O ambiente ainda estava mergulhado no burburinho elegante do restaurante quando o garfo de Ian parou no ar, como se o tempo tivesse congelado.
Não foi um movimento brusco, mas havia uma tensão real como se uma tempestade estivesse prestes a eclodir. O sorriso que ele exibia, aquele sorriso calculado para o público, se desfez num instante, substituído por uma atenção absoluta a algo que estava atrás de Olívia.
Os olhos dele, antes preguiçosos e atentos só nela, se fixando bem adiante. Olivia como se o ar tivesse mudado de temperatura.
Ela notou a mudança e começou a virar o rosto, instintivamente, mas sentiu a pressão quente, firme, quase imperceptível, nos dedos.
Ele segurou seu pulso, escondendo o gesto sob a toalha de linho. Os dedos dele apertaram, não o suficiente para machucar, mas com intensidade suficiente para impedir qualquer movimento.
— Não olhe agora. — A voz dele saiu baixa, arrastada, quase roçando na pele dela, como um aviso sussurrado em meio ao caos.
Um arrepio involuntário subiu pela sua nuca, e o coração de Olívia disparou. Não pelo medo, mas pela certeza de que qualquer coisa que o fizesse reagir assim não era boa. O tom dele não pedia: ordenava.
— Ian… o que foi? — sussurrou tentando controlar a voz e mantendo o sorriso para a plateia invisível, tentando esconder a inquietação que crescia dentro dela.
— Alguém que não deveria estar aqui… está. — ele respondeu, a expressão inabalável, mas os olhos revelando uma tempestade interna.
Ele manteve o olhar fixo, como se monitorasse cada passo atrás dela.
— Quem? — insistiu.
— Um velho amigo do meu avô. Amigo e... inimigo. — Ian inspirou fundo. — E a Carolina está com ele.
O nome caiu como uma faca, cortando o ar entre eles. Olívia manteve a postura, mas por dentro sentiu a espiral começar a girar, a adrenalina pulsando em suas veias.
Ela soltou o guardanapo no colo e recostou-se, erguendo o queixo.
— O que diabos a sua ex está fazendo aqui com esse homem?
Ele piscou devagar, como se medisse cada palavra, cada respiração.
— Carolina é amante dele. — a resposta foi seca, quase gélida.
— Desde quando? — a voz de Olivia já tinha mais ferro que curiosidade. — Desde quando vocês...
— Não vamos falar disso agora. — A voz dele cortou como aço, e a intensidade fez seu estômago revirar, o maxilar travado. — Temos coisas mais importantes para se preocupar.
Ela bufou, mas em seguida forçou um riso para quem pudesse estar observando. Inclinou o corpo para frente, o suficiente para que seus joelhos tocassem discretamente os dele, buscando um pouco de conforto em meio ao pânico.
— Você está exagerando.
O olhar dele pousou sobre o dela, denso, cortante como se tentasse atravessá-la. A tensão entre eles era quase elétrica.
— Esse homem já destruiu reputações e negócios apenas com informações. Se não parecermos unidos agora, seremos o próximo prato no cardápio dele.
Ele deixou um riso baixo e rouco escapar, o hálito tocando sua pele, provocando um arrepio.
— Para mim também. — respondeu colado ao ouvido dela.
Nos minutos seguintes, o toque dele era constante. Os segundos passavam lentamente. A ponta dos dedos roçando o pulso dela, como se medisse a pulsação. O joelho pressionando o dela sob a mesa, às vezes afastando, às vezes mantendo o contato. O olhar que não se perdia, mesmo quando ele sorria para qualquer outro no salão. E a cada novo sorriso dele, Olívia sentia um arrepio percorrer sua alma.
Era impossível saber onde acabava o teatro… e onde começava algo perigoso.
Então, um homem de preto aproximou-se e colocou discretamente uma pequena caixa nas mãos de Ian. Olívia mal teve tempo de perguntar o que era.
Ian se levantou, com a calma de quem já tinha tudo planejado, e, diante de todas aquelas mesas, ajoelhou-se em frente a ela.
A caixa se abriu, revelando um anel que parecia engolir a luz ao redor, um símbolo de promessas e perigos.
Olívia piscou, perdida entre indignação e o impacto da cena, o coração disparado.
— O que você está fazendo? — sussurrou, a voz tremendo.
E ele apenas sorriu, um sorriso que dizia mais do que qualquer resposta.
Ele já sabia exatamente o que iria dizer.

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