Olívia ficou parada no meio do quarto, diante da cama, como se a caixa aberta fosse uma espécie de armadilha. Os dedos presos no tecido fino do vestido.
O preto vívido parecia quase pulsar à luz suave que vinha da janela, impecável, moldado para cair perfeitamente no corpo. Era perfeito, o caimento, o corte, o toque macio.
Ian tinha escolhido aquilo a dedo… ou pior, tinha mandado alguém escolher por ele. Já a lingerie… aquilo era outra história.
Ao lado, dobrada com um cuidado quase insolente, a lingerie preta, mínima, indecentemente bonita, brilhava feito um segredo que não devia ter sido descoberto.
A ponta dos dedos tocou o tecido frio e sedoso. Sentiu o calor subir pelo rosto. Não sabia se era raiva ou outra coisa.
Por um momento, ela quase sentiu a respiração de Ian atrás dela, como se ele estivesse observando para ver se ela obedeceria.
"Usar é ceder... Não usar é provocar."
O pensamento ecoou até que ela respirou fundo, decidindo: vestido sim, lingerie não. Uma resposta silenciosa, mas que ele entenderia.
Respirou fundo, fechando a caixa com um movimento rápido. Não. Não ia dar a ele esse gostinho. Que ele aprendesse que nem tudo nele ditava as regras.
Enquanto se arrumava, a raiva e a curiosidade se alternavam como ondas. O que queria com tudo aquilo? Mostrar poder? Controlar? Ou... provocar?
O reflexo no espelho mostrava uma mulher impecável, mas o coração acelerado de quem estava prestes a entrar em um campo minado. Não sabia se queria arrancar aquele vestido do corpo ou atravessar a mansão só para ver a reação dele.
Ela estava diante do espelho, o vestido pendurado sobre o corpo como uma segunda pele, mas o zíper nas costas parecia ter sido feito para desafiar a paciência de qualquer mortal. Tentou alcançar, se contorcendo, mas o tecido insistia em não colaborar.
— Droga… — murmurou, frustrada, o cabelo caindo sobre o ombro.
Bateu na porta, chamando baixo:
— Helena? Você pode vir um instante?
A enfermeira apareceu na porta em segundos, ainda com o uniforme branco. Os olhos gentis passaram do vestido para o rosto de Olívia, e ela abriu um sorriso cúmplice.
— Uau… quem vai ter o privilégio de ver você assim?
Olívia revirou os olhos, tentando disfarçar o incômodo.
— É só um jantar. — respondeu seca, mas não conseguiu evitar um leve rubor. — Pode fechar pra mim?
Helena entrou, posicionou-se atrás dela e começou a subir o zíper com cuidado.
— O vestido é lindo. — comentou, prendendo o último gancho no topo. — Mas parece que foi feito para não deixar você escapar dele.
— É… o Ian tem esse talento para escolher coisas que prendem. — respondeu Olívia, meio rindo, meio amarga.
Helena apoiou as mãos nos ombros dela por um instante, olhando o reflexo no espelho.
— Não sei qual é a história de vocês… mas se for sair para enfrentar o mundo, vá linda e com a cabeça erguida.
Olívia soltou um suspiro, ajeitando o cabelo.
— Não se preocupe. Eu sei atuar quando preciso.
Helena sorriu e se retirou, deixando Olívia sozinha outra vez, encarando o reflexo. E foi nesse momento que ela percebeu: o vestido era perfeito.
A maquiagem delicada e chamativa em seu equilíbrio, o batom bordô em seus lábios, brincos longos e prateados. Os saltos altos que vieram na caixa também repousavam em seus pés. Mas a lingerie continuava dentro da caixa e ficaria lá.
Quando terminou de checar seu reflexo no espelho e se despediu do Leo, prometendo que voltaria rapidinho, ela desceu as escadas com passos controlados. Cada passo que dava, cada movimento que fazia parecia perdido, sem direção, mas hoje, precisava se controlar.
Ian já estava lá. Ele parecia perfeito, mas inconsciente disso, o que a fez parar e olhar.
Encostado a lateral de uma poltrona, impecável no terno escuro perfeitamente ajustado. O corte alinhado do paletó, a gravata ligeiramente afrouxada, barba aparada, o relógio de aço brilhando discretamente no pulso, o cabelo escuro penteado de forma displicente demais para ser natural. Tinha aquele ar irritante de quem sabe exatamente o que provoca.
Ele ergueu os olhos. E o olhar dele percorreu o corpo dela como se fosse dono de cada detalhe. Demorou um segundo a mais na curva do quadril antes de erguer a sobrancelha. Ele sabia. E bastou um segundo para perceber.
Não era só que ela usava o vestido. Mas ele sabia com a certeza de quem imaginou a cena antes que ela não tinha usado a lingerie.
Um canto da boca dele se ergueu, lento.
— Ficou… perfeita. — A voz baixa, arrastada, sem pressa. Um meio sorriso que não explicava nada. — Mas poderia ter ficado mais.
Olívia sustentou o olhar, sentindo o calor subir pelo pescoço.
— Sinto decepcionar o estilista. — respondeu, com um sorriso leve. — Não tenho o costume de seguir instruções cegamente.
Ele inclinou a cabeça, como quem aprecia o desafio.
— Vai ser divertido, então.
— Devíamos praticar mais. — comentou, com ironia. — Um casal perfeito precisa estar afiado para as apresentações.
— Não se preocupe. — rebateu ela, virando o rosto para a janela. — Eu aprendo rápido. Mas não vou me tornar uma marionete sua.
Ele riu baixo.
— De verdade, somos muito bons como casal perfeito. Devíamos ganhar um prêmio.
— Prêmio de atuação? — ela devolveu, sem hesitar. — Porque na vida real, a sua nota seria outra.
— Sério? — ele perguntou, tirando os olhos do volante. — Eu acho que banco um homem apaixonado muito bem.
— E por acaso você sabe como é se sentir apaixonado? — Olivia rebateu no mesmo instante, sentindo o gosto vitorioso de sua resposta rápida.
Ian voltou a rir, mas dessa vez, não respondeu.
Finalmente chegaram e o restaurante era impecável. Tinha aquele tipo de luxo que não precisava ser exibido: lustres de cristal e mesas amplas com arranjos discretos. A iluminação era suave, a música que parecia vir de muito longe.
Todos os olhares se voltaram e pousaram neles assim que entraram.
Ian foi impecavelmente atencioso: puxou a cadeira para ela, tocou levemente o braço dela quando se inclinou para perguntar o que ela queria beber.
Cuidado demais. Encenação demais. Não era correta a forma como tudo estava acontecendo.
Mesmo sabendo que tudo aquilo ali não passava de encenação, as vezes, sua mente a traia com a ideia de que havia algo mais nos gestos. Mas obviamente, ela não deixou transparecer.
Mas, para o azar dela, cada toque deixava um rastro. Tipo um rubor discreto em suas bochechas. Enfrentaria as consequências de suas escolhas, iria crescer com seus erros.
— Você está atuando bem demais. — murmurou ela, enquanto mexia no cardápio.
— Ou talvez eu esteja apenas aproveitando. — ele rebateu, sem desviar os olhos.
Estava pronta para soltar mais uma provocação quando percebeu que o rosto dele mudava. Ian estava olhando para algum ponto atrás dela, mas a atenção não estava mais na mesa. O maxilar contraiu, a respiração ficou mais curta.
Ele largou os talheres com cuidado, mas o som metálico pareceu mais alto que deveria.
— Acho que nossa noite perfeita vai ter que esperar… — disse, a voz baixa, grave. — Temos um problema.

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