O silêncio dentro do elevador que os levava de volta a suite era espesso, carregado. Um mundo de distância do calor elétrico que os acompanhara na descida. A provocação sensual, o jogo ousado, tudo isso tinha evaporado, violado pela sombra suja que Rafael lançara sobre eles.
Matheus mantinha um braço firme em volta dos ombros de Carla, sua mão grande e quente ancorando-a ao presente. Seu corpo era uma muralha ao seu lado, mas sua expressão era uma paisagem de tempestade contida. Ele não falava. Seus olhos, fixos nas portas de metal, refletiam um cálculo frio e mortal.
Ao entrarem na suite, a atmosfera íntima do lugar parecia ter virado. As velas apagadas, os lençóis revirados, tudo testemunhava a paixão recente, mas agora parecia uma cena de um crime, um cenário violado. A luz do amanhecer começava a pintar o céu de tons pastel do lado de fora da janela panorâmica, um contraste cruel com a escuridão que se instalara dentro de Carla.
Ela parou no meio da sala, os braços cruzados, como se tentando se conter. Mas não havia como conter. O choque não era do medo físico — Matheus a protegera disso com uma eficiência aterradora. Era a violação do momento perfeito. Era a sensação de ter seu passado mais venenoso cuspido de volta em seu rosto, manchando o primeiro raio de felicidade genuína que ela encontrara em anos.
Um tremor começou em suas mãos. Um leve tremor que subiu por seus braços, sacudiu seus ombros, até fazer seus joelhos fraquejarem. Ela não chorava. Apenas tremia, incontrolavelmente, como se seu corpo tentasse expelar uma toxina por todos os poros.
Matheus viu. Em dois passos, estava ao seu lado. “
— Carla — ele chamou, sua voz mais suave do que antes, mas ainda carregada de tensão.
Foi como se o som do nome dela quebrasse um dique. Ela se virou para ele, e a casca de força rachou.
— Ele… ele sempre faz isso — a voz dela saiu quebrada, as palavras saindo aos tropeções. — Ele acha que pode aparecer, invadir, estragar… e eu fico paralisada. Como se ainda fosse aquela mulher tola que acreditou nele.
Ela começou a andar de um lado para o outro, os braços ainda cruzados, os dedos cavando em sua própria carne.
— Eu te contei que ele era casado, né? Mas não te contei… não te contei como foi. — Ela parou, encarando o vazio. — Eu me senti especial. Inteligente. Vista. Ele era charmoso, persuasivo… me fez acreditar que era solteiro, e depois tentou me fazer acreditar que o casamento dele era uma farsa, que eu era a coisa real. E eu, como uma idiota, ainda tentei engolir. Dei tudo. Meu tempo, minha intimidade, minha… minha sanidade.
Matheus ficou imóvel, uma estátua de atenção absoluta. Sua raiva, antes um fogo selvagem, agora se transformava em algo sólido, pesado e gelado. Ele não se moveu para interrompê-la. Sabia que ela precisava expelir.
— Descobri por acaso — ela continuou, um riso amargo e sem humor escapando de seus lábios. — Fui levar um documento esquecido no consultório dele, num fim de semana. Encontrei uma foto na gaveta. Ele, a esposa, dois filhos lindos. Uma família de cartão postal. E uma pulseirinha de hospital no recibo, recente… da esposa, com o nome dele como contato de emergência. — Ela fechou os olhos, a dor da memória fresca em seu rosto. — Confrontá-lo foi pior. Ele não negou. Apenas… encolheu os ombros. Disse que eu ‘tinha entendido errado’, que ‘não era bem assim’. Me fez sentir louca. E depois… depois começou o assédio. Mensagens, ‘encontros acidentais’, insinuações de que eu era instável, que poderia ‘estragar a família dele’ se falasse.
Ela finalmente se virou para encarar Matheus, seus olhos brilhando com lágrimas de raiva e humilhação.
— E o pior é que funcionou. Eu me afastei. Mudei de número. Me escondi. E mesmo assim, ele achou por bem aparecer aqui. Para estragar isso. — Ela gesticulou entre os dois, sua voz subindo em desespero. — Porque homens como ele não suportam ver o que jogaram fora sendo feliz com outra pessoa. Eles precisam estragar. É a única coisa em que são bons.
A última palavra ecoou no quarto silencioso. O tremor em Carla se intensificou, e ela finalmente cedeu, deixando-se desabar em uma poltrona próxima, encolhendo-se, as mãos no rosto.
Matheus observou-a por um longo momento. A violência que ele sentira no restaurante não desaparecera; apenas mudou de estado. Da lava quente da fúria imediata para o gelo negro da vingança calculada. Ele atravessou a sala e se ajoelhou diante dela, suas mãos grandes e capazes de tanta força pousando com infinita suavidade em seus joelhos.
— Olha para mim — ele pediu, sua voz um baixo constante.
Ela lentamente abaixou as mãos. Seu rosto estava marcado, os olhos vermelhos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido