mais nova, invisível. Eu sumi. Mudei de nome. Casei com o Robert, que é um homem bom e nada sabia... e te criei como minha. Para te manter viva.
Olívia escorregou pela parede até sentar no chão, as pernas recusando-se a sustentá-la. O mundo real desmoronava. Ela não era filha de Nora e Robert. Era uma refugiada de um segredo sanguinário. Uma herdeira não reclamada de um terror que a encontrara décadas depois.
Ian, que observara tudo em silêncio mortal, deu um passo à frente. Sua presença, mesmo ensanguentada e exausta, impunha uma realidade mais dura ainda.


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