Ian não esperou pela resposta.
A frase dele, seca e imperativa, ainda ecoava nas paredes quando ele já havia cruzado a porta e desaparecido pelo corredor, deixando a porta aberta atrás de si.
Nenhum olhar para trás. Nenhum espaço para réplica.
Olívia ficou parada no meio do quarto por alguns segundos, encarando o espaço vazio, como se ainda processasse o absurdo que acabara de ouvir. O silêncio que ficou para trás parecia zombar dela. A indignação pulsava em suas têmporas.
Um jantar romântico? Com ele? Como se fosse fácil se enfiar em um vestido e bancar a noiva perfeita depois de tudo.
Sentiu os dedos apertarem o tecido da blusa, os ombros duros. A raiva vinha em ondas curtas, intensas.
Respirou fundo, tentando retomar o controle. Não ia dar a Ian o prazer de vê-la desconcertada.
— Jantar romântico… só se for no inferno — murmurou para si mesma, com um suspiro irritado.
Forçou o corpo a se mover, a não ficar presa naquele nó de indignação. Caminhou até o banheiro enorme onde encontrou Léo se equilibrando sobre o banquinho, tentando alcançar a torneira.
Ele estava concentrado em formar bolhas de sabão com as mãos, enquanto a água escorria, ele gargalhava sozinho com o próprio reflexo. Gostaria de voltar a ser criança, para brincar, fingir, sonhando com finais felizes.
— Mamãe! Olha, parece um monstro! — disse ele, mostrando a espuma na forma de duas “orelhas” enormes.
O coração de Olívia derreteu na hora. Meu menino... o amor que sentia por ele só fazia crescer.
Aproximou-se, segurando o rosto dele para um beijo rápido.
— Vamos, monstrinho, temos que nos aprontar. — disse, forçando um tom leve enquanto ajudava-o a terminar de se arrumar.
Enquanto o ajudava a escovar os dentes e escolher a roupa, tentava manter o sorriso no rosto. Mas, por dentro, a lembrança do jeito autoritário de Ian voltava como uma farpa.
Depois de ambos prontos, desceram até a entrada. Carla já esperava no carro, estacionado diante dos portões imensos da mansão. Ela estava encostada na porta com o celular na mão quando ouviu o zumbido.
Os portões da mansão se abriam lentamente atrás de si, revelando o contraste gritante entre o mundo de fora e aquele lugar.
Assim que Olivia atravessou a saída da casa, Carla soltou uma assobiada baixa.
— Nossa… — ela soltou, medindo a fachada de cima a baixo. — Então é aqui que você tá vivendo agora... Parece cenário de novela.
— Pois é... — Olivia ajustou o cinto de Leo na cadeirinha, sem vontade de prolongar o assunto, enquanto sua amiga tinha uma conversa animada com seu filho.
Quando terminou fechou a porta do carro na parte de trás e quando sentou-se no banco do carona, Carla já começou a acelerar.
Mas ela ainda não havia se dado por vencida.
— E a primeira noite com o noivo? — ela não perdeu tempo, um sorrisinho curioso nos lábios.
Olívia lançou um olhar de lado, os olhos se estreitando, quase um aviso para não continuar. Mas respondeu:
— Foi perfeita.
Carla se virou para ela, ainda mais interessada. Piscou, curiosa.
— Perfeita? Como assim? O que você e o senhor Moretti fizeram?
—Nada. — Oliva sorriu de lado, ácida. O tom saiu afiado, quase um corte. — Foi perfeita porque ele não estava. Passou a noite fora.
O sorriso de Carla sumiu aos poucos. Ela ficou em silêncio por um momento e depois perguntou, séria:
— Ele passou a noite fora?
— Passou. — Olívia manteve o olhar na estrada, tentando encerrar o assunto. — E eu prefiro ficar sozinha do que ter que aguentar ele o tempo todo e fingir que gosto dele, sendo que ele nem me faz sentir nada.
Carla ficou pensativa, mexendo no próprio anel.
— Você acha que ele… tem outra?
A pergunta caiu pesada. Olívia sentiu um frio no estômago, mas não queria dar espaço àquilo. Apenas endureceu a postura, o pensamento batendo em sua mente como um copo caindo no chão, fazendo seu coração bater mais no peito.
— Eu não sei. — Endureceu o tom, desviando o olhar para a janela, desconfortável. Sentia o vento pela pele. — E também não importa.
O resto do caminho seguiu num silêncio incômodo. Sua mente em queda livre. Só o ronco baixo do motor preenchia o carro, até chegarem ao hospital.
Quando chegaram, Léo foi levado para a sala de exames. Olívia e Carla ficaram esperando no corredor, os as duas sentadas lado a lado num banco estreito.
— E depois daqui, o que vai fazer? — Carla retomou, como quem tenta distrair o próprio pensamento.
Olívia hesitou, respirou fundo antes de responder:
— Hoje à noite tenho um jantar com Ian.
Carla arregalou os olhos.
— Sério? — ela abriu um sorriso quase infantil. — Um jantar romântico? — Nossa, como eu queria ser quem vai deixar vocês dois de carro, em um restaurante caro, e ficar do lado observando tudo.
— Não começa, Carla. — Olivia revirou os olhos. — Só queria saber o que fazer para me livrar desse veneno.
— Mas… Você não tem medo? — insistiu.
— Medo de quê? — perguntou, rindo para disfarçar o desconforto.
— Se quiser, posso já preparar o lanche da tarde dele enquanto você descansa um pouco. — ofereceu Helena. — Imagino que esteja exausta.
Olívia hesitou por um segundo, mas aceitou, grata.
— Obrigada. Ele gosta de cookies, mas só um, por favor. O restante da dieta...
— Já tenho tudo em mão. Não se preocupe. — ela sorriu e pegou Leo pela mão.
Foram juntos até a cozinha, onde Helena já conversava com Léo como se fossem velhos amigos.
Olívia, aliviada, subiu para o quarto, os sapatos apertados incomodando cada passo. Assim que fechou a porta, sentou-se na beira cama e os tirou, sentiu o corpo inteiro relaxar, pedir uma pausa.
Mas, no fundo. Sabia que o dia estava longe de terminar. A noite, teria que enfrentar Ian.
Olívia se deixou afundar por alguns segundos no colchão, sentindo os músculos finalmente cederem depois de um dia que parecia ter três dias dentro dele. O silêncio do quarto era quase um abraço, e ela estava prestes a fechar os olhos quando notou.
Havia algo sobre a cama.
Uma caixa. Grande. Luxuosa. O tipo de embalagem que, por si só, já te faz sentir que o que está dentro não é comum.
Um bilhete repousava sobre a tampa, a caligrafia firme e precisa:
“Isso é para usar esta noite.”
O coração dela acelerou sem motivo aparente. Ou talvez o motivo fosse óbvio demais.
Ela puxou a fita devagar, como se qualquer movimento brusco fosse estragar o momento. A tampa ergueu-se revelando tecido cuidadosamente dobrado. O ar pareceu rarear.
Era um vestido. E não qualquer vestido. Preto profundo, modelagem perfeita, feito para abraçar o corpo nos lugares certos e insinuar nos outros. O tipo de peça que você veste sabendo que vai atrair olhares, e que alguém planejou para que isso acontecesse.
Olívia passou a mão pelo tecido, sentindo a suavidade quase pecaminosa. Debaixo dele, um par de sapatos de salto, impecáveis, com o couro ainda novo, sem um arranhão.
Mas o que realmente a fez prender a respiração não estava à vista logo de início. No fundo da caixa, envolta em papel de seda, repousava uma lingerie.
Não havia nada de inocente nela, rendas negras, tiras finas, cortes estratégicos. Uma peça feita para despir mais do que cobrir.
Olívia soltou o ar de uma vez, quase em um riso incrédulo.
— Ele só pode estar brincando… — murmurou para si mesma, o vestido ainda pendendo da mão.
Por que ele acharia que ela usaria aquilo para um jantar?
E, pior… por que parte dela estava considerando a ideia?

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